



1- Lyssa

Talvez voc me odeie por isso, mas acho melhor dizer logo: sou bonita.
Pronto, falei. Na certa voc vai pensar que sou metida, que me acho o mximo, mas no  nada disso. Srio! Pensando bem, a culpa de eu ser assim  da minha me - 
ela  que  linda. Mas ser bonita no  grande coisa - no quando isso  tudo aquilo que se tem.
Quando eu tinha treze anos, achava que as modelos nas revistas eram as pessoas mais felizes do mundo. Achava que, se tambm virasse modelo, minha vida ficaria mais 
emocionante e todos os meus problemas estariam resolvidos.  que no ano passado
meus pais se divorciaram, e meu pai foi morar em Houston. 
Eu tinha que fazer alguma coisa pra compensar a perda.
Ento, minha me me levou a uma agncia de modelos em Dallas, e fui contratada para fazer a propaganda de uma pizzaria. 
Depois disso veio um desfile, vieram outras propagandas e, num piscar de olhos, minha carreira tinha decolado. Minha carreira e a minha vida.
Agora vamos avanar cinco anos. Eu tinha dezoito anos, estava terminando o colegial e no tinha tempo pra nada. Nos ltimos semestres minha vida tinha sido uma loucura: 
desfiles, fotos e comerciais. Daquele tempo s me lembro do estresse que passei. S tinha duas coisas que me faziam ficar feliz: desenhar e fazer minhas roupas, 
passatempo que eu havia iniciado nos ltimos dois anos, e reunir minhas amigas no final das tardes de sbado, quando a gente se arrumava pra ir pra balada (se eu 
no tivesse que trabalhar).
Minhas amigas adoravam quando eu dava "consultas" sobre moda. Eu dava palpite em tudo: no cabelo, no batom, nas roupas. Aqueles sbados eram tudo de bom!
Num sbado  noite, dia da festa do colgio, Betsy Weddington, Ruth Kwan e Heather Tamblin, minhas trs melhores amigas, estavam no meu quarto, testando tipos de 
maquiagem e penteado. 
- Todos os problemas do mundo podem ser resolvidos com o batom da cor certa - eu disse, segurando o queixo de Ruth. Contornei sua boca com um lpis, deixando-a aparentemente
maior. Ruth mexeu um pouco a boca pra relaxar, depois voltou a fazer beicinho e franziu as sobrancelhas, dizendo:
- Ser que tem algum batom pra chamar a ateno do meu namorado?
- Pensei que voc no fosse perguntar nunca. Morro de vontade de experimentar outras cores, mas voc sempre fala pra passar bem longe do vermelho! - Abri a gaveta 
da penteadeira e procurei entre dzias de embalagens de metal e de plstico. - Aqui est, Fogo Intenso. Sexy, porm doce. A cor certa pra dar um recado do tipo: 
"T muito a fim, gato, mas cuidado, seno a fila anda". 
- Uau! A Ruth usando batom vermelho! Que mximo! - Heather saiu da frente do espelho da minha penteadeira e apontou o frasco do rmel na direo dela. - O que foi 
que Hank aprontou dessa vez? Desmarcou o cinema?
O rosto de Ruth ficou da cor do batom.
- Olha s quem fala! - disse Betsy, sentada na minha cama com as pernas cruzadas, esperando a unha secar. - Justo voc, que j cancelou tanto encontro com Stephen 
que o coitado no desgruda mais do celular, esperando voc ligar? Lyssa, voc tem algum batom que ajude uma menina a se decidir?
- Pode ser. - Com ar pensativo, fiquei estudando o rosto de Heather, que olhou para Betsy com cara de quem ia mat-la. 
Cabelo loiro claro. Pele branca. Olhos verdes. Ela tinha uma tendncia para cores fteis, como rosinha cintilante e pssego. Talvez fosse hora de faz-la descer 
das nuvens e usar cores um pouco mais neutras.
_ Poxa, Lyssa, eu s estava brincando! Voc no acredita que a maquiagem possa mudar a pessoa por dentro, n? - Betsy perguntou.
_ Claro que no! - eu disse, tentando parecer indiferente, mas me achando uma idiota. Betsy era a mais inteligente de ns, e, das trs, provavelmente era a minha 
melhor amiga. Mas s
vezes conseguia me fazer sentir uma estpida!
_ E a, Lys, me conta: como foi o teste pro comercial hoje de manh? - Heather perguntou. - Rolou?
_ Ainda no sei - respondi, feliz em mudar de assunto. - Achei que ia ter que falar alguma coisa, mas s precisei entregar uma foto e responder duas ou trs perguntas. 
Mas no existe a menor chance ... eu nunca fiz nada pra TV na minha vida.
_ Bom, sempre tem uma primeira vez - disse Ruth. - Essa pode ser a sua grande chance. Quem sabe algum diretor famoso te v e chama pra fazer um filme!
_ No viaja!  s o comercial de uma loja de produtos eletrnicos.
No mximo vai ser a minha "chance" de conseguir um Mega desconto numa TV de tela plana de 42 polegadas.
_ Mais um motivo pros gatos darem em cima de voc - Betsy deu risada. - Por falar nisso, com quem voc vai  festa hoje? Com o Todd Bannister?
_ No. Voc no o conhece. O nome dele  Byron Westmoreland III, mas todo mundo o chama de West. Eu o conheci na semana passada, quando fui fazer as fotos daquele 
catlogo.
_ Aposto que ele  o maior gato! - disse Heather. - Me conta: ele  bonito ou no?
_ Com certeza. Ele  alto, sarado, tem o rosto bem desenhado - falei, sorrindo, enquanto a imagem de West me vinha.  cabea. - E tem o cabelo bem curto, com costeletas. 
Eu adoro
homens com esse tipo de cabelo!
Betsy ficou olhando pra mim por alguns minutos.
_ Humm, vocs viram como os olhos da Lyssa brilharam quando ela descreveu o gato? Ser que vai ser hoje? Ser que a Lyssa finalmente encontrou algum digno de ser 
seu namorado?
_ Uaaauuu - fizeram minhas duas outras amigas, em uma s voz.
 - Fala srio, Betsy! - exclamei, olhando pro teto. - Eu nem conheo ele direito.
Ruth apontou o dedo pra mim e disse, em tom de censura:
- No se esquea de que voc vai ter que engatar um relacionamento srio com algum logo, logo, dona Alyssa Naylor!
Faltam apenas seis semanas para a festa  fantasia do colgio.
-  isso a, Lys. E ento, quem  que voc vai convidar?
Dei de ombros.
- No - sei. Vamos ver.
Decididamente eu no estava a fim de comear de novo aquele papo sobre o meu pretenso namorado. J me sentia um peixe fora d'gua por causa da minha agenda profissional, 
e piorava ainda mais quando algum me lembrava de que era a nica que no tinha um relacionamento pra valer. 
Eu tentava me convencer de que no precisava de um namorado, de que um relacionamento apenas complicaria minha vida, mas tinha a sensao de estar perdendo algo, 
sobretudo quando via Ruth sorrir ao olhar pro Hank, ou Heather e Stephen conversando empolgados. Mas quem eu mais invejava mesmo era Betsy. 
Toda vez que ela olhava para Cliff, com quem namorava havia trs anos, seu rosto adquiria um brilho que maquiagem nenhuma poderia proporcionar. 
Aps um pouco de mousse pra cabelo e uma leve camada de p, Heather e Ruth passaram pelo meu crivo e saram para se encontrar com os respectivos gatos. Betsy continuava 
sentada na minha cama com toda a pacincia do mundo. Seu cabelo castanho- avermelhado, em que ela havia acabado de fazer babyliss, estava todo cacheado.
- Desculpe, Bets - falei, procurando o spray de cabelo. - Termino de arrumar voc num segundo. 
- Fica fria. Ainda falta meia hora pra eu me encontrar com o Cliff.
Fiquei observando o rosto da minha amiga enquanto ela dizia o nome do namorado. Era uma felicidade s. 
- Betsy... - comecei a dizer enquanto colocava spray no cabelo dela. - Como foi que voc soube que o Cliff era o cara certo?
_ Um dia eu o peguei lendo um romance de Thomas Hardy no clube. Quem resiste a um gato que sabe que existem coisas mais interessantes do que a Playboy? - Betsy riu.
Larguei o spray e sentei-me  sua frente.
_ Eu estou falando srio. Como  que voc soube?
_ Sei l, entende? S sei que, na hora, eu soube. Assim que o conheci, me deu um frio na barriga. Era como se houvesse borboletas no meu estmago. Conforme a gente 
foi se conhecendo, as borboletas comearam a voar mais e mais. Sabe o que quero dizer?
Infelizmente no, pensei, com o corao apertado. Qual era o meu problema? Por que eu ainda no tinha conhecido ningum que me fizesse sentir daquele jeito?
Betsy me olhou de sobrancelha erguida.
_ O que  que t pegando, Lys? O que voc quer saber?
_ Nada - falei, sentando ao lado dela. -  que s vezes fico pensando se algum dia vou encontrar o cara da minha vida, algum com quem eu possa ser eu mesma, que 
me ame de verdade ...
_ Claro que vai, Lys. Eu te juro! - Betsy me consolou com um abrao. - A gente nunca sabe ... E se o tal West for esse cara? 
Ouvir o nome dele me fez abrir um sorriso. Senti uma coisa boa. Talvez aquela fosse a grande noite. Talvez West fosse o cara da minha vida!
Mas no me sentia muito empolgada ali no saguo da escola.
Enquanto Cliff, Hank e Stephen conversavam sobre futebol, as meninas comiam West com os olhos, enquanto ele bebia um pouco de gua. J eu no conseguia me entusiasmar. 
Comecei a me perguntar, de novo: Qual  o meu problema?
_ Os dentes dele so lindos! So de verdade? - Ruth perguntou.
_ Talvez no - Betsy respondeu. - Quase todos os modelos fazem tratamento esttico nos dentes, no , Lys? 
_ Bota esttico nisso! Esse gato merece no mnimo nota 99 numa escala de um a cem! - Heather exclamou. 
Betsy chegou mais perto de mim e perguntou:
- E ento? Est gostando dele?
-  ele  legal...
_ Eu perguntei se voc est gostando dele - Betsy repetiu.
No consegui responder e dei de ombros, meio sem jeito. 
Bem que eu gostaria de mostrar mais entusiasmo. Afinal, minhas amigas pareciam ach-lo o mais gato dos gatos! Mas, como sempre, a aberrao era eu. No conseguia 
me sentir  vontade ao lado de West.
- Vamos mudar de assunto! Ele est vindo! - Heather anunciou.
Ns nos viramos bem na hora em que West atravessava o corredor, consciente dos olhares que provocava. 
- Sentiu muito a minha falta? - West me perguntou. Heather soltou um suspiro atrs de mim. 
- Ahn...  claro.
- Vamos danar? - ele convidou.
- Vamos.
West me puxou para a pista e comeamos a danar ao som de Black Eyed Peas. Ele era bastante desajeitado. Eu no sabia de que assunto falar, o que no tinha a menor 
importncia, porque s ele falava... e quase o tempo todo dele mesmo. Nada do que
dizia me interessava. Por isso, depois de um tempo, parei de escutar. Eu esperava uma pausa no discurso e tentava improvisar uma resposta.
- ... E o pessoal queria que a gente se vestisse como os fs do Dallas Stars - West dizia. - No comeo tentaram me convencer a pintar o peito com uma tinta amarela 
nojenta, mas eu
disse: "Nem pensar. Logo agora, que vou fotografar com roupa de banho? E se me der alergia?". S sei que no fim, quando eu j estava pensando em largar todo mundo 
ali, eles piraram. 
-Ahan...
- Mandaram buscar um monte de mostarda e me lambuzaram com aquilo!  mole?
- Ahn ... no. Que doideira!
- Bota doideira nisso! Sabe o que eu disse? Virei pro cabeleireiro e perguntei: "No tem maionese e catchup?". Ele quase morreu de rir! - West caiu na gargalhada.
- Foi engraado mesmo - eu disse a ele, embora no tivesse achado a menor graa na histria. 
Depois de vinte minutos, eu j no agentava mais. Sabia que deveria gostar de West, mas no conseguia, e estava cansada de fazer fora pra isso. Entre uma msica 
e outra, pedi licena e disse que precisava ir ao banheiro.
Havia uma fila enorme no banheiro, e um bando de meninas estava na frente do espelho. Assim que entrei, elas pararam de conversar.
- Oi - eu falei.
- Oi - disse Caitlyn Verlaine, que me deu um sorriso falso e se virou para suas amigas. Em segundos, estavam todas cochichando, dando risadinhas e me olhando pelo 
espelho. Disseram algumas frases em um tom alto o bastante para que eu ouvisse:
"Se acha o mximo" e "se veste como se fosse a noite da entrega do Oscar". Fiz que no era comigo e fiquei na fila, esperando minha vez de ir ao banheiro e fazendo 
o possvel para no me deixar abalar.
Por que no chamei a Betsy ou a Ruth para virem comigo?, pensei, mas j era tarde. Detestava ter de encarar aquele tipo de situao sozinha. Engraado: mesmo acostumada 
com um monte de gente me olhando quando estou na passarela ou posando pra uma foto, me sentia muito constrangida nas festas da escola. Pelo menos nos desfiles e 
nas sesses de fotos eu sabia o que fazer; ali, no tinha a menor idia.
Caitlyn resmungou algo e as outras meninas caram na gargalhada.
Mesmo no indo com a cara dela, no fundo eu a invejava, pois meninas como Caitlyn sempre se sentiam  vontade em qualquer atividade da escola. Eu, ao contrrio, 
nunca tive tempo
de participar de grupinhos. Por causa do meu trabalho, no conseguia me entrosar, ento ia ao colgio s para assistir aula. S no me sentia mais deslocada naquele 
ambiente por causa da minha amizade com Betsy, Heather e Ruth.
Quando sa do banheiro, ainda no me sentia bem para voltar  festa. Precisava respirar mais alguns minutos. Queria me sentar em algum canto escuro e recuperar a 
calma. Olhei ao meu redor e vi a escada que dava pro andar de cima. L havia um cantinho
escuro com um banco e uma planta artificial. Seria o refgio ideal por um tempo.
Subi a escada, sentei-me no banco e dei um suspiro de alvio.
- Tambm est se escondendo? - perguntou uma voz atrs de mim.
- O qu? - Virei-me e vi um vulto encostado  parede. - Ahn ... no. Eu... eu me perdi. Por qu? Voc est se escondendo?
- Eu? No.  que esta planta artificial tem um papo mais agradvel do que o das pessoas com quem conversei hoje. 
Ento, eu o reconheci. Era Dante Michaels, que tinha feito Ingls Avanado comigo no ano anterior. Era um cara rebelde, mas no do tipo que andava de moto, usava 
roupas de couro e no dizia coisa com coisa. Ele discutia assuntos como o valor da mensalidade, a proibio de acesso a certos livros e o motivo de a lanchonete 
no servir refeies preparadas com ovos de galinha caipira criada em liberdade. No incio do vero, a Diretoria proibiu os meninos de usar camiseta regata, sob 
a alegao de que os plos debaixo do brao "distraam" as meninas. Em protesto, Dante convenceu vrios colegas, inclusive todo o time de basquete, a raspar as axilas.
Alm de ser famoso por seu comportamento rebelde, Dante era muito conhecido por seu "estranho" senso esttico. No dava pra prever sua prxima esquisitice. Naquela 
noite, usava uma camisa tipo havaiana toda colorida, cala jeans preta e tnis de cano alto roxo. Ou seja, em termos de moda, fala srio: o cara era um pesadelo! 
Acho que era por isso que nunca tinha falado com ele: Dante era, digamos, muito "excntrico".
Ele apalpou um objeto retangular no bolso da camisa.
- Se importa se eu...
- Por favor, no! Me embrulha o estmago.
Era o fim! Tinha acabado de encontrar um lugar tranqilo e aparecia algum querendo me sufocar com fumaa de cigarro.
- Ahn... eu ia perguntar se voc se importaria se eu citasse algumas palavras suas no jornal da escola. - Ento tirou do bolso um bloquinho de notas e o sacudiu 
na minha frente. - Sei que a imprensa tem pssima reputao, mas eu no fazia idia de que causava nsia de vmito nas pessoas.
- Desculpe - falei com humildade. - Pensei que voc ia...
- Eu sei - Dante disse, dando um sorriso que iluminou a escurido. E que sorriso...
Ele se encostou no corrimo da escada, chegando mais perto de mim. As luzes que vinham da pista de dana brincavam em seu rosto.
Minha respirao ficou mais rpida.
Jamais tinha visto um cara de olhos to lindos ou intensos.
Como  que eu nunca reparei nele? Perguntei a mim mesma.
- E ento, posso fazer duas ou trs perguntas? Tenho esse pssimo hbito. J tentei mudar, mas o meu orientador no pra de me dar tarefas. Cada vez ele me arranja 
mais trabalho... - Ele me lanou outro sorriso maravilhoso. - Na verdade,  s por isso que estou aqui hoje. Vim cobrir a festa para o jornal. Vai ser a primeira 
edio deste ano. Mais uma entrevista e j posso ir pra casa. Voc no quer me ajudar?
Aqueles olhos enormes imploraram de um jeito irresistvel.
No tinha como recusar.
- Claro. Por que no?
- Ento vamos l. - Ele pegou a caneta e abriu o bloco. - Est gostando da festa?
Respirei fundo e olhei para a pista de dana. Betsy e Cliff estavam rindo de alguma coisa engraada. Ruth fingia ler um cartaz pregado na parede, enquanto Hank conversava 
animado com alguns amigos, provavelmente sobre esportes. Stephen no estava  vista, mas Heather havia puxado West para danar um hip-hop e estava tentando chamar 
a ateno dele com seus passos.
- Puxa, eu no sabia que a pergunta era to difcil... No est se divertindo nem um pouquinho?
Deixei de lado a pista de dana e virei-me para ele.
- Posso responder algo do tipo "sem comentrios"? - falei meio na brincadeira.
Dante guardou a caneta e o bloco de notas.
- Ah, pelo que vejo estou falando com uma mulher que tem crebro e bom gosto. At agora s haviam me respondido coisas como: "Os bailes a rigor so melhores", "por 
que no vendem cerveja?" e "deviam tocar mais Backstreet Boys".
Eu comecei a rir.
- Quer dizer que voc tambm est achando isso aqui uma chatice? - ele perguntou.
- Eu... eu no disse isso - respondi indignada. - Disse:"Sem comentrios".
- Ah, fala srio! Por que no diz a verdade? Esse tipo de festa no tem nada de divertido. S serve pra voc ser visto com a roupa e a pessoa "certas". Tirando o 
fato de contar pontos na avaliao social, essa festa no tem nada de interessante.
Fiquei olhando pra ele por alguns minutos. Seu olhar doce,quase o de um menino, no combinava com aquele discurso.
- Algum j disse que voc  muito inconveniente?
Ele deu de ombros.
- De quinta-feira pra c ainda no. Mas no venha me dizer que voc no est curtindo a festa. Sem dvida j passou no teste de aparncia com nota mxima. Voc  
linda!
Dante disse aquilo como se soubesse quantos pontos eu ganharia na avaliao, e no como se fizesse um elogio. Fiquei em dvida se devia agradecer ou no, mas tenho 
de admitir que gostei do que ele disse.
- E a, com quem voc veio? - ele perguntou.
Apontei para West.
- Com aquele cara de camisa azul-clara.
- Voc est com ele?
- Estou. Por qu? - perguntei, me sentindo ofendida. Talvez ele no me achasse bonita o bastante para acompanhar West.
- Por nada.  que ... bom, olha pra ele: parece que o cara tem dois ps esquerdos! Ele  de carne e osso ou tem uma cordinha nas costas daquela camisa de boyzinho?
Fui obrigada a rir. West parecia um fantoche.
- Voc no podia estar se divertindo mesmo - Dante resmungou,sacudindo a cabea e rindo.
- Eu no disse isso! - quase gritei.
- Desculpe. Quer dizer, ento, que voc costuma se esconder atrs de plantas artificiais?
Abri a boca para protestar de novo, mas logo vi que no ia conseguir engan-lo.
Dante sentou-se ao meu lado e deu um sorriso enviesado.
- No se preocupe - falou, tocando o meu brao de leve.
- Isso no vai entrar no meu artigo.
Meu corao bateu mais forte. De repente, me dei conta de como ele estava perto de mim. Dava at para sentir o calor de sua respirao.
Havia um clima! Eu estava sentada ao lado de um cara lindo, num cantinho escuro e tranqilo, ouvindo uma msica da Beyonc.
Todos os ingredientes estavam ali.
Enquanto a gente se olhava como se estivesse perdido no tempo, me senti  vontade. O que estaria acontecendo comigo?
Ser que aquilo era paixo?
- Ento, conta pra mim ... - ele sussurrou. - O que voc faz para se divertir?
A pergunta me acordou do transe. Precisei pensar alguns instantes.
O que eu fao para me divertir? Tentei me lembrar da ltima vez em que havia me divertido de verdade, mas no consegui.
No me lembrava de nada, a no ser da minha agenda de trabalho,da escola, de uma gaveta cheia de croquis de roupas que ainda precisava terminar e dos lugares de 
sempre aonde ia nas noites de sbado. Tinha de haver algo ...
- Ah voc est a - disse , uma voz vinda da escurido. West estava subindo a escada. - Eu estava te procurando. Est tudo bem?
Uma decepo enorme tomou conta de mim, como se tivessem me despertado de um sonho lindo. West olhou pra mim, depois para o Dante e voltou a me olhar, perplexo. 
Percebi quando
ele mediu Dante de cima a baixo.
- Ahn ... claro, est tudo bem - gaguejei. - Eu estava s ...
- Ela estava s me dando uma entrevista para o jornal da escola - Dante terminou a frase por mim.
_ Ah, legal. Bom, acho melhor a gente voltar pra l, Lys. Vou tentar fazer o DJ tocar mais Backstreet Boys.
Levantei-me bem devagar, sem muita vontade, e fui me juntar a West na escada.
- Boa sorte! - Dante gritou.
- Obrigado - West respondeu, virando-se para descer.
No entanto, Dante estava olhando pra mim no momento em que disse aquilo.


2-Dante

- o que  isso? Uma escola ou um quartel? Tenho os meus direitos, sabia? - E sa em disparada pelo corredor, falando por cima do ombro com Jamal Carter, enquanto 
ele corria pra no me perder de vista. Jamal era o melhor fotgrafo do jornal da escola e um dos meus melhores amigos. E de novo havia sido testemunha involuntria 
de um dos meus acessos de indignao.
- Calma a, Dante! - ele gritou. A mochila e a bolsa da mquina fotogrfica estavam penduradas nas costas de Iamal e ele corria atrs de mim feito um camelo com 
duas corcovas.
- Quando  que as pessoas vo acordar e perceber que isso que elas chamam de sistema educacional no passa de uma ditadura? - continuei furioso.
O trajeto da sala de jornalismo at a de orientao vocacional era longo, por isso havia tempo e distncia de sobra para eu me acalmar. Tudo comeou quando o Sr. 
Edwards, nosso orientador de jornalismo, me disse, num tom quase de raiva, que eu devia reescrever as legendas das fotos da festa do ltimo sbado
ou enfrentar as conseqncias, as quais no seriam poucas. Pelo visto, ele no tinha dado o devido valor s tentativas do reprter de usar suas aguadas habilidades 
de observao para relatar o que havia observado nas imagens. Coisas como: Totalmente ciente da presena da cmera, Lance Kirkenheim, do ltimo ano, encolhe a barriga 
e tenta parecer  vontade. Ou: Sonia Powell, primeiranista 
paquera abertamente Todd Bannister, do ltimo ano, mesmo sua acompanhante sendo ningum menos que Caitlyn Verlaine, tambm do ltimo ano.
Se eu no redigisse as baboseiras de sempre, falando bem da festa e de todos os presentes, e no colocasse meu artigo na mesa do Sr. Edwards at as oito horas da 
manh seguinte, seria transferido para as aulas de marcenaria do Sr. "Enrolo" Mackowitz. 
Embora eu fosse do tipo que gostava de lutar pela liberdade de expresso, a idia de passar horas e mais horas serrando relgios com o formato do Texas na aula de 
um cara que usava canivete para palitar os dentes era o suficiente pra me manter na linha.
- Peo perdo por no achar que as festas da escola sejam a melhor maneira de aplicar minhas habilidades jornalsticas! Sei que a gente tem que fazer o que ele mandar, 
mas cara... Eu odeio aqueles artigos bobocas que no dizem nada!
quela altura, minha ira j havia diminudo bastante e minha voz mais parecia um choro.
- Ser que agora eu posso fazer uma pergunta? - Iarnal  indagou, meio sem flego.
-Manda. 
- O que h de to mau e sacrificante em redigir trs ou quatro linhas sobre a festa da escola?
- No  s a festa - expliquei, diminuindo o passo para continuar do lado dele. -  todo o condicionamento social. Eu no quero tomar parte nele... pelo menos no 
de livre e espontnea
vontade.
Jamal revirou os olhos.
- Cara, se algum dia voc deixar a sua opinio de lado e levar uma garota a uma festa, vai acabar mudando de idia.
- Isso nunca vai acontecer. As festas so um jeito dissimulado de mostrar onde cada um se encaixa na ordem social das coisas. Veja o baile de formatura, por exemplo.
- Ah, no, esse assunto de novo no - gemeu o meu amigo.
- Nesse caso, a sociedade nos pressiona pra gastarmos centenas, s vezes milhares de dlares, por causa de uma nica noite. Roupas finas, flores, jantares, limusines 
...
- Algum j lhe disse que s vezes voc  muito cnico?
- Eu estou falando srio. Voc sabe que a festa  fantasia est chegando. Eu devia escrever um editorial para a edio seguinte, me posicionando contra esse tipo 
de festa.
Jamal respirou fundo e sacudiu a cabea.
- Bom, quem vai assinar  voc; ento, faa o que achar melhor. Agora uma coisa  certa: eu vou chegar l "chegando". Vou alugar um carro esporte que combine com 
o vestido da Shawna e comprar pra ela as flores mais bonitas que achar. Vou arrebentar, cara!
- Voc est passando pro outro lado, meu amigo.
- No estou, no. Quando a gente entra com a namorada numa festa e v a menina arrasando, tudo vale a pena. - Iamal sorriu, oferecendo o brao a uma namorada invisvel.
- Por que tudo tem que girar em torno de aparncia e moda? - resmunguei. - Voc no namora a Shawna por causa das roupas dela, namora? Se vocs se gostam tanto assim, 
por que no botam uma bermuda e uma sandlia e vo ao McDonalds? Por que gastar tanto dinheiro para ter uma sensao passageira?
- Voc no entende mesmo, n?  muito mais que isso, cara.
Entortei a boca.
- Voc  um romntico incurvel, Jamal. 
- E voc  um tremendo desmancha-prazeres, Dante! - Jamal disse num desabafo. - Mas quer saber? Qualquer dia desses vai encontrar uma menina e ficar to apaixonado 
por ela quanto por essas causas que vive defendendo. A ns vamos ver quem  o romntico incurvel.
- Vai esperando, cara - falei, dando risada s de imaginar algo do tipo. - Acho melhor a gente apertar o passo, ou vamos chegar atrasados.
Entramos na sala um minuto antes de a aula comear. Eu ainda ria baixinho do que Iamal havia me dito. Imagine: eu, ir a um baile?! S se fosse pra pegar o microfone 
do DJ e fazer um discurso em prol da libertao do Tibete. Pensando bem, at que no seria m idia ...
Os meninos da escola precisavam de algum como eu para acord-los. Eles no estavam nem um pouco preocupados com o meio ambiente, com as conspiraes polticas, 
nem com os direitos dos trabalhadores. Pareciam vir empacotados em sacolas da Neiman Marcus, junto com suas roupas.
Era muito constrangedor. Meus heris - gente como Malcolm X e Langston Hughes - foram criados em cortios urbanos. 
Eu no. Meus pais se mudaram para os arredores de Dallas por causa do excelente sistema de ensino. Que tipo de ativista em prol dos direitos humanos cresce em condies 
como essas?
Sentei-me em uma escrivaninha, e Iamal na carteira de trs.
De repente, tive uma viso: era Lyssa Naylor, que surgia como um arco-ris na porta de nossa escura sala de aula. Parecia um anjo naquele vestido longo e de cores 
vivas.
No era exagero dizer que ela era a garota mais bonita da escola. Lyssa tinha cabelos escuros cacheados, clios bem compridos e um rosto to perfeito que algum 
poderia pensar que era uma boneca.
S que ela era real. Em geral, eu desconfiava de gente assim, "perfeita". Pra mim, quando as maiores qualidades de uma pessoa so externas, provavelmente ela tem 
falhas de carter terrveis.
Lyssa, contudo, me parecia ser linda tambm por dentro. Apesar de tudo o que as outras meninas diziam sobre ela - entre outras coisas, que ela se achava o mximo 
-, eu sabia que no era nem um pouco convencida. No dia da festa, ela deu a impresso de ser delicada e sensvel. No fundo, at um pouco tmida. De repente, percebi 
que havia ficado fascinado por ela.
Depois que Lyssa se sentou, ouvi os cochichos que sempre surgiam quando ela entrava.
- Algum est querendo "causar" hoje - comentou Caitlyn  Verlaine, mal-humorada.
Caitlyn era a "rainha" das festas da escola. Nunca consegui entender por que meninas como ela eram to populares. No geral,ela at era bonita: tinha pele lisa, cabelos 
brilhantes como aqueles de comercial de xampu e dentes brancos e perfeitos que deviam ter custado muito dinheiro. Mas o interior de Caitlyn deixava muito a desejar.
Nunca tinha nada de bom para dizer de ningum. Lyssa era um de seus alvos prediletos. Desde que as aulas tinham comeado,havia uma semana, Caitlyn recebia Lyssa 
com um comentrio maldoso. Sempre se referia a ela em voz alta como "algum".Eu, por outro lado, no me cansava de admirar a elegncia com  que Lyssa reagia s provocaes: 
ela nunca dizia nada, nem sequer olhava para Caitlyn.
- Ningum vai contar pra ela que os anos 60 j eram? - Caitlyn alfinetou.
Lyssa permaneceu como se no tivesse ouvido nada. Mas algo em seus movimentos - o modo como inclinava a cabea, a tenso de seus ombros - me dizia que, no fundo, 
tinha ficado magoada com os comentrios.
Inclinei-me na direo de Caitlyn, sorri pra ela e perguntei:
- Nunca disseram que sua voz  idntica  da Marge Simpson?
A classe inteira riu. Nem mesmo suas discpulas agentaram e acabaram caindo na gargalhada. Caitlyn me fuzilou com o olhar e se mexeu na carteira como uma cobra 
raivosa.
- Essa foi da hora! - Jamal me cumprimentou.
Lyssa olhou para trs e sorriu pra mim. Meu sangue parecia querer sair das veias. Como eu disse, estava fascinado por ela, ainda mais depois do nosso papo durante 
a festa. Desde aquele dia, eu vinha me sentindo diferente, estranho. Minhas pernas ficavam moles quando a via. Mas eu achava que uma menina
como ela nunca me daria mole. Ento, no fazia sentido ficar me torturando  toa! Ou fazia?
Fiquei observando cada movimento dela com muito cuidado: seu rosto transparecia gratido, surpresa e uma certa satisfao.
Mas senti que havia algo mais. Um calafrio percorreu o meu corpo e bagunou tudo dentro de mim. Na festa, eu percebi que havia uma qumica entre ns, mas achei melhor 
deixar pra l. S que era impossvel deixar aquela sensao de lado outra vez. O que era aquilo? O que estava acontecendo comigo?
Sorri de volta e desviei os olhos, com medo que ela percebesse o que eu estava sentindo.
- Boa tarde! - disse a Sra. Doherty ao entrar na sala. Sem dvida, aquela mulher tinha errado de classe. Devia estar dando aula pra pr-escola! Ela tinha aquele 
jeito meio cantado de falar, como as professoras  que davam aula pra criancinhas. 
- Meninos e meninas, por favor, peguem as canetas - anunciou ela. - Teremos muito trabalho hoje.
A Sra. Doherty escreveu "portflio" no quadro.
- Hoje vamos comear a organizar nossos portflios - e pronunciou a ltima palavra com imenso cuidado, como se ningum soubesse o que era.
- Por que ser que todo professor diz "ns", como se fosse fazer a lio com a gente? - Jamal resmungou atrs de mim.
- Portflios so pastas que contm informaes detalhadas sobre uma pessoa. Essas informaes so utilizadas quando algum vai se matricular numa faculdade ou se 
candidatar a um emprego- continuou a Sra. Doherty.
- Informaes do tipo "no  da sua conta"? - perguntou Caitlyn. E olhou para as amigas, que a apoiaram rindo em coro.
- Srta. Verlaine lembre-se de que, para se formarem, todos tero de fazer estgio. A escola firmou parceria com vrias empresas da regio para oferecer oportunidades 
de colocao no mercado de trabalho, mas as instituies no so obrigadas a contratar nossos alunos automaticamente. Vocs precisaro mostrar que esto qualificados 
para ocupar a vaga.  isso o que acontece l fora.
L fora? A maioria dos meus colegas tinha uma carreira garantida nos negcios da famlia. Ou amigos influentes que ajudariam bastante na poltica ou na magistratura. 
J eu teria de cavar minhas oportunidades com muita determinao e garra.
Dei uma olhada rpida para Lyssa. Ela olhava fixamente para a folha de papel  sua frente e roia as unhas. Fiquei curioso para saber por que tanta preocupao. Afinal, 
seu futuro tambm j estava garantido - e era brilhante.
- Mas no precisam ficar preocupados - prosseguiu a Sra. Doherty, com um sorriso compreensivo -, porque vocs vo trabalhar em duplas escolhidas por mim. O objetivo 
 que um ajude o outro no projeto. Vamos somar nossas habilidades.
Houve um gemido em unssono. A professora no tomou conhecimento do protesto e foi em frente.
- Cada parceiro ter de rever toda a documentao do outro, verificar se as coisas esto em ordem e treinar o que dizer na entrevista. Os portflios so individuais 
e cada aluno receber uma nota, mas a nota final ser a mdia das notas obtidas pelos integrantes da dupla.
- o qu? - alguns alunos berraram. - Isso no  justo!
- Mas  a vida - disse a Sra. Doherty. - No mundo dos negcios, vocs vo depender dos colegas de trabalho, por isso  melhor irem se acostumando. Quero que este 
seja um trabalho de cooperao! Quanto mais alta a nota do portflio do colega, mais alta ser sua prpria nota.
- Detesto trabalho em grupo! - resmunguei para Jamal - Sempre acabo fazendo tudo e o outro ficando na minha cola. Se o meu parceiro no for voc, juro que vou pedir 
 professora para me deixar fazer o trabalho sozinho.
Jamal sorriu e sacudiu a cabea.
- Nem precisa jurar. Eu sabia que era s uma questo de tempo at voc fazer algum tipo de protesto neste curso.
A Sra. Doherty pegou uma lista e comeou a formar os pares.
Toda vez que ela anunciava uma dupla, ouvia-se algum tipo de reao.
- Abernathy e Wallace...
- Legal!
- Brazelton e Tubbs...
- Fala srio!
- Carter e Sipowitz...
- P, cara! - exclamei. Jamal tambm protestou, mas no me pareceu zangado de ter Arnold Sipowitz como parceiro. Sipowitz vinha se esforando para ser o melhor aluno 
da classe desde a pr-escola. Era do tipo que ficava com os olhos cheios d'gua quando tirava 9,8 numa prova. Havia rumores de que sua mdia final era 10,4, embora 
matematicamente tal nota fosse impossvel.
Era provvel que insistisse em fazer o portflio de Jamal pra ele.
Talvez at carregasse meu amigo com ele para Harvard.
- Se liga na parada, Jamal - cochichei pra ele. - Assim que a Mary Poppins a disser o meu nome e o do idiota que vai fazer dupla comigo, eu me levanto e protesto 
em alto e bom som.
- Iohanson e Petrie... Lyttle e Nussbaum... Michaels e Naylor...
Abri a boca para protestar, mas a fechei em seguida. Ela tinha dito Naylor?
Olhei para Lyssa. De novo, ela sorria para mim. Seu rosto tinha uma expresso de surpresa e seus olhos pareciam mostrar alvio. Trabalho em grupo? De repente, essa 
idia no me pareceu to m.
- E a, cara? Quando  que voc vai comear o protesto?- Jamal me perguntou.
- Bom... Eu, ahn... Quer dizer, eu pensei bem e... 
- Ahan, sei. - Ele me deu um sorriso malandro. - Eu achei mesmo que voc fosse mudar de idia.
- Por qu? - eu perguntei, tentando parecer inocente.
- Pode abrir o jogo, Michaels. Virou a casaca s porque a professora botou voc trabalhando com uma gata, n?
- Shhhh! - disse, com medo de que algum ouvisse. - T bom, t bom. Eu admito - continuei, baixando bem a voz. - Mas no pense que vou abrir mo das minhas convices 
... Ao contrrio de algum que eu conheo, consigo trabalhar muito bem com mulheres bonitas.
- Claro que consegue! - Jamal me respondeu, dando uma risadinha.
- Ei, no viaja! Eu sei bem dos meus limites. E no sou louco de tentar ganhar algum como ela.
- Cara, se voc no tentar - Jarnal disse em tom srio-, vou comear a acreditar que  louco mesmo.


3- Lyssa

Voltando pra casa, baixei a capota do meu carro, e comecei a cantar bem alto uma msica da Beyonc. Aquele tinha sido o meu melhor dia na escola, desde o incio 
das aulas. Pra comear, havia vestido uma roupa feita por mim. Tinha medo de que minhas amigas achassem o vestido esquisito, feio ou algo do tipo, mas assim que 
Betsy me viu, exclamou:
- Uau, Lys, que vestido legal!
- Voc acha mesmo? Fui eu que fiz.
Betsy me olhou pasmada.
- No acredito! Voc est brincando?!
Eu ri.
- Voc estava junto comigo quando comprei o tecido naquela liquidao da Sewing Barn, lembra?
- E voc criou um vestido com aquele pedao de pano? -Betsy perguntou. Balancei a cabea,confirmando, e ela sorriu. - Voc  tudo!
- Menos, Betsy, menos. - Fiquei roxa de vergonha, mas muito feliz com o comentrio da minha amiga. - Foi super fcil. 
- No seja modesta, Lyssa. Voc tem muito talento. Poderia ser uma designer de moda profissional, se quisesse.
Senti um comicho percorrer o corpo. Como profissional? Eu sabia que tinha gente que trabalhava com design de moda, mas eu? As pessoas pareciam me ver como algum 
que s sabia desfilar e tirar fotos. Nunca havia pensado na possibilidade de fazer uma coisa que me atrasse mais. As palavras de Betsy ficaram na minha cabea o 
dia todo. A idia de me tornar uma designer de moda foi tomando forma. Eu
sabia que naquele momento seria impossvel - o trabalho de modelo ocupava todo o meu tempo e meus pais teriam um ataque se eu abandonasse a carreira. Alm disso, 
talvez eu no fosse boa o suficiente para fazer um trabalho criativo. Entretanto, nada me impedia de sonhar, Quando a Sra. Doherty mandou a gente montar um portflio, 
a primeira coisa que passou pela minha cabea foi que eu devia tentar fazer um para a minha carreira de designer de moda, e no para a de modelo. Tinha uma pasta 
velha cheia de croquis de trajes que eu. mesma havia feito, alm de algumas fotos Polaroid minhas ou das minhas amigas vestindo alguns modelos que eu havia costurado. 
Eu estava guardando aquilo como lembrana do
meu passatempo, mas talvez pudesse inclu-los no tal portflio.
Eu desconfiava que minha me jamais me deixaria escolher aquela profisso, mas pelo menos uma das minhas fantasias tinha virado realidade: a Sra. Doherty havia escolhido 
Dante para ser meu parceiro no trabalho do portflio. 
Eu no parava de pensar em Dante desde o dia da festa.
Conversar com ele aqueles poucos minutos tinha sido a parte mais gostosa da: noite. Ele falava comigo como se visse uma pessoa por trs da modelo. Dante tinha a 
fama de ser um cara brilhante. E o pessoal mais inteligente, tirando a Betsy, dificilmente conversava comigo. Mas o Dante no me esnobou. Na verdade, ns parecamos 
estar na mesma sintonia. Se no fosse assim, como se poderia explicar .ele
ter percebido o meu tdio? No resto da semana, fiquei pensando nos lindos olhos dele e
na maneira como tinha franzido a testa pra perguntar: "O que voc faz para se divertir?". Seu tom de voz deu a entender que no estava a fim s de papo furado. Ele 
queria mesmo saber. Eu nem cheguei a responder, por causa do West. E depois me perguntei se algum dia voltaria a falar com Dante.
De repente, veio a Sra. Doherty e disse nossos nomes como se fosse a Beyonc cantando: "Michaels e Naylor!". Pelo visto, eu ia ter de passar um tempinho perto dele.

Parei o carro na frente de casa e respirei um pouco antes de abrir a porta. Fique calma, pensei com os meus botes. No deixe mame perceber sua agitao.
Mame era perita em perceber o meu estado de esprito. S de ver o tamanho do meu sorriso ou os meus olhos, ela j sabia como eu estava me sentindo. Se suspeitasse 
que eu estava pensando em alguma coisa diferente, ia me interrogar como se fosse da polcia! Ela j administrava a minha carreira. No queria que
fizesse a mesma coisa com os meus sentimentos.
Quando entrei em casa, mame estava na sala de jantar tomando ch gelado e folheando a ltima edio de uma revista chique sobre decorao.
- Ol, minha flor - disse ela, sem erguer os olhos.
-Oi, mame.
- A Betsy ligou agora h pouco. Ela pediu pra eu lhe dizer... o que era mesmo que ela queria? Ah, sim, que ela pegou Rochelle Godfrey no trabalho do portflio. E 
alguma coisa sobre se voc tem tampes de ouvido para emprestar e uma meia bem grande. 
Ca na gargalhada. Rochelle era uma dessas meninas que no param de falar um segundo, daquelas que voc acaba achando que respiram pelo olho, de to tagarelas. Coitada 
da Betsy! Pelo visto no tinha tido a mesma sorte que eu. 
- Ela quer saber com quem voc ficou. Pediu pra voc ligar pra ela.
-T bom. 
- E ento? Com quem voc ficou? - mame perguntou distrada, virando uma pgina da revista.
- Ah, um carinha. - Tentei ao mximo parecer indiferente.  
- Que trabalho  esse?
- Portflios - respondi, pegando uma garrafa de gua mineral do bar. - Vamos ter que montar pastas com todos os nossos dados para depois mostr-las a empresas, faculdades, 
essas coisas.
- Ah, ? - Mame olhou para mim com cara de espanto. - Mas voc no precisa fazer. Voc j tem seu portflio de modelo.
Por que ser que ela s se importa com a carreira de modelo? Perguntei a mim mesma, sentindo uma dor na boca do estmago.
Respondi:
- Mas esse portflio tem mais coisas.  do tipo currculo e tal. Ns vamos ter de us-lo na hora de arrumar um estgio. 
Mame largou a revista e se ajeitou na cadeira.
- Mas ser que eles esto achando que voc precisa fazer estgio? Voc j est empregada em seu ramo de trabalho e no ter tempo pra isso.
Qualquer esperana de conseguir um estgio como designer de moda, por mais remota, foi por gua abaixo ali mesmo. Mame jamais concordaria com os meus planos.
- Acho que eles no pedem estgio quando a pessoa j trabalha em algum lugar - falei. - O que eles querem  que a gente tenha alguma experincia profissional antes 
da formatura. Na escola tem pouca gente que trabalha.
- Ento pronto! - Mame balanou a cabea. - Eles no podem exigir que voc participe desse projeto. Acho que vou dar uma ligada para a Dra. Mekker e pedir que ela 
abra uma exceo pra voc.
- No! No faa isso. Por favor!
Eu tinha ficado to contente porque ia fazer dupla com Dante e l vinha minha me querendo botar tudo a perder! Como ela era amiga da diretora da escola, vivia pedindo 
para ela me dar um prazo maior para entregar trabalhos, para eu faltar mais dias do que era permitido por causa da carreira de modelo e coisas do tipo. Como se meus 
colegas j no me odiassem o suficiente!
Mame franziu a testa, confusa por causa da minha atitude.
- O fato  que - comecei a dizer, tentando inventar uma explicao decente - eu quero participar desse trabalho. Vai ser super fcil tirar um A, por causa da minha 
experincia.
-  verdade - concordou mame. - Podemos usar umas fotos bem interessantes das propagandas que voc j fez. E teve tambm aquele artigo sobre voc que saiu na Parkridge 
Picayune.
Soltei um suspiro de alvio.
- Viu? Assim eu garanto uma boa mdia final.
- Tudo bem... Ento. Desde que voc tenha certeza de que consegue dar conta do recado.
Mame olhou o relgio. 

- Acho melhor voc se apressar, meu bem. Tem menos de duas horas para malhar e tomar banho, antes de jantar.
- Certo. Obrigada, mame.
Corri para o meu quarto, louca para retomar minhas fantasias com Dante.
Esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita.
Antigamente, toda vez que eu subia na Stair Master, ficava me imaginando subindo as escadarias da Torre Eiffel, com Paris toda aos meus ps! Mas, nos ltimos dias, 
eu no conseguia imaginar nada. No conseguia mais me enganar e pensar que no estava na minha sala de ginstica, em cima de uma mquina, sozinha, subindo sem chegar 
a parte alguma.
- Malhando muito? - mame perguntou, ao entrar na sala.
- Com certeza - respondi, aumentando a velocidade.
Ela se aproximou e me deu um tapinha no brao, como sinal de incentivo.
- Pondo pra fora o estresse da volta s aulas?
- Pois .
- timo. Bom, vou tomar um banho antes que voc tome conta do banheiro - ela disse, dando um puxo de leve no meu cabelo. - Preciso me arrumar para o banquete de 
hoje  noite.
- Posso ajudar? - perguntei, cheia de esperana. Eu faria qualquer coisa pra sair daquela mquina! Seria legal conversar com mame sobre outra coisa que no fosse 
a minha carreira, s pra variar. - Eu posso pintar suas unhas, ou pentear o seu cabelo. 
- Obrigada, minha querida, mas pode deixar que eu me viro sozinha. Voc j tem muito o que fazer.
Estava quase na porta quando se virou de repente. 
- Ah, e fique atenta ao telefone. Seu pai ficou de ligar. Ele est doido para saber como foi o teste praquele comercial.
- Tudo bem, mame.
Olhei o relgio quando ela saiu da sala de ginstica. Fazia s trinta minutos que eu estava ali, subindo degraus, mas parecia uma eternidade. E eu ainda precisava 
fazer os abdominais e alongar as pernas.
Lembrei-me de quando estava no primeiro grau. Quando eu voltava pra casa depois das aulas, mame estava me esperando com biscoitos de chocolate e um copo de leite. 
Ela se sentava na mesa da cozinha e ficava escutando as minhas aventuras - num dia era um adesivo dourado que eu havia ganhado por uma lio bem-feita; no outro 
era uma troca de lanches com Betsy, ou o nojento do Arnie Hammond que tinha puxado minhas tranas.
Depois, quando papai chegava do trabalho, eu me sentava no colo dele e ficvamos assistindo a um monte de desenhos animados antes do jornal. Nosso preferido era 
o do Papa-Lguas.
Toda vez que o coitado do Coiote despencava do alto de um morro ou estava prestes a ser achatado por uma pedra, ns dizamos "ui, ai!" e morramos de rir.
As coisas mudaram muito depois que eles se divorciaram e eu virei modelo. Agora, quando entro em casa, mal tenho tempo de dizer "oi" pra minha me e j preciso comear 
a malhar. Os biscoitos
de chocolate foram substitudos por barrinhas de cereais, e papai no vem mais pra casa.
Esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita. Mal tinha comeado a malhar e j me sentia exausta.  
Assim que escutei mame fechar a porta do banheiro e ligar o chuveiro, desliguei a StairMaster e fui p ante p para o meu quarto. Tirei os tnis, as meias, as lentes 
de contato e me joguei na cama. Queria cochilar um pouquinho e, depois, se tivesse nimo, ligar para a Betsy.
Betsy! - dei um salto, me sentando no mesmo instante. Estava quase me esquecendo! O aniversrio dela ia ser no fim de semana, e eu ainda precisava terminar o presente 
que estava fazendo.
Apurei os ouvidos para ver se o chuveiro continuava ligado, fui at o meu guarda-roupa e peguei o vestido de cetim que eu estava costurando fazia um ms. S faltava 
pregar alguns botes.
Ergui o vestido e tentei imaginar Betsy dentro dele. Queria que ficasse perfeito. Era da sua cor preferida: verde-esmeralda. O modelo ia realar o corpo esbelto 
de Betsy. Tinha um decote que acentuava os ombros e cintura bem marcada.
Pus os culos e comecei a pregar os botes no vestido.
- Lyssa? O que est fazendo, filha?
Era mame, que tinha aparecido na porta do meu quarto.
Estava com um roupo de capuz e parecia a Morte. A nica diferena  que o roupo era branco e felpudo e que, em vez de uma foice, mame segurava um secador de cabelo.
- Nada - respondi, sem muita convico.
- Voc no devia estar malhando?
- Parei um pouquinho antes para poder terminar o vestido que estou fazendo pra Betsy.
- Que vestido?
- Aquele que eu desenhei pra dar a ela de presente de aniversrio, lembra? O aniversrio dela  no sbado.
Mame franziu a testa, preocupada. 
- Querida - ela comeou a dizer, com a voz cansada -, eu no acho muito prudente voc ir a essa festa justamente agora que vai comear a fotografar de mai. A agncia 
disse que voc no pode se arriscar a ficar com o bronzeado desigual.
Por que ela no deixava eu me divertir pelo menos uma tarde?
Por que a carreira de modelo estava sempre em primeiro lugar?
- Mas, mame, ela vai fazer dezoito anos! - choraminguei.
- E se eu me lambuzar de bloqueador solar?
- Mesmo assim  muito arriscado.
Respirei fundo e contei at dez, tentando controlar a minha frustrao.
- Por favor, me deixe ir - falei bem baixinho. - Prometo que no entro na piscina e que fico na sombra o dia inteiro. Por favor... S dessa vez!
-Bom ...
Enquanto mame pesava os prs e os contras, comecei a roer a unha do meu polegar. Sabia que estava me comportando como uma menina de cinco anos de idade, mas no 
dava a mnima.
Debaixo do solou no, eu tinha de estar l no sbado. Se a festa fosse da Heather ou da Ruth, elas iam entender. As duas achavam minha carreira to legal que me 
deixariam botar fogo na casa, se
eu dissesse que era a trabalho. Mas Betsy era diferente. Ela ficaria magoada se eu no fosse  festa.
- Est bem, ento - mame acabou dizendo, sacudindo a cabea e sorrindo. - Mas tem de me prometer que vai voltar pra casa antes que o sol fique muito forte.
- Eu prometo. Obrigada, mame.
- Est combinado, ento.
Ela deu um passo para sair, mas antes perguntou:
- Por que voc est de culos? Perdeu as lentes de contato?
- No. S tirei um pouquinho. Estavam me incomodando.
- Voc nunca vai se acostumar com elas se no usar. E no roa as unhas! Ningum vai contratar voc se aparecer com as unhas rodas.
S ento mame saiu do quarto e fechou a porta.
Baixei os olhos para examinar a unha do polegar e me perguntei por que mame parecia dar mais valor  minha aparncia do que a qualquer outra coisa.
De repente, me lembrei do rosto de Dante, as sobrancelhas dele sobre seus olhos tristes quando perguntou: "0 que voc faz para se divertir?".
- Pouca coisa - sussurrei, jogando o vestido de Betsy sobre a cama. - Pouca coisa mesmo.


4-Dante

Folha da Manh de Dallas procura estagirio
Procura-se jovem responsvel e dedicado para trabalhar como assistente de copidesque, de pesquisa e, caso necessrio, de redao. Imprescindvel ter bons conhecimentos 
da lngua, capacidade de edio, aparncia e atitude profissionais, alm de vontade de aprender. Os candidatos devem apresentar histrico escolar, trs redaes 
e trs referncias profissionais. Todos sero entrevistados pelo editor assistente. Horrio: de segunda a sbado, das 17h s 20h.

O anncio estava no quadro de avisos ao lado da sala do centro de orientao vocacional e me chamava como se fosse uma janela aberta para o futuro. Parei diante 
dele e fiquei lendo e relendo o que estava escrito, como se as palavras fossem sumir se eu me afastasse.
A Folha da Manh de Dallas! Vibrei por dentro: um jornal de verdade!
Aquela era a chance que eu tanto esperava: poder escrever para um peridico importante, de grande circulao. Tudo bem que o anncio falava em copidesque e pesquisa, 
o que provavelmente significava carregar pastas pra l e pra c, e cortar o excesso de gerndios de um ou outro jornalista mais desavisado. Mas ali dizia que, "caso 
necessrio", o estagirio tambm faria trabalhos "de redao". O planeta que se cuidasse, porque eu estava a caminho!
Apesar do entusiasmo, uma coisa me preocupava. Eu tinha redaes excelentes e vrias pessoas dispostas a me servir de referncia (at o Sr. Edwards, depois de eu 
ter refeito as legendas e rastejado, como manda o protocolo), mas a expresso "aparncia e atitude profissionais" cortava o meu barato. Eu j tinha sido chamado 
de vrias coisas, como inteligente, honesto, confivel e maduro, mas ningum havia me associado  expresso "boa aparncia profissional".
Eu no me vestia para impressionar as pessoas e, nas raras vezes em que tentei dar um tapa no visual, como no casamento do meu tio Caleb ou no batizado da minha 
prima Letitia, o resultado foi desastroso. Deve ter sido por causa do meu jeito de andar - todo mundo diz que pareo meio arrogante. Meu rosto tem sempre uma "mancha" 
de barba - bom, acho que s uns oito caras com uma serra eltrica conseguiriam raspar aquilo direito! No bastasse tudo isso - a verdade tem de ser dita -, eu  tinha 
srios problemas com relao  moda. A palavra acessrio no fazia parte do meu vocabulrio. E Gap, pra mim, queria dizer "brecha", "fenda" ou "hiato", no mximo. 
No batizado da minha prima Letitia, minha tia Rena ficou me tirando porque, em pleno inverno, eu estava usando um terno de tecido fino, meias grossas e sapatos sociais. 
Seis meses depois, no casamento do tio Caleb escolhi o terno certo, mas, na pressa, vesti uma camiseta dos Simpsons por baixo da camisa. Em todas as fotos em que 
eu apareo, d pra ver os cabelos azuis da Marge!
Encostei a cabea no quadro de avisos e bufei. Por que tudo acabava girando em torno da aparncia das pessoas?
-  isso que eles chamam de "dormir no trabalho"? - perguntou uma voz atrs de mim. - Quer dizer, "sobre a oferta de trabalho"?
Virei e deparei com Lyssa sorrindo pra mim. Cara, que sorriso tinha aquela menina! Ela parecia realmente feliz em me ver. 
Antes que eu comeasse a me "sentir", resolvi lembrar a mim mesmo que ela ganhava uma nota e por isso tinha motivos de  sobra para parecer to feliz.
- Na verdade eu estava anotando umas coisas - respondi.
- Descobri que posso economizar um bocado de esforo e tinta colocando a testa sobre o papel. Dessa forma, o texto  absorvido diretamente pelo crebro ou fica impresso 
na minha cara, para ser lido depois. 
Ela inclinou a cabea e deu uma risadinha tmida, que mal dava pra escutar. S senti seu hlito no meu brao. Fiquei todo arrepiado e com um n no estmago.
Qual  o problema comigo? Pensei com os meus botes.
Nunca tinha me ligado em algum antes. No era do tipo que ficava de quatro por uma menina bonita, mas Lyssa tinha algo que me transformava num idiota. Era como 
se eu estivesse regredindo!
Lyssa me olhou e roeu a unha do dedo, mas parou de repente, meio constrangida.
- E a? Como fica essa coisa do portflio? - ela perguntou. 
- Vamos nos reunir uma hora dessas para decidir como fazer o trabalho?
Meu corao disparou. Eu sabia que Lyssa s estava interessada em estudar comigo, mas bastou ouvi-Ia dizer aquilo para eu arder por dentro.
-  claro. O que me diz de hoje  noite?
- Tudo bem. Por que voc no d uma passada na minha casa depois da aula?
- Legal! - tentei dizer em tom banal, mas acho que no me sa muito bem. - Posso chegar l pelas dezenove horas.
- Perfeito. Toma. - Lyssa me deu um carto de visitas lils. - A tem o meu endereo e o nmero do meu telefone. 
Como escritor, tenho uma imaginao incrvel, mas jamais poderia pensar que Lyssa Naylor me daria seu endereo e telefone e me convidaria para ir  sua casa. Era 
to inacreditvel que achei que tinha perdido a noo.
- Ento t... - comecei, percebendo que por ora a conversa havia terminado. - At mais.
- At. - Lyssa me deu outro daqueles sorrisos e foi embora.
- At - repeti, feito um idiota.
s dezoito e cinqenta e cinco parei meu Fusca amarelo na frente da casa dos Naylors, bem atrs de um carro conversvel e de um Mercedes dourado.
A casa de Lyssa era to grande que devia ter um CEP s seu.
Era uma daquelas construes em estilo colonial. Eu j estava esperando que um mordomo viesse abrir a porta, mas quem apareceu foi uma senhora, que devia ser a me 
de Lyssa.
Tinha os mesmos dentes perfeitos da filha. Ela me cumprimentou com uma verso mais madura do sorriso lindo de Lyssa, mas entortou um pouco a boca quando me mediu 
de cima a baixo. Repassei minhas roupas: a camiseta, velha companheira de luta, parecia mais furada do que nunca.
- Ol. Eu sou Rita Naylor - disse-me, estendendo a mo cheia de anis de brilhante. - Lyssa me disse que vocs vo estudar juntos hoje. Voc deve ser o Donny, certo?
- Dante - corrigi, apertando a mo dela. - Dante Michaels.
- Michaels... Michaels... - ela repetiu. - Acho que conheo uma famlia com esse sobrenome. Voc  parente dos Michaels que moram em Bellevue?
- Ahn... no. Sou parente dos Michaels que moram no condomnio Argosy. Meu pai apareceu no noticirio outro dia. Ele  professor de cincias polticas na Cedar Valley. 
Eles fizeram um enorme protesto contra as novas diretrizes para o ingresso na Universidade, que no levam mais em conta a cota para minorias raciais. Talvez a senhora 
tenha visto.
-  talvez sim - disse a me de Lyssa, de um modo que me deu certeza de que no tinha visto notcia nenhuma. - Bem, venha comigo.
Ela abriu a porta e me fez um gesto para entrar. Meus tnis rangeram no assoalho brilhante do hall. Mesmo tendo um metro e oitenta e sete centmetros de altura, 
senti-me minsculo debaixo daquele p-direito colossal e daquele candelabro gigantesco.
- Por favor, sente-se. - A Sra. Naylor mostrou com um gesto a sala de estar. - Lyssa ficou malhando um pouco mais e foi tomar uma ducha rpida. Ela desce j, j.
- Obrigado - respondi, reparando que minha voz ecoava entre aquelas paredes.
Andei lentamente na direo do sof, com medo de esbarrarem alguma coisa no caminho. Os tapetes altos e a moblia de luxo eram brancos como neve, e tudo ali parecia 
fcil de quebrar.
Depois de checar se meus tnis no estavam sujando o cho, sentei-me em uma poltrona enorme.
A Sra. Naylor montou guarda na porta e ficou me olhando como se eu tivesse acabado de chegar de Marte. Ficamos um bom tempo acenando um para o outro com a cabea, 
os dois sem graa. Finalmente, ela decidiu chegar um pouco mais perto.
Muito educada, sorriu e disse:
- Tem ch de menta gelado no bar, bem a do seu lado. Por favor, sirva-se  vontade.
- Obrigado - eu disse, aliviado por ter algo pra fazer. 
Quando me levantei, reparei que havia algumas fotos na parede atrs do bar. Pareciam ser todas de revistas e catlogos e mostravam Lyssa em poses de tirar o flego: 
sentada num balano, usando um vestido branco e flores no cabelo; de patins, fazendo gracinhas junto com trs outras adolescentes; deitada numa praia com um biquni 
violeta minsculo.
- Uau - falei, meio sem pensar.
-  o meu maior tesouro. - A Sra. Naylor me deu o maior susto. - Desde que ela comeou a carreira, cinco anos atrs, fez tantas fotos maravilhosas que j nem tenho 
espao aqui embaixo.
Tive de comear a pendur-las no hall l de cima, no quarto de hspedes, na sala de ginstica. Lyssa diz que est cansada de ver o prprio rosto por toda parte, 
mas eu no. Quem pode me culpar?
- Realmente, ningum - respondi com a maior honestidade. 
A Sra. Naylor sorriu amigavelmente pra mim. Percebi que o fato de eu achar sua filha bonita havia me feito subir um ponto em seu conceito.
- Quer ver o lbum de Lyssa? - ela me perguntou, com um sorriso tmido e baixando um pouco a voz, como se estivesse se preparando para divulgar segredos de Estado.
- Claro.
Por mais embaraosa que fosse a idia de ficar vendo fotos de Lyssa na frente da me dela, a curiosidade foi maior. Alm disso, eu no queria ofender a Sra. Naylor 
recusando sua oferta.
Ela pegou um lbum grosso, de encadernao de couro, e me entregou como se fosse a Bblia Sagrada. Acomodei-me na poltrona e mergulhei num mar de fotos de Lyssa.
_ Voc e a Lyssa se conhecem faz tempo? - a Sra. Naylor me perguntou, sentando-se no sof em frente.
_ No ano passado eu fiz Ingls na mesma classe que ela, mas no chegamos a nos conhecer muito bem. Eu me lembro de que ela foi uma das melhores alunas do curso e 
fez o melhor seminrio sobre O Retrato de Dorian Gray. Poucos alunos entenderam o romance de verdade, e Lyssa foi uma delas.
_ Sei, sei - respondeu-me a Sra. Naylor, um tanto distrada. 
_ Aquela professora vivia exigindo trabalhos complicadssimos. Foi muito difcil convenc-la de que minha Lyssa tinha de ter uma folga na temporada dos desfiles.
- Ahn...  verdade, aquele curso foi puxado. 
A atitude da me de Lyssa me confundiu um pouco. A maioria dos pais ficava inchada ao ouvir algum elogio  inteligncia dos filhos. Os meus, por exemplo, iam at 
as nuvens e voltavam sempre  que algum falava bem de mim. Entretanto, a Sra. Naylor parecia sentir mais orgulho da beleza e da carreira da filha. Era como se achasse 
a escola uma chateao a ser superada ou coisa parecida.
_ Ai, mame! Por favor, no v me dizer que est aborrecendo o Dante com meu lbum ... - Parada no topo da escada, Lyssa estava tudo de bom dentro de um short cor-de-rosa 
e um top
de malha branco. 
_ Eu no estou aborrecendo ningum, estou, Dante? - perguntou a Sra. Naylor, levantando-se do sof.
_ No, senhora - respondi, me levantando tambm. 
A Sra. Naylor aproximou-se da filha e ajeitou seus cabelos.
_ Todo mundo adora ver suas fotos, minha flor! - sorriu, toda orgulhosa. - Voc j devia saber disso.
Lyssa revirou os olhos. 
- Que bom que voc veio, Dante.
- Pois .
_ No acha melhor irmos estudar no meu quarto? - perguntou, olhando de canto para a me. - L  mais sossegado... 
-Tudo bem.
_ Lembre-se de que amanh  tarde voc tem ensaio para o desfile - disse a Sra. Naylor, tirando um fiapinho do ombro de Lyssa. - No v dormir muito tarde.
- T bom, mame - ela respondeu, em tom cansado.
Subi as escadas atrs de Lyssa, passando por mais fotos dela.
- Minha me tambm  uma espcie de agente, o que lhe d direito a pelo menos umas cem implicncias a mais do que a maioria das mes.
- No esquenta. J os meus pais so o oposto. Eles acham que impor muitas restries  o mesmo que violar meus direitos civis. Tive de aprender um monte de coisas 
do jeito mais difcil.
- Verdade? O qu, por exemplo?
- Bom, uma vez eu gastei toda a minha mesada num programa de computador e eles no disseram nada. Depois fiquei sem ter como pagar o almoo na lanchonete da escola 
o ms inteiro, mas eles no me ajudaram. Eu tinha duas opes: ou passava fome ou comia as batatas fritas que sobravam do prato do Jamal.
Lyssa sorriu e sacudiu a cabea, fingindo piedade.
- Coitadinho de voc! Parece que foi uma lio durssima de administrao financeira.
- E nutricional- acrescentei. 
Ela entrou no quarto e apontou a cadeira da escrivaninha.
- Sente-se - disse, acomodando-se na cama.
O quarto de Lyssa era completamente diferente do trreo. Os mveis eram de madeira clara. Havia um carpete bege no cho e as paredes eram verde-pistache. As nicas 
outras cores l dentro vinham da estampa do acolchoado e de um imenso coelho de pelcia cor-de-rosa largado num canto.
Parecia ser o nico lugar da casa onde quase no havia fotografias suas. Na verdade, havia uma foto s: na mesinha de cabeceira, tinha uma antiga foto da famlia. 
Lyssa parecia ter uns dez anos, toda dentes e tranas. Estava entre o pai e a me, dando um sorriso imenso.
- Bom, e a, como  que a gente comea esse trabalho? _ ela perguntou, abrindo o caderno.
Tirei da mochila a folha entregue pela professora e li.
- Pelo jeito, ela quer um pouco de tudo, menos amostra de sangue. Vejamos: relao de todos os empregos at o momento, trs cartas de recomendao, histrico escolar, 
objetivos gerais e dados pessoais. So os documentos de praxe.
- Se voc est dizendo... - Lyssa me olhou com cara de dvida. - Eu nunca fiz um currculo. Voc j?
- Milhes de vezes. Todo ano eu tenho de procurar emprego em uma lanchonete qualquer, pra ganhar um salrio mnimo. 
- Voc j teve muitos empregos?
- Alguns. Fiz um pouco de tudo, desde fritar hambrguer at cortar grama. No ano passado, ajudei a organizar a biblioteca do bairro.
- Meu currculo  to ralinho... - Lyssa continuou, desanimada. - Meu nico trabalho at agora foi o de modelo.
- No basta? Tem um monte de gente na escola que nunca trabalhou na vida. Voc est um passo a frente.
-  verdade. - A voz saiu bem baixinha.
De uma hora pra outra, Lyssa me pareceu muito pensativa. 
Vi quando ela olhou pro acolchoado e contornou, bem devagar, uma folha de papel com o dedo. Ela era to delicada, to feminina e bonita, que despertou em mim um 
lado meio "homem das cavernas", que eu nem sabia que tinha: queria proteg-la de todos os males, provar meu valor com algum gesto ousado e herico. Mas, a no ser 
que um bando de criminosos invadisse a casa dos Naylors, ia ser meio difcil. Alm disso, a julgar pelo corpo malhado de Lyssa (no qual eu andava pensando um bocado 
nos ltimos dias), era muito provvel que ela se sasse melhor do que eu na briga.
- E ento... - ela disse, olhando pra mim. - Quais so os seus planos para o futuro?
- Meu objetivo  bastante simples: eu quero salvar o mundo.
Ela arregalou os olhos.
-  mesmo? E como espera fazer uma coisa dessas?
- Com palavras. - Ajeitei-me na cadeira e pus as mos atrs da cabea. - Quero escrever para um jornal de grande circulao, ter uma coluna s minha que informe 
os cidados sobre as injustias que nos cercam. Ento todos podero se unir para combater o poder.
- Uau! - ela deixou escapar surpresa. - Isso parece ser algo muito... nobre.
Ponto pra mim! Consegui parecer um heri sem ter que dar um soco sequer.
- Agora me diga: o que a gente tem de fazer pra se transformar no "salvador do mundo?" - ela perguntou, sorrindo.
- Bom, no meu ramo de negcio no existe atalho para o topo. Depois que eu me formar,  possvel que tenha de trabalhar como freelancer por alguns anos e viver de 
miojo. Com o tempo, talvez eu consiga me tornar um colunista, quer dizer, isso se gostarem do meu trabalho.
- Ah, mas  claro que vo gostar ... - Lyssa tinha certeza do que estava dizendo. Inclinou a cabea e abriu um sorriso, me fazendo queimar por dentro. 
Sabe aquele lance do tempo dos filmes de fico cientfica?
Pois ! At aquele momento eu ainda no tinha entendido direito o conceito.
Quando o olhar de Lyssa cruzou com o meu, perdi completamente a noo de tempo. Eu s conseguia perceber a presena dela e o monte de sensaes que ferviam dentro 
de mim. Era como se houvesse uma realidade diferente - uma realidade melhor. 
Depois de algum tempo, desviamos o olhar. Mas o ar continuava cheio de eletricidade.
- Bom... ahn ... - comecei a dizer, sem jeito. - Para qual faculdade voc vai?
Ela deu de ombros.
- Ainda no sei. Talvez eu adie a faculdade por alguns anos. Minha agente diz que agora que minha carreira deslanchou, preciso me manter na ativa. Ela quer que eu 
me mude para Nova York depois da formatura.
- Adiar a faculdade? No faa isso! Talvez voc nunca mais tenha chance de voltar. Voc ... - Calei a boca para no recomear aquele meu discurso de "sua mente  
algo precioso demais
para ser desperdiado". -  uma pena que algum to inteligente como voc no v direto para a universidade depois do colgio. 
Ela me lanou um olhar espantado.
- Eu? Voc me acha mesmo inteligente?
- Claro que sim! Voc me passou pra trs em Ingls o tempo todo no ano passado.
Lyssa parecia no estar entendendo nada. Ela franziu a testa e comeou a roer a unha de novo. Tive medo de ela ter ficado ofendida de algum modo.
_ Olha, me desculpe. No devia me meter onde no sou chamado - falei, me debruando no encosto da cadeira. - Quem sou eu para lhe dizer o que fazer? Se ser modelo 
 sua vida, se no tem mais nada que queira fazer, ento ...
-No.
A resposta dela me deixou curioso.
-No o qu?
_ Ser modelo no  minha vida - ela disse, com um olhar intenso. - Quer dizer, . Mas eu no quero que seja. No mais.
E ento Lyssa me deu um sorriso triste, e, de novo, o tempo pareceu parar.

5- Lyssa

Sentada  sombra, na rea perto da piscina da casa de Betsy, usando um enorme chapu de palha e culos escuros  e inteirinha lambuzada de bloqueador solar, eu me 
sentia uma total idiota. O resto da galera estava na gua, se divertindo, nadando, jogando bola e dando notas para os mergulhos uns dos outros.
Pelo visto, quando expliquei que marcas de bronzeado,mesmo muito leves, podiam impedir uma modelo de ser contratada para fotos em trajes de banho, todo mundo entendeu. 
E entendeu to bem que a festa continuou sem mim! Muito de vez em quando, uma das meninas saa da piscina e vinha se sentar perto de mim alguns minutos, mas a maior 
parte do tempo eu ficava sozinha vendo o pessoal se divertir. Bem, eu j devia ter me acostumado ...
O que mais me intrigava era que ningum sentia pena de mim, s eu mesma. Vai ver achavam que no me importava de fazer aquele tipo de sacrifcio em nome da "minha 
carreira". E eu nunca fiz nada pra que mudassem de idia. 
Fiquei me lembrando das coisas que Dante havia me dito na noite em que foi estudar em casa.
- Se voc no se sente mais feliz sendo modelo, por que continuar?
-  complicado - respondi. - Voc no entenderia. 
Foi ento que ele colocou a cadeira mais perto e olhou pra mim, na verdade pra dentro de mim. Com certeza estava apenas querendo ser meu amigo, mas seus enormes 
e doces olhos castanhos pareciam me envolver toda.
_ Talvez eu consiga entender melhor do que voc imagina. Experimente me contar.
E ento, antes que eu me desse conta do que estava fazendo , contei que sonhava ser designer de moda. E olhe que eu mal havia admitido aquilo pra mim mesma, que 
dir pra outra pessoa. Acho que havia alguma coisa em Dante que me deixava  vontade. Era como se eu pudesse lhe contar todos os meus segredos. Contudo, assim que 
as palavras me escaparam, senti um constrangimento enorme. Tinha certeza de que ele ia rir de mim, ou ento que ia me dizer que eu no tinha cacife pra chegar l.
. Mas, para meu imenso alvio e espanto, Dante me olhou com uma expresso sincera e me deu aquele seu sorriso lindo. 
_ E o que voc est esperando? V em frente! Pea pra fazer um estgio no setor de moda. Voc  inteligente e talentosa. Tenho certeza de que ser uma designer de 
primeira.
No houve outro jeito seno corresponder com um sorriso maior ainda. Mesmo sem conhec-lo direito, eu me sentia nas nuvens por ele acreditar em mim - sei l por 
qu. Quer dizer, eu no me lembrava de ter ouvido algum me achar "inteligente" antes. Bonita, sim, mas inteligente nunca.
De qualquer modo, nem o elogio dele me fez perder todo o senso de realidade. Expliquei que, por causa do meu trabalho, no sobraria tempo pra fazer um estgio em 
moda. Foi quando ele me sugeriu que eu abandonasse a carreira de modelo.  Eu lhe disse que aquilo estava fora de cogitao, que eu no
podia simplesmente largar tudo, que muita gente, sobretudo a minha me, dependia de mim.
_ Mas Lyssa - ele disse, olhando fixamente nos meus olhos -,  a sua vida!
_ Lyssa? - A me de Betsy apareceu e interrompeu meus pensamentos. - Voc quer limonada?
- Quero sim, obrigada - respondi. 
Instantes depois, ela reapareceu com o refresco.
- Voc teve de ficar longe do sol? - ela perguntou. - Ordens da agncia? - E me olhou com tanto d que tive de fazer um esforo enorme pra no cair no choro.
Fiz que sim com a cabea.
- E da Sociedade Norte-Americana do Cncer - acrescentei brincando, pra tentar disfarar a pena que sentia de mim mesma.
- Acho que voc  uma das adolescentes mais disciplinadas e corajosas que j vi. Mas seria bom se, de vez em quando, se permitisse fazer uma farra, se divertisse 
um pouco mais!
- Mas no  a senhora que vive dizendo que os jovens de hoje tm uma vida fcil demais? Como foi mesmo aquela frase, no dia da assemblia? "Os jovens deveriam passar 
menos tempo pensando em se divertir e mais tempo planejando o futuro." No foi isso? - Ergui o queixo e tentei imitar o tom autoritrio da Sra. Weddington, que por 
sinal Betsy tinha herdado.
A me de Betsy trabalhava na rea de educao. Era a coordenadora do programa de estgios e outras oportunidades de trabalho da comarca. Tinha a impresso de que 
ela ia  escola toda semana fazer palestra pra alguma classe. Muitas vezes nos visitava na hora do almoo, o que no contribua muito pra popularidade de Betsy. 
Apesar disso, sempre gostei da me dela, que me tratava como filha.
- Tenho certeza de que foi algo nessa linha - ela respondeu, dando risada. - Sabe de uma coisa: na minha prxima palestra, vou usar voc como exemplo.
Era s o que faltava pro meu no-entrosamento social na escola!
- Nossa! Veja s que horas so! - a Sra. Weddington exclamou, olhando o relgio. - Est na hora de alimentar esse povo. Acho que todo mundo j deve estar cansado 
da gua, no ?
-  a senhora quem manda - respondi sorrindo.
A Sra. Weddington gritou: 
- Betsy, por que vocs no fazem uma pausa agora? Vou trazer o bolo daqui a pouco e a voc poder abrir os presentes. 
- T bom - Betsy respondeu. Todos comearam a nadar pra borda da piscina.
- Bom, acho melhor eu ir ajeitando as coisas - disse a Sra. Weddington, entrando na casa.
- Precisa de ajuda? - ofereci.
- No, obrigada, meu bem - ela respondeu, me dispensando. - Fique por aqui mesmo e divirta-se.
Divertir-me? T bom...
Alguns minutos depois, as meninas se reuniram no ptio. Os meninos ficaram pra trs, admirando a mountain bike de dezoito marchas do pai de Betsy.
Heather sentou-se na cadeira de ferro ao meu lado e disse:
- Estou to feliz porque no est de mai, Lys. Assim ns no sentimos complexo de inferioridade e os meninos no fazem papel de bobos.
- O pior  que fazem - Ruth resmungou, revirando os olhos e sentando-se do lado oposto de Heather. - No agento mais v-los apostando corrida na piscina. Por que 
precisam competir o tempo todo?
Betsy deu de ombros. 
- Sei l.  tpico do sexo masculino. Coloque alguns meninos juntos e eles inventam um esporte.
- E, por falar em meninos, por que no trouxe o West com voc, Lyssa? - Heather perguntou.
- Pois , a Heather estava louca para ver West de calo de banho - Ruth acrescentou.
- Estava nada! S acho que ele podia fazer companhia pra ela.
- Voc o convidou, Lys? - Betsy perguntou, enquanto se enxugava com uma toalha.
Sacudi a cabea, numa negativa.
- No. Ele deve estar ocupado com os desfiles. Eu no queria admitir que nosso relacionamento havia acabado antes mesmo de comear. Se eu contasse que no tinha 
gostado de West, que ele no fazia o meu tipo, elas teriam ficado me tirando, dizendo que sou muito chata.
- A Betsy me contou que voc pegou o Dante Michaels de parceiro no projeto dos portflios - Ruth comentou. 
-  verdade? - Heather perguntou. - Mas que azar, hein? Quer dizer, o cara at que  legalzinho, mas aquelas roupas meio grunge dele no esto com nada.
- Ele  um intelectual - expliquei, me sentindo ofendida.
- No me diga. Mas ser que um cara to inteligente no sabe usar o ferro de passar roupa? - Heather perguntou. 
- Vocs por acaso j leram a coluna que ele escreve no jornal da escola? - Betsy perguntou. -  radical!
- Se  - Ruth concordou. - Ele vive falando coisas do tipo"no use casaco de pele", "no utilize o posto de gasolina tal" etc. 
Vocs se lembram de um artigo que ele escreveu no comeo do ano? "As dez melhores maneiras de calar a boca das Spice Girls"?
- Ah, aquele eu achei muito bom! - Betsy falou. - Ele fez uns trocadilhos bem engraados com o significado da palavra spice, como "junte um pouco de mostarda no 
p delas; assim elas
ficam mais picantes".
- Aquele cara  bem doido - Heather comentou, abanando a cabea.
Meu rosto esquentou.
- Pois eu acho incrvel que ele tenha fora pra enfrentar todo mundo e defender o que acredita. Ele  to ... engatado.
- Sabe, Lys - disse Betsy, estreitando os olhos -, voc ainda no me contou como foram as coisas quando ele foi estudar na sua casa. Como  que ele ?
De repente, senti um pnico enorme. Ser que minhas amigas entenderiam se eu dissesse o quanto gostava do Dante?
Fala srio! Era mais provvel que rissem de mim por gostar de um menino intelectual e to "fora de moda". No fundo, eu no queria revelar meu segredo porque sabia 
que no tinha a menor chance com Dante. Algum com a inteligncia dele jamais se apaixonaria por uma menina como eu. ramos parceiros no trabalho do portflio, no 
mximo colegas, mas s isso.
, Comecei a roer a unha e tentei pensar num modo de responder a pergunta de Betsy. Felizmente, bem nessa hora, os pais dela apareceram, trazendo um bolo de chocolate 
de trs andares, com
dezoito velas no alto.
/ - Venham todos para c! - chamou a Sra. Weddington. _Esta na hora de cantar os parabns!
Os dois levaram Betsy at a ponta da mesa e todos se reuniram em volta, cantando uma verso desafinada de "Parabns a voc". Ela fingiu que estava envergonhada, 
mas percebi que adorou.
Em seguida, a me de Betsy comeou a servir o bolo e seu pai a puxou para lhe dar um abrao.
- No acredito que a minha menininha j est fazendo dezoito anos - ouvi-o dizer. Os olhos do pai de Betsy pareciam meio molhados e senti que os meus tambm comeavam 
a se encher de lgrimas.
Eu havia passado meu ltimo aniversrio, no ms de junho, fazendo uma propaganda para o Sea World, em San Antonio. Foi divertido assistir a todos aqueles espetculos 
e ver os animais, mas, como a produo das fotos se prolongou por dois dias, tivemos de cancelar a festa em famlia. Meu pai foi obrigado a me desejar feliz aniversrio 
pelo celular da mame.
- Lyssa, aceita uma fatia de bolo? - a Sra. Weddington perguntou.
- No, obrigada - respondi, dando um tapinha nos quadris.
- Preciso me comportar.
A me de Betsy sorriu e balanou a cabea, como se entendesse a questo, mas em seus olhos havia aquele mesmo d de antes.
Enquanto todo mundo devorava seu pedao de bolo, tomei mais alguns goles de limonada, ro as unhas e fugi do sol feito um vampiro. Vi a hora em que Betsy, com muito 
carinho, limpou a mancha de chocolate no rosto de Cliff. Minha amiga estava feliz pra caramba - ou talvez fosse o efeito do sol. Mas, por mais contente que me sentisse 
por ela, no consegui deixar de sentir uma certa inveja. Quem me dera ser filha de pais to compreensivos quanto os dela, ter um namorado apaixonado e poder comer, 
sem sentimento de culpa, uma bela fatia de bolo de chocolate ...
Resolvi ir embora antes que comeasse a choramingar como um beb.
- Betsy - falei bem baixinho -, acho melhor eu ir pra casa agora. Prometi pra mame sair antes de o sol ficar muito forte.
- Ah, no, Lyssa! J? Ns ainda nem comeamos a abrir os presentes! Deixa pelo menos eu abrir o seu, bem rapidinho.
Ela foi at a mesinha dos presentes, ali perto, e apanhou o grande pacote retangular que eu havia levado.
- Puxa, Lys! O que tem aqui? Um carro novo?
- Surpresa - respondi, toda agitada.
E dei alguns pulinhos, impaciente, enquanto minha amiga ,com enorme cuidado, desfazia o lao de fita, soltava as laterais do pacote e retirava o papel. A minha filosofia 
 de que presentes devem ser abertos na velocidade da luz. Betsy, entretanto, era  metdica demais para fazer isso. Ela chegava inclusive a guardar o papel de presente 
para us-lo de novo.
Por fim, Betsy tirou a tampa da caixa.
- Nooossa! - ela exclamou, pegando o vestido. - Lys, mas ...  to ...  perfeito!
- Obrigada - eu falei, corando, toda contente. - Fico feliz que voc tenha gostado.
- No! Quem diz obrigada sou eu! - Betsy encostou o vestido no corpo e rodopiou pra l e pra c, vendo o efeito que fazia, enquanto a saia farfalhava. Na hora em 
que me lanou um olhar de gratido, vi que o vestido combinava direitinho com a cor dos olhos dela.
quela altura, estava todo mundo em volta, olhando.
-  lindo! - Ruth elogiou, entusiasmada.
- Betsy! - Heather exclamou. - Voc est parecendo a Kate Winslet em Titanic!
Cliff aproximou-se e soltou um assobio de aprovao. _
Minha nossa! Onde foi que voc comprou esse vestido, Lyssa?
- Eu no comprei. Eu fiz.
- Foi voc que fez? - O queixo de Cliff caiu. - Puxa!
- Parece trabalho de profissional - comentou a sra. Weddington.
- De onde voc tirou? Algum molde da Vogue?
- No. Eu mesma desenhei o modelo.
- Voc desenhou?
- Mame, a Lyssa  capaz de costurar qualquer coisa - Betsy falou. - No se lembra daquele vestido amarelo que ela fez pra mim? 
- Lembro, claro que lembro. Mas eu no fazia a menor idia de que ela mesma desenhava os modelos. - A Sra. Weddington nclnou a cabea para o lado e me olhou por 
uns segundos.
- Lyssa, eu quero lhe dar uma coisa. No v embora j, espere um pouco.
- Tudo bem - falei, imaginando o que seria.
A Sra. Weddington entrou em casa e voltou momentos depois, sacudindo um carto.
- Esse estgio apareceu no faz nem dois dias e ainda no tive tempo de coloc-lo no quadro de avisos. Acho que seria perfeito pra voc.
Assim que ela me entregou o carto, li o que estava escrito.
 
Estgio - Savra Modas
Confeco sediada em Dallas procura estudante responsvel,
com muita vontade de trabalhar, para auxiliar na
criao da coleo de primavera. O(a) Candidato(a) escolhido(a)
ficar encarregado(a) de pequenos servios externos, da
organizao do estoque e dever atender o telefone.
Os(As) candidatos(as) precisam saber costurar e ter
conhecimentos slidos sobre uma ampla variedade de
tecidos. Por favor, entregar pedido de estgio acompanhado
de trs referncias.
 
Pisquei e prendi a respirao, mal conseguindo acreditar. Ela est certa, pensei. Eu podia me candidatar.
As meninas se juntaram ao meu redor, tentando ler o carto.
- Voc vai se candidatar, Lyssa? - A voz de Ruth vinha do meu ombro esquerdo.
- Vai l, menina! - Betsy falou  minha direita.
- De que jeito, gente?! - Heather esganiou. - Ela j tem uma carreira. J est com a vida totalmente feita.
Eu sabia que eram as minhas amigas que estavam falando, mas as vozes bem poderiam ter vindo da minha conscincia. Por um lado, era sensacional ter uma oportunidade 
como aquela. Era o tipo de coisa que, em silncio, eu esperava que acontecesse comigo. Por outro, no tinha muita certeza se conseguiria lidar com o estresse familiar 
que tal deciso provocaria. Ser que eu poderia largar a carreira de modelo? Ser que arrumaria coragem suficiente para comunicar minha deciso a mame?
- Como  que voc iria conseguir trabalhar como modelo, freqentar as aulas e fazer esse estgio? - Ruth perguntou.
- Eu teria de parar de desfilar e de fazer fotos - respondi.
- Voc ficou louca? - Heather gritou. - Desistir da fama e da fortuna pra ser peo numa confeco fedorenta? 
- Pois eu acho que voc aprenderia um bocado num emprego desses - disse a sra. Weddington, me olhando seriamente. - Espero que pelo menos reflita a respeito.
Pode ficar descansada que eu vou refletir, sim, pensei com os meus botes.
Na volta pra casa, lembrei-me de tudo o que havia acontecido nos ltimos tempos. Eu no era uma pessoa muito religiosa, nem gastava dinheiro com coisas fteis, como 
Heather. De repente minha vida parecia corresponder aos meus sonhos mais secretos.
Primeiro foi Dante, que surgiu das sombras durante a festa e entrou direto no meu corao, despertando em mim sentimentos que jamais imaginei ter por algum. Depois 
foi a sra. Doherty, que nos escolheu pra formar uma dupla de trabalho. De repente, l estava eu, dividindo com ele desejos que no teria admitido pra ningum, e 
ele me incentivando a torn-los realidade. E agora a me de Betsy vinha com aquele estgio fantstico. 
Talvez tudo isso estivesse escrito nas estrelas. Talvez o destino estivesse me enviando sinais para indicar novas direes. Mas eu tambm podia estar redondamente 
enganada. O destino no facilitaria a conversa que precisaria ter com mame. 
Ela jamais me perdoaria se eu largasse a carreira de modelo. E, mesmo que eu me candidatasse quele estgio, no havia a menor garantia de que fosse conseguir a 
vaga. Por que nadar tanto para morrer na praia?
- Mande s mais um sinal - falei, enquanto entrava na minha rua. - Se acontecer mais alguma coisa que aponte o design de moda, eu me candidatarei ao estgio. Caso 
contrrio, no  pra ser.
Estacionei o carro, guardei o carto do estgio na bolsa e entrei em casa.
Mame estava sentada  mesa, chorando.
- O que foi? - perguntei, correndo na direo dela. - Voc est bem?
- A Pam acabou de ligar - ela respondeu fungando. - Voc no vai acreditar no que aconteceu ...
- A Pam? A minha agente? O que foi que ela disse?
Senti a ponta dos dedos amortecer.  agora ou nunca! Mais um sinal! Talvez eu no tenha de largar a carreira - talvez eu esteja sendo despedida. Seria possvel que 
tivessem descoberto que eu havia me exposto ao sol do meio-dia? Ei, espere um pouco. Eles no podem me despedir! No depois de tanto trabalho. Quem eles pensam que 
so? 
Eu estava muito confusa. No sabia a qual das sensaes que me invadiam o peito reagir primeiro.
_ Ah, minha flor - disse mame, com um soluo que partiu a frase ao meio. Depois se levantou e me abraou. - Voc conseguiu. Voc foi aprovada pra fazer o comercial. 
Estou to orgulhosa de voc!
-O qu?
Mame me soltou e enxugou os olhos com um leno.
_ Eu sabia que voc ia conseguir. Eu disse a Pam que estava com esse pressentimento, mas ela no quis me escutar. Voc tem tanto talento, meu bem. Seu pai vai ficar 
feliz quando voc contar pra ele. Muito feliz mesmo!
Calando-se por alguns momentos pra recuperar o flego, ela tornou a me olhar e comeou a rir.
_ Olha s pra voc! Parece que est em estado de choque. 
_ Eu estou bem - falei, tentando forar um sorriso.
No havia como ignorar o fato de que ali estava o meu sinal. 




6- Dante


No domingo  tarde, peguei-me paralisado diante da porta da casa de Lyssa, mais ou menos como se estivesse contemplando uma pea rara em algum museu. Meu corao 
havia disparado e meu dedo hesitava em tocar a campainha. O que eu vim fazer aqui, afinal?
Minutos antes, eu estava rodando pela cidade tentando clarear as idias. Quando dei por mim, o Fusca j estava parado na frente da casa dela, como se tivesse sido 
programado pra isso.
Lyssa no me saa da cabea. Eu tinha pensado nela a semana toda. Fiquei olhando pra ela do comeo ao fim da aula de orientao vocacional e, o que  mais surpreendente, 
todas as vezes que tentei anotar qualquer coisa o que saiu na folha do caderno foi o nome dela. Eu estava ficando apavorado com aquela situao. Eu j havia sentido 
paixes avassaladoras por causas sociais, mas jamais por uma menina. E aquela minha nova obsesso no podia ser resolvida com passeatas de protesto, discursos ou 
artigos  mordazes na imprensa. Pela primeira vez na vida, eu no fazia a menor idia de como canalizar minhas emoes. Lyssa tinha todas as qualidades que eu lutava 
para que o mundo preservasse: era inteligente, bonita, natural e possua um corao de ouro. Eu no teria a menor dificuldade em dedicar toda a minha vida a ela.
- Sai logo dessa, seu trouxa! - disse a mim mesmo. - Voc est delirando.
Suspirei num desnimo de dar d e virei-me para ir embora.
Quando eu encarava a situao racionalmente, minha causa parecia perdida. Pra comear, ns no tnhamos muita coisa em comum. A bem da verdade ramos plos opostos: 
a bela e o beatnik. A princesa e o plebeu. Mas meus hormnios estavam atrapalhando o meu raciocnio. Ser que o rosto perfeito de Lyssa tinha me enlouquecido? A 
literatura estava cheia de casos assim: Helena de Tria, ]ulieta, Guinevere, Lois Lane. Entretanto, no havia como negar certas coisas, por mais incrveis que pudessem 
parecer. Uma delas era que Lyssa dava a impresso de gostar de mim, mesmo que apenas como amigo. Ela ria das minhas piadas infames, se interessava por minhas opinies 
e tinha inclusive se aberto comigo e contado que no queria mais ser modelo.
Ser que no valeria a pena tentar?
Estanquei na frente da porta e me encostei numa das colunas da fachada. Eu precisava fazer alguma coisa. Talvez pudesse enxergar as coisas com mais clareza, se nos 
encontrssemos de novo. Ento eu saberia se havia mesmo alguma qumica entre ns ou se era s imaginao minha.
Respirando bem fundo, dei mais alguns passos at a porta e apertei a campainha. Um minuto depois Lyssa abriu a porta, viu que era eu e soltou um grito. No era l 
um bom sinal.
- Ai, minha nossa! Eu estou um horror - ela exclamou, virando a cabea e tentando esconder o rosto com a mo. - Eu no estava esperando ver ningum hoje!
Ela estava de agasalho, camiseta branca e culos. Seus cabelos tinham sido puxados para trs e presos com algumas presilhas coloridas. No havia nenhum sinal de 
maquiagem em seu rosto.
Lyssa estava linda!
Quer dizer, no era aquela menina arrumadinha e glamorosa de sempre; estava mais natural. Gotas de suor brilhavam sobre sua pele como se fosse purpurina. Seus olhos 
pareciam enormes e inocentes. E, sem a costumeira camada de batom cheio de brilho, seus lbios estavam rosados e extremamente beijveis. Ela dava a impresso de 
ser mais jovem - e mais real.
- Voc est o mximo! - declarei como se fosse algum especialista no assunto. Bem... talvez de certa forma at fosse, j que havia dedicado todas as horas dos ltimos 
dias ao estudo daquele rosto.
Lyssa baixou a mo e sorriu timidamente pra mim.
- Obrigada - sussurrou. - E ento... o que o trouxe at aqui?
Rum... Eu no tinha pensado no que dizer.  culpa do meu raio rastreador de beleza? Uma fortssima dependncia fsica da sua presena?
- Eu... ahn ... eu me esqueci de anotar a tarefa que a Sra. Doherty passou na ltima aula e achei que talvez voc pudesse me dizer qual  - gaguejei. - Eu ia ligar, 
mas... mas eu estava aqui por perto.
A gola da enorme camiseta que Lyssa estava usando tinha escorregado um pouco e seu ombro brilhava, liso e redondo, sob as luzes do candelabro. Olhei pra baixo e 
comecei a raspar o p no cho, tentando lutar contra o impulso de acariciar a pele exposta.
- Por coincidncia eu estava trabalhando nisso - ela respondeu -, mas ainda no saiu nada. - Ela arrumou a camiseta e cobriu o ombro. - Vamos l pra cima que eu 
passo pra voc.
Como um co leal ao seu dono, eu a segui at o seu quarto.
A tela do computador faiscava, rodeada por vrias pilhas de papis. Pelo visto, ela estava trabalhando em algum projeto, mas a tela continuava em branco.
- A Sra. Doherty quer que a gente entregue um rascunho do nosso currculo amanh. No pode ultrapassar uma pgina. Claro que, pra mim, isso no  problema nenhum 
- ela resmungou, remexendo na miscelnea de papis sobre a mesa. - Minha lista de atividades escolares no ocuparia nem uma embalagem de chiclete, que dir uma folha 
de papel.
Soltando um suspiro, Lyssa se deixou cair na cadeira da escrivaninha, fazendo que a camiseta escorregasse de novo. Minha mo tremeu louca pra tocar aquele ombro.
- Ahn... Olha... Eu tenho um pouco de experincia com essas bobagens - falei, fazendo um esforo enorme pra parecer calmo. - Voc quer que eu ajude?
Lyssa girou na cadeira e me olhou cheia de gratido.
- Voc faria isso? - ela perguntou. - Seria o mximo!
-  pra isso que servem os colegas, no ?
E, sem conseguir me conter, estendi a mo e dei um tapinha de leve em seu ombro nu. O movimento foi rpido e natural, como um reflexo involuntrio, mas aquele simples 
toque pareceu ter ligado todo o meu corpo. No sei se Lyssa sentiu a mesma coisa. Ela passou os dedos no ombro que eu havia tocado e me olhou com uma expresso indecifrvel. 
Achei que o gesto era de aprovao, mas tambm podia ser que meus dedos estivessem frios, s isso.
Lyssa baixou os olhos, timidamente, e fixou-os na camiseta.
Eu olhei para o teto, tentando recuperar a sanidade. 
- Ento... Quer me mostrar o que voc tem? Quer dizer... no seu currculo - falei com voz trmula.
- No tem quase nada, na verdade. Escuta s. - Ela pegou um caderno espiral e comeou a ler em voz alta. - "Modelo da Agncia de Talentos Turner. Atribuies: sorrir, 
posar para a cmera, desfilar pra l e pra c numa passarela, usar roupas e saber ficar bem quietinha." Viu? Eu pareo mais um brinquedo do que algum que trabalha.
- O truque est na forma de usar as palavras. Voc deveria dizer "demonstrar produtos" em vez de "usar roupas". Ou ento "auxiliar no trabalho de publicidade e de 
marketing". Lyssa riu.
- Ta! Gostei dessa! - Ela se virou na cadeira e comeou a digitar. - Ahn... Em vez de "shows de moda e fotos publicitrias" ser que eu no podia dizer. .. "vrios 
trabalhos para a mdia"?
- Voc pegou a manha! - respondi, olhando por cima do ombro dela. - No fez mais nenhum trabalho? Nunca vendeu biscoitos para angariar fundos para uma instituio 
ou algo do tipo?
- Bom, eu cuidei dos trs filhos de uma vizinha durante uma semana, enquanto a bab tirava frias.
- J  alguma coisa - falei, coando o queixo. - Poderamos chamar de "engenharia domstica". Que tipo de tarefa voc teve de fazer?
- Vejamos... eu preparava o almoo.
- Pe a "consultoria diettica" - falei.
-Levei o mais velho para treinar futebol- ela continuou.
- "Assistncia em deslocamentos geogrficos."
- Providenciei pra que eles no se matassem...
- "Negociao e resoluo de conflitos."
- E troquei fraldas.
- Essa  um pouco mais difcil. O que voc acha de "manuteno sanitria"?
Lyssa inclinou a cabea pra trs e riu. Seus cabelos lisos roaram o encosto da cadeira.
- Perfeito!
Tambm acho...
Ela terminou de digitar, salvou o texto e o leu de novo. 
- Ei, sabia que voc fez isto aqui ficar apresentvel? Quase profissional, eu diria. Voc acha que a sra. Doherty vai engolir?
Dei de ombros.
- Mentindo voc no est. Voc apenas... maquiou um pouco as coisas. No h nada de errado nisso.
Lyssa voltou ao topo da pgina e digitou a palavra objetivo em negrito. 'Fitou-a alguns segundos, suspirou e tornou a afundar na cadeira, tirando as mos do teclado.
- Voc vai pr a que est pensando numa carreira em design de moda? - perguntei, hesitando um pouco.
- , fiquei sabendo de um estgio que seria ideal pra mim - ela comeou a dizer, ainda de olho na tela.
- Uau! Que dez! Quer dizer, ento, que voc vai se candidatar  vaga?
Ela roeu a unha, depois parou e sussurrou: 
-No.
- E por que no? Eu achava que era isso que voc queria fazer.
Lyssa soltou um suspiro mais profundo e me encarou com os olhos cheios d'gua.
- E . S que no posso. No enquanto eu for modelo. Sei que voc acha que eu' deveria largar tudo, mas no momento ... - Desviou seu olhar para o cho. - Est complicado. 
No d.
Minha vontade era protestar e dizer a Lyssa que ela tinha o direito de fazer o que quisesse com seu futuro, mas algo me segurou e me disse pra calar a boca. Ela 
devia estar sofrendo uma presso enorme. Na verdade, dava a impresso de se sentir esmagada por um grande peso. De repente ficou to triste, parecendo to frgil... 
Quis me ajoelhar ao seu lado, tirar o cabelo que havia cado em seu rosto e lhe dizer que no fim tudo daria certo.
- Dante... - ela falou, me olhando de novo. Era a primeira vez que dizia meu nome e, por alguma razo, fiquei todo arrepiado. 
- Hein?
- Voc j se candidatou a algum estgio?
Era a minha vez de suspirar e mirar o cho.
- Ainda no. Tem um que eu vi pregado no quadro de avisos.  perfeito pra mim, uma vaga de assistente na Folha da Manh de Dallas. Mas... - Dei um sorriso meio triste. 
- Pra que alimentar falsas iluses? Eles nunca me contratariam.
- Por que no?
Mostrei minhas roupas com um gesto.
- Ora, por qu?! Eu no sou o tipo "certinho" que anda com uma pasta e usa gravata.
- Mas que bobagem! - exclamou Lyssa, levantando-se em um salto. Ela me examinou de alto a baixo, com a mo no queixo, como se fosse uma artista estudando seu modelo. 
- Voc consegue, sim. S precisa de um corte de cabelo e de uma cala nova. 
Ento, antes que eu tivesse a chance de protestar, Lyssa virou a cadeira giratria, me fez sentar e colocou um lenol em cima de mim. Um minuto depois estava borrifando 
gua no meu cabelo e passando nele um pente de dentes largos. 
- O que voc vai fazer? - perguntei, feito um bobo.
- No se preocupe. Pode confiar em mim - ela sussurrou,enquanto virava minha cabea para a direita. - Eu fao isso o tempo todo. Voc vai ficar com uma cara tima.
Ao sentir o hlito dela na minha orelha e uma leve presso no meu couro cabeludo, estremeci inteiro vrias vezes. Fechei os olhos e me entreguei ao momento, tentando 
imaginar a cena. Eu me via na cadeira, paralisado, Lyssa trabalhando com afinco, e, embaixo, uma legenda que dizia: Garoto da comarca pega fogo ao ter o cabelo cortado 
por jovem modelo.
Lyssa pegou um cortador eltrico e ps mos  obra.
- Agora, por favor, no se mexa - ela pediu. - No vai doer nem um pouquinho.
- Certo... - Minha voz saiu trmula. 
Fiquei absolutamente imvel enquanto o cortador eltrico ia tosando o cabelo atrs da orelha, fazendo ccegas na pele e vibrando no crnio. Enquanto cortava, Lyssa 
ia me aconselhando sobre o que usar na entrevista da Folha da Manh de Dallas.
- No v de temo nem nada do tipo - instruiu ela. - Fica muito nerd. O ideal  uma cala de sarja cqui e uma camisa plo abotoada at em cima.
Tentei lembrar se tinha algo parecido no meu guarda-roupa.
Eu achava que tinha uma cala cqui, mas no me lembrava da camisa plo.
- Voc no pode ir de tnis, mas acho melhor tambm no usar nada com muito brilho - Lyssa continuou. - Voc tem mocassins marrons?
- No, mas tenho umas botas marrons super-resistentes, dessas pra caminhadas longas.
- Sei... Mas no servem.
- E se eu pegar emprestado do meu pai? Ns calamos o mesmo nmero. E no se preocupe: eu sei que meia grossa no combina.
- timo - ela disse, achando graa. Depois desligou o cortador de cabelo e colocou-o sobre a penteadeira. - Agora deixa eu ver se ficou direito. - Lyssa inclinou 
um pouco o corpo pra frente, inspecionando o topo da minha cabea. T-la assim to perto de mim me fez engolir em seco. Estudei seu rosto como se fosse uma paisagem 
e reparei que no tinha nenhuma mancha ou marca. Fiquei fascinado com a curva de seu queixo. Estava louco para toc-lo.
- Parece timo - ela murmurou, examinando o corte.
Tambm estou achando...
Ela baixou os olhos at encontrar os meus e sorriu tmida.
Meu corpo comeou a pegar fogo. Eu tinha razo. No havia mais dvidas de que tinha uma qumica entre a gente. 
Aps alguns arrepios na espinha, Lyssa endireitou o corpo e quebrou o encanto.
- D uma olhada. - E puxou o lenol, apontando para o espelho. - Gostou?
- Uau! - exclamei. Um simples corte havia feito uma diferena enorme. Era como se ela tivesse modificado o meu rosto, e no o meu cabelo. Meu maxilar parecia mais 
largo e mais forte, e meus olhos davam a impresso de serem maiores. - Voc  capaz de fazer milagres!
Ela sorriu e comeou a espanar os fios cortados dos meus ombros e do meu pescoo.
- Bem, Sr, Michaels - disse ela, com voz profissional -, creio que achamos o que estvamos procurando. - Depois sorriu com ar travesso e me estendeu a mo. - Quando 
podemos comear?
Segurei a mo de Lyssa entre as minhas, respirei bem fundo e disse muito srio:
- Que tal no sbado  noite? L pelas oito horas?


7- Lyssa

Ele me chamou pra sair! Ele me chamou pra sair!
Depois que Dante foi embora, dancei com meu coelhinho de pelcia pelo quarto. Eu no me sentia to feliz e empolgada desde ... desde antes de nascer, eu acho.
Mal podia acreditar. Eu l, de culos, sem nem um pouquinho de maquiagem no rosto, e mesmo assim ele tinha me chamado pra sair. Quando abri a porta e o vi, minha 
vontade foi de sumir debaixo do capacho. Voc me entende, n? Eu tinha passado a semana inteira pensando nele. Bem na hora em que parecia uma criatura sada dos 
livros de mistrio de R. L. Stine, ele surgiu na minha frente.  sempre assim ... Dante no demonstrou estar preocupado com meu estado deplorvel. Alis, disse que 
eu estava o mximo. Voc quer mais que isso? Tudo bem que havia a possibilidade de ele ser totalmente mope, mas fiquei com a impresso de que tudo o que me disse 
foi pra valer.
- Ele gosta de mim, Boo-Boo! Ele gosta de mim como eu sou.
E ficou com um jeitinho to feliz, to bonitinho, depois que eu cortei o cabelo dele! Foi como se pela primeira vez na vida tivesse percebido a prpria beleza. Quem 
sabe eu podia lhe dar mais algumas dicas de moda, ajud-lo a se sentir melhor consigo mesmo. A talvez ele parasse de ser to pessimista o tempo todo.
- Ele me convidou pra sair! - repeti pela milsima vez, esmagando de tal forma o pobre Boo-Boo que seus olhinhos de boto quase saltaram fora.
O protetor de tela do meu computador me chamou a ateno: era uma exploso colorida de fogos de artifcio, o que me pareceu bastante apropriado, tendo em vista meu 
grau de felicidade.
Dante tinha feito com que eu me sentisse melhor, havia me ajudado com o currculo e tornado uma enorme frustrao num momento de pura diverso. Tinha conseguido 
fazer que eu me sentisse inteligente e capaz de fazer qualquer coisa nesse mundo. 
Toquei no mouse e o protetor de tela sumiu, revelando de novo o meu currculo. Estava tudo ali, menos o objetivo. Ser que eu podia mesmo fazer qualquer coisa?, 
perguntei em voz baixa. Ser que eu devia pr que pretendia ser designer de moda?
O telefone tocou.
_ Al? - atendi meio zonza, na esperana de que pudesse, ser Dante.
- Oi, princesa! - Era papai.
- Oi, papai. Como vai o senhor?
- Tudo bem. Voc est com uma vozinha muito feliz.
Sorri pra mim mesma no espelho da penteadeira.
- Eu estou feliz.
- E eu sei o porqu - papai falou em tom brincalho.
_ Sabe? - engoli em seco. Como  que ele poderia saber?
Ser que mame tinha percebido algo entre Dante e mim e contado pro papai?
_ Sim, senhora. Aposto como voc est pisando nas nuvens por causa daquele comercial, certo?
- Ah. Ahn... . - Me pegou de surpresa.
Eu tinha me esquecido do assunto.  claro que continuava animada por ter conseguido o papel, mas meus sentimentos em relao a Dante haviam apagado o comercial da 
minha cabea.
_ Voc mereceu. Vem trabalhando tanto... - Papai se calou por alguns instantes, depois falou com uma voz mais grave e trmula.
- Eu tenho muito orgulho de voc, filhota.
As lgrimas me vieram aos olhos. Eu no sabia por que estava me sentindo triste, mas sabia de uma coisa: jamais poderia abandonar a carreira de modelo, se aquilo 
deixava papai to orgulhoso.
- Obrigada, papai - respondi baixinho
. - Bom, mas como eu ia dizendo... - papai pigarreou e continuou.
- Sua me me disse que o comercial vai ser rodado daqui a duas semanas, durante o fim de semana que eu tinha reservado pra ir visit-la.
- No brinca! - Senti um aperto no corao. - Ah, papai, me desculpe. Eu no sabia.
- Sem problema, princesa. Eu entendo como isso  importante pra voc. Sua me me falou que, depois desse comercial, os fins de semana seguintes tambm vo estar 
tomados com outras fotos publicitrias. Pelo visto ns s vamos nos ver no Dia de Ao de Graas!
- No Dia de Ao de Graas?!
Eu no estava crendo! Tinha visto meu pai pela ltima vez no feriado da independncia. Durante o resto do ano, trabalhei direto. Mame tinha dado um jeito de eu 
ter o mximo de compromissos possvel antes do incio das aulas. E agora s ia rever meu pai no fim do ano!
- Papai, olha, eu no preciso participar de todas as propagandas.
Talvez desse pra eu... Um bipe no telefone me avisou que havia uma outra chamada
na linha.
- Vou deix-la atender, filha. Voc sabe que  sempre bem-vinda.
Converse com sua me e veja se consegue arrumar um tempinho, certo?
- T bom. Um beijo, papai.
- Outro pra voc.
Ele desligou e eu fiquei ali parada durante alguns segundos antes de atender a outra linha. Instantes antes eu me sentia to feliz, era como se estivesse voando. 
Agora todos os meus problemas haviam me trazido de volta  terra. Passou pela minha cabea que talvez a sensao de praticar bungee jump fosse bem parecida.
Respirei fundo e atendi a segunda ligao.
- Al? - eu falei.
- Al? - Era uma voz masculina e grave. - Lyssa?  voc?
Dante!
_ E ento, meu senhor? - falei num tom de bvia paquera.
- Cad a minha gorjeta?
- No entendi.
De repente, a voz no parecia mais com a de Dante.
- Quem ? - perguntei cautelosa.
- Lyssa, sou eu.
-Eu quem?
-O West!
- Ah... - Nem tentei disfarar o desapontamento.
_ Estava esperando outra pessoa? - E West riu, como se aquela tivesse sido a pergunta mais absurda de todos os tempos. 
- E a, West, como vo s coisas?
Ele parou de dar risada e pigarreou. Quando voltou a falar, sua voz estava toda melosa.
_ S queria ouvir sua voz um pouco, gata. J faz um tempo.
Quem ele pensava que era? Barry White?
- , pois . Andei meio ocupada.
_ Eu logo imaginei que fosse isso. Eu tambm estou com a agenda lotada. Meu agente tem recebido chamadas de tudo quanto  lugar, me procurando pra fazer comerciais. 
Na semana passada eu trabalhei na mostra de carros da feira estadual. Mas fazer o qu, se todo mundo me procura?
- Ahan. - Socorro, pensei.
_ Bom, tem uma coisa que voc vai adorar. O que voc quer primeiro: a boa notcia ou a notcia boa?
- Voc decide.
_ Ento t. Bem, parece que estarei com a agenda livre no prximo sbado. - West calou-se, esperando algum tipo de reao, talvez uma salva de palmas ou o rufar 
de tambores.
- Certo. E...? 
_ E ns podemos sair - ele completou, num tom j meio impaciente.
_ Ahn... West, no vai dar pra sair com voc nesse sbado 
- Ah, que pena. Voc est com trabalho marcado?
- No. Mas j fiz planos de sair com uma pessoa.
- O qu? Fala srio!
Foi minha vez de ficar irritada.
- E por que eu haveria de inventar uma coisa dessas?
- Eu sei l. Pra dar o troco, porque eu no liguei pra voc a semana toda?
- No ligou, ? - Tentei me lembrar. - Acho que eu nem reparei.
- Muito engraadinha. Olha s, eu andei ocupado. - O tom era de seduo. - Pra com isso, Lyssa. No faz assim.
- Eu no estou mentindo pra voc, West. Vou sair com uma pessoa no sbado.
- Posso saber com quem? - ele perguntou ofendido.
- Com o Dante Michaels. Voc o conheceu. Aquele reprter da festa.
- Reprter... - ele repetiu baixinho. Depois comeou a se lembrar. - Aquele cafona sem graa? T bom, gata. Fala srio! Ufa, voc quase me pegou!
Minhas entranhas deram um n e tive a ntida sensao de que o topo da cabea iria explodir.
- Eu no estou brincando, West! - falei alto, com os dentes cerrados. - Ns vamos sair.
A gargalhada que estava presa saiu toda de uma vez da boca de West.
- Voc t me tirando? Vai sair com aquele cara?
- Qual o problema?
- Ora, Lys. O panaca deve comprar as roupas dele no brech do Exrcito da Salvao. Voc no viu o jeito como ele estava vestido?
- Tchauzinho, West! - berrei.
Eu estava prestes a desligar quando o escutei dizendo:
- Ei, espera um pouco. Deixa eu falar.
Pensando que ele fosse pedir desculpas, esperei.
- Eu ainda no contei a outra boa notcia.
- Bem... e qual ?
- Ouvi dizer que voc foi escolhida pra fazer aquele comercial da Cutter Electronics pra televiso.  verdade? 
-.
- Eu tambm. Pelo visto, a gente ainda vai se encontrar.
Numa exploso de raiva, desliguei o telefone e o atirei longe.
Ele bateu na cama, pulou e foi cair numa pilha de catlogos.
Cafona sem graa? A voz antiptica de West ecoava na minha cabea. Quem foi que lhe deu o direito de falar mal de Dante?, pensei. 
O Dante  maravilhoso, engraado, inteligente, simptico, gentil. E da que ele no sabe se vestir direito? Ele s precisa de uma ajudazinha.Mais nada.
Peguei do cho uma mecha do cabelo dele e a esfreguei entre os dedos.
_ Eu vou ajud-lo - sussurrei baixinho. - Vou mostrar ao Dante e a todo mundo que ele pode mudar. E muito. Ele vai ficar o maior gato!
Sorri com os meus botes, lembrando-me de como ele havia ficado impressionado com o corte de cabelo. Imagine quando percebesse o que algumas roupas legais podiam 
fazer por uma pessoa.
Aposto como o Dante nunca se deu conta de que  lindo, pensei.
Sentada no cho, peguei o telefone e tirei debaixo dele um catlogo da Spiegel. Depois procurei a seo de acessrios masculinos no ndice.


8-Dante

Quando as aulas comearam, achei que o curso de orientao vocacional representaria cinqenta e cinco minutos jogados no lixo. A Sra. Doherty era irritante, os filmes 
que ela mostrava eram inteis, e as tarefas beiravam a imbecilidade. E eu no estou exagerando. Um dia fizemos um teste que devia revelar qual a melhor carreira 
pra cada um. De acordo com os resultados, eu estava destinado a subir aos palcos de Nova York, e Jamal era um cientista nato com ingresso garantido na Nasa. Por 
a j d pra ter uma boa idia do que eram as aulas dela. 
Mas tudo mudou de figura de uma hora pra outra. De repente, comecei a amar as aulas de orientao vocacional e no queria que elas terminassem nunca, porque eram 
minha nica oportunidade de ver Lyssa, j que ela vivia trabalhando.
Cinco dias depois de ela ter concordado em sair comigo, a Sra. Doherty nos mandou sentar- com o parceiro de trabalho e comear a montar os portflios.
- Lembrem-se, meninos e meninas - comeou ela -, de que vocs s tm duas semanas at a data de entrega. Tentem fazer bom uso do tempo que lhes resta.
Ao ouvir isso, as duplas se reuniram, pegaram os portflios e se puseram a tagarelar. Um dos fatos indiscutveis desta vida, que professor nenhum parece entender 
direito,  o seguinte: tendo a oportunidade e a liberdade de conversar em sala de aula, o aluno vai falar sobre qualquer coisa, menos sobre o tpico em discusso. 
Tirando Arnold Sipowitz, que estava ocupado em colar etiquetas do tipo profissional e impressas a laser no portflio dele e no de Jamal, os demais alunos falavam 
de esportes, comentavam os programas da MTV e fofocavam sobre a peruca do vice-diretor. S quando a Sra. Doherty se aproximava de alguma mesa  que o pessoal se 
punha a discutir os objetivos de carreira ou os planos para a faculdade.
Lyssa e eu, lado a lado, trocvamos sorrisos secretos.
_ Sabe que seu corte ficou super legal? - ela falou, estudando a minha cabea com ar de aprovao. - Voc at parece mais velho.
Estalei os dedos.
_ Ah! Bem que eu desconfiava que houvesse um motivo para eu estar tomando aqueles energticos!
Ela riu e revirou os olhos.
_ Mas, falando srio, muito obrigado - cochichei, inclinando- me pra frente, na direo dela. - Eu tenho mesmo um cabelo fantstico!
Nossos olhares se encontraram e Lyssa iluminou a sala inteira com seu sorriso. Quando finalmente consegui desviar os olhos do rosto dela, vi Jamal  direita. Ele 
deu um sorriso e colocou o polegar pra cima.
Na segunda-feira, quando lhe contei que havia convidado Lyssa pra sair e que ela tinha aceitado, o seu espanto foi visvel.
Primeiro caiu o queixo e depois os joelhos se dobraram.
_ Voc...  o meu heri! - Ele deve ter repetido essa frase umas mil vezes. Eu disse que era s um encontro e que tnhamos ficado amigos por causa daquela besteira 
de portflio, mas ele insistiu em fazer um grande estardalhao em torno do sbado. - Oua o que estou lhe dizendo, Dante. Essa menina ainda vai ser a sua salvao.
Cheguei a me perguntar se a Sra. Doherty no teria trocado meu teste com o de Jamal. No havia dvida de que a coisa do drama era com ele! .
_ Quer saber de uma coisa? - Lyssa falou, estendendo o brao e mexendo na manga da minha camiseta verde. - Essa cor fica muito bem em voc. Devia usar sempre.
_ Mas... Ser que no ia comear a cheirar mal depois de uns dias? - retruquei na lata.
Ela bateu na minha testa com a caneta.
- Estou falando do tom de verde, no da camiseta!
- Ah, entendi.
- E aquele jeans que voc usou ontem, o de corte clssico?
Tambm ficou muito bem em voc. Ela no fez aquele comentrio em tom de paquera - na verdade, parecia quase uma profissional -, mas suas palavras fizeram meu corpo 
formigar da raiz do cabelo at a ponta dos ps.
- Bom... - engoli em seco e endireitei a gola da camiseta.
- O jeito  achar uma cala como aquela neste tom de verde!
Meu consolo  que, de onde estava Jarnal no podia nos escutar. Se me ouvisse falando sobre coisas como cores e cortes de cala, eu no teria mais sossego. Na verdade, 
eu estava bastante surpreso comigo mesmo. Antes de comear a me dar bem com Lyssa, eu teria tido um troo se algum mencionasse algo do tipo, mas me peguei curtindo 
os elogios dela.
Lyssa fizera questo de elogiar vrios itens do meu guarda roupa a semana inteira e, com isso, eu descobrira qual par  de  tnis era legal e que culos escuros ela 
achava o mximo.
At ento eu havia escutado pouqussimos comentrios a respeito da minha aparncia. No que isso me incomodasse. Eu vivia dizendo aos quatro ventos que as aparncias 
no tinham a menor importncia, e continuava acreditando nisso. No entanto, por mais que relutasse em admitir, estava adorando as atenes que Lyssa vinha me dando. 
- Eu estou louca pra que o sbado chegue logo - ela me disse.
- . Eu tambm - respondi, sentindo-me um pouco nervoso, sem atinar com o motivo. - Eu passo pra te pegar as oito, ta? Est tudo certo?
- Claro. Eu s preciso... de trs cartas de recomendao.
Meu corao parou de bater por alguns segundos, at perceber que a Sra. Doherty estava por perto, levando Lyssa a mudar de assunto no meio da frase.
- Como estamos indo aqui? - a professora perguntou.
- Muito bem - respondemos os dois juntos.
- Hummm... Deixa eu dar uma olhada. - Ela folheou meu portflio, balanando a cabea e soltando uns gemidos diante dos recortes de jornal, do histrico escolar, 
dos prmios literrios e do  meu currculo. Depois folheou o portflio de Lyssa, examinando as fotos tiradas para catlogos e revistas. - Bem, vocs dois esto fazendo 
um bom trabalho. Est tudo muito bom mesmo!
Lyssa e eu agradecemos em unssono.
- Mas eu receio que estejamos precisando de um pouco mais de equilbrio. Olhem s: temos aqui uma amostra detalhada e excelente da carreira de modelo iniciada pela 
Srta. Naylor e uma seleo considervel de artigos escritos pelo Sr. Michaels. Entretanto, ambos precisam demonstrar melhor como so em classe.
- Ahn... mas como podemos demonstrar isso? - perguntei, sem saber ao certo se deveria ter includo ali registros das minhas suspenses, causadas por protestos no-autorizados 
na escola.
- Tirem algumas fotos! - respondeu alegremente a Sra. Doherty. - Incluam alguns instantneos que mostrem os alunos diligentes que so. Deixem que o futuro empregador 
veja o que todos vem aqui no colgio.
Ser que ela existia mesmo? Por que cargas d'gua um futuro empregador se interessaria em ver fotos minhas? Pela expresso de Lyssa, nem ela tinha se animado com 
a idia.
Entretanto, como de hbito, a Sra. Doherty nem deu bola pra nossa opinio. E eu sabia que no haveria como convenc-la do contrrio. Ela era uma daquelas professoras 
que faziam questo de que suas instrues idiotas fossem cumpridas  risca. 
- Ento estamos combinados! - O tom era de felicidade celestial. - Continuem trabalhando direitinho!
- E ento? Quer tirar umas fotos minhas no ambiente escolar? - perguntei a Lyssa depois que a professora se afastou. - Por exemplo, uma foto minha estrangulando 
a professora de orientao vocacional?
- Ah, voc no vai me querer pra fazer esse trabalho. Eu sou uma pssima fotgrafa. Vivo cortando a cabea das pessoas e fazendo os olhos de todo mundo sarem vermelhos.
- Nossa, que violncia! Pra ser sincero, eu tambm no dou muito pra coisa.
Olhei de novo pro Iamal. Ele estava afundado na carteira, agitando a caneta como se fosse uma batuta, enquanto Arnold media com extremo cuidado as margens das folhas 
do portflio.
- Mas acho que conheo a pessoa certa pra nos ajudar. Se ele conseguir ficar de bico calado...
- Bem, c estou - anunciou Jarnal, entrando na classe de jornalismo como se fosse um astro de rock pisando no palco. _ Ela j chegou?
- Ainda no - falei de olho grudado no corredor atrs do meu amigo. Depois, andei at uma cadeira, me sentei, levantei de novo e fui olhar o corredor outra vez.
Jamal apontou pra mim e riu.
- Olha s isso! O cara t nervoso!
- Para de me tirar, Jamal!
- Qual  cara? Pode se abrir comigo. Voc t mesmo a fim da menina, no ?
- Cala a boca! Ela pode chegar a qualquer minuto!
Jamal ergueu as mos em sinal de rendio.
- T bom, t bom. Fica frio, cara.  que  meio esquisito ver Dante Michaels, o grande defensor das causas nobres, virar um colegial emotivo, de mos suadas.
- Tudo bem. Pode continuar se divertindo  minha custa _ resmunguei, cruzando os braos. - No sei por que eu conto as coisas pra voc.
- Calma cara! S estou feliz por voc. A Lyssa me parece muito melhor do que as outras meninas com quem voc j saiu essas calouras piradas que usam tnica africana 
e vivem citando Maya Angelou.
- Ah, ? E eu posso saber por que a Lyssa parece ser melhor pra mim?
Jamal deu de ombros e arriou numa cadeira.
- Porque voc desceu do palanque e veio fazer companhia pra ns, mseros mortais. Quem sabe se voc tiver uma super modelo como namorada vai perceber que a vida 
no  to m...
Sacudi a cabea, impaciente.
- Em primeiro lugar, ela no  minha "namorada". Ns ainda nem samos. Em segundo lugar, se voc pensa que eu vou abandonar minhas causas por um rostinho bonito, 
est...
- Credo, no foi isso que eu falei! - Iamal ergueu a mo, numa tentativa de me acalmar. - Mas que tem uma coisa meio diferente em voc, tem. No leve a mala que 
eu vou dizer agora, mas nos ltimos dias voc ficou mais bacana.
- , t bom - retruquei, lanando-lhe um olhar de poucos amigos.
Porm, ao me virar, vi minha imagem de corpo inteiro no espelho que havia na entrada da cmara escura. Jamal tinha razo. De fato, eu parecia diferente. E no era 
s por causa do corte de cabelo.
Nos ltimos dias, pela manh, andava gastando um pouco mais de tempo com a minha aparncia. Tudo havia comeado no domingo  noite, depois de Lyssa me dizer que 
sairia comigo.
Estava pondo minha roupa pra lavar e de repente reparei que tinha muita coisa desbotada ou rasgada. Dei uma geral no fundo do guarda-roupa e descobri algumas camisas 
e calas que havia ganhado de Natal e de aniversrio. Eram meio cheias de frescura pro meu gosto (justamente por isso estavam no fundo do guarda roupa), mas cheguei 
 concluso de que teriam de servir at eu poder comprar umas peas que fizessem mais o meu tipo. Na manh seguinte, recarreguei meu barbeador eltrico no deixei 
sobrar nem um fio de barba no rosto. At coloquei um cinto! Dali em diante, comecei a me vestir com mais cuidado.
O engraado  que, durante a semana, todo mundo reparou em mim mais do que o normal. Os professores sorriam e me cumprimentavam; gente que eu achava que nem sabia 
que eu existia passou a dizer "oi" nos corredores. Comecei a me perguntar se, por trs daquele sbito aumento de popularidade, estava a minha nova aparncia, ou 
se era apenas um reflexo da emoo que tomava conta de mim porque minha grande noite com Lyssa estava chegando.
Fosse o que fosse Jamal tinha razo. Eu estava diferente, me sentia diferente, e o mundo realmente parecia um lugar melhor pra se viver.
-Oi, meninos. - Lyssa entrou na sala com um sorriso que me iluminou como um farol. - Desculpem o atraso. Tive de ligar pra minha me antes.
- Sem problemas - falei. - Eu sabia que voc viria.
]amal deu uma tossida e se levantou.
- Ah, Lyssa, este  ]amal, o fotgrafo. Voc j o viu na classe.
- Claro que sim. Oi ]amal-o-fotgrafo". Achei super legal voc ter concordado em ajudar a gente nesse trabalho idiota. 
- O prazer  meu. - A lngua dele devia ter ficado duas vezes maior, porque me pareceu que ele disse algo como "paemeu".
- Ento... por onde comeamos? - Lyssa perguntou, olhando pra ns dois.
- Bom... - comecei -, a Sra. Doherty quer fotos nossas num ambiente acadmico. Ento achei que o ]amal poderia tirar fotos da gente fazendo o que normalmente fazemos 
na escola:lendo, escrevendo, assistindo s aulas ...
- Organizando protestos contra a imposio de um horrio de recolher - ]amal acrescentou, com um sorrisinho bobo. 
Olhei feio pra ele e continuei a falar.
- Como eu ia dizendo... aquelas coisas de sempre. Na verdade no vai levar muito tempo.
- T bom. - Lyssa deu de ombros. - Por que voc no vai primeiro, Dante?
- Eu? - perguntei tolamente. Nunca gostei de tirar fotografia. Sempre saio com a boca aberta ou com alguma expresso idiota no rosto. S de pensar em Lyssa me olhando 
fazer pose, fiquei sem graa.
- No, acho melhor no. Por que voc no vai primeiro? - sugeri. - Quer dizer, eu sei que voc tem que ir quele ensaio, e coisa e tal.
- Tenho mesmo. Virando-se pro ]amal, ela perguntou:
- Tudo pronto?
Jamal deu um sorriso gigantesco, que achei que fosse partir seu crnio ao meio.
- T. Tudo prontinho!
Lyssa sabia exatamente o que fazer. Primeiro tirou um livro da bolsa, sentou-se perto da escrivaninha e fingiu estar estudando.
Ela franzia a testa, inclinava a cabea pro  lado e pro outro, colocava a mo na testa ... Jamal ia batendo as fotos e dizendo coisas como: timo. Segura essa. Fantstico!
Ele fez algumas fotos de Lyssa rabiscando um papel, depois trabalhando num problema de clculo no quadro e ento o filme acabou.
- Agora  a sua vez, Dante - Lyssa anunciou, depois que ]amal recarregou a mquina.
- Mas eu... Quer dizer, como... Eu no sei... 
-  fcil. - E Lyssa me puxou at um terminal de computador ali perto. - Aqui, . Senta e finge que est escrevendo um daqueles seus artigos arrasadores.
Ergui os olhos para Jamal, em busca de apoio.
- Oua os conselhos dela - ele ordenou. 
Suspirando derrotado, virei-me pro computador e comecei a digitar no teclado.
-  assim que voc escreve? - Lyssa me perguntou. - Todo duro e reto feito uma tbua?
- Estou fazendo o que sempre fao - retruquei. - H algo de errado?
- Aja com naturalidade. Tente relaxar - ela explicou. 
-Como?
Lyssa e Jamal trocaram um olhar. E ento, antes que eu me desse conta do que estava acontecendo, Lyssa pulou em cima de mim e comeou a me fazer ccegas nas costas. 
Eu me retorcia inteiro, rindo, tentando escapar e, ao mesmo tempo, suando frio por t-la assim to perto de mim. Enquanto isso, ouvia a objetiva de Jamal fazer "clique" 
vrias vezes.
- Pare! - berrei, entre as risadas. - Isso  golpe baixo total!
- Pronto! Assim voc se solta um pouco. - Lyssa suspendeu o ataque, rindo tambm. Meu corao havia disparado e o perfume dela continuava no ar.
- Foi golpe baixo - repeti, sorrindo e sacudindo a cabea.
Depois respirei devagar, me virei pro monitor e apoiei o queixo na mo.
Clique.
- Excelente! Bem melhor! - Lyssa exclamou. - Essa ficou bem mais real.
, -  isso a, cara - interveio Jarnal, - Segura essa pose.
-timo. Agora digite alguma coisa. Isso mesmo. Assim.Em seguida, Jamal tirou algumas fotos minhas junto ao quadro de atribuio de tarefas da redao, depois fazendo 
a diagramao de uma matria falsa. Alm disso, sugeriu que fssemos at a biblioteca, mas ela j estava fechada. Havia um laboratrio aberto e ns entramos para 
tirar mais algumas fotos. Lyssa e eu mexemos com tubos de ensaio, fingimos examinar qualquer coisa ao microscpio e chegamos at a danar com um esqueleto que estava 
pendurado num canto da sala.
Aos poucos, aquilo foi virando uma grande brincadeira.
Tirando alguns poucos funcionrios, quase todo mundo j tinha ido embora, por isso nos sentimos  vontade pra ensaiar algumas poses bem cretinas, s de farra: eu 
apontando pra mim mesmo com uma das mos e, com a outra, mostrando a imensa estante de trofus da escola; ambos sentados na frente do gabinete da diretora, com ar 
de culpados; Lyssa desfalecida em meus braos diante da enfermaria.
- Ei, j sei! - Iamal exclamou quando passamos pelas mquinas de refrigerantes. - E se a gente achasse uns aventais e umas redinhas de cabelo e vocs dois ficassem 
atrs do balco da lanchonete?
- Vamos nessa - respondi, achando hilrio.
- Ai, no! - Lyssa gritou, apontando pra um relgio na parede. - Eu tenho de ir! Tenho de estar no ensaio do desfile em vinte minutos. Se eu me atrasar, mame me 
pe de castigo at eu me aposentar. 
- Eu sinto muito. Espero que no tenha entrado numa fria. 
- No se preocupe. D pra chegar a tempo, se eu correr.
Lyssa tirou as chaves do carro da bolsa e sacudiu-as para mim.
- At mais, pessoal! Tenho de voar! Obrigada pela ajuda, Jamal.
- O prazer foi todo meu.
Lyssa cutucou minhas costas e disse:
- A gente se v amanh  noite.
Depois, atravessou correndo o centro acadmico cruzou as portas de vidro e sumiu no estacionamento.
Fiquei ali parado, vendo Lyssa ir embora: suas pernas compridas, os cabelos balanando ao vento... No pude evitar um suspiro.
A atmosfera parecia mais pesada sem ela por perto. 
- Pelo visto ela foi com a sua cara, meu bom homem. Jamal cochichou perto de mim, interrompendo o meu transe.
- Escuta o que estou te dizendo. Vocs dois vo ser o grande barato do ano.
Em algum lugar dentro de mim, eu acreditava no que o meu amigo dizia. Ou pelo menos queria acreditar. Mas estava to acostumado a ver o lado negativo da vida que 
era difcil aceitar que aquele sonho incrvel pudesse virar realidade.
- No sei, no - falei, dando de ombros. - Acho muito cedo dizer que fomos feitos um pro outro. Como todo bom jornalista, ainda preciso reunir mais provas.
- Que nada, cara. Voc no precisa sair fuando por a pra entender as pessoas. - Jamal ergueu a mquina e procurou o foco. - Est tudo na superfcie. Voc s precisa 
saber onde olhar.

 9- Lyssa

No sbado  noite, recebi minhas amigas em casa para nossa costumeira "maratona de beleza".
- Ento, eu falei pro Stephen que ele tinha s um ms pra alugar a limusine - Heather contava, lixando as unhas. - Ele que no pense que vai me levar  festa  fantasia 
naquele carro horroroso! Toda vez que subo no monstrengo quase preciso de uma escada de bombeiro. J imaginou fazer isso de vestido longo e salto alto?
- Isso no  nada - Ruth respondeu pro reflexo de Heather no espelho, enquanto passava p no rosto. - Lembra daquela vez em que eu fui a um baile de formatura com 
o Ken Overby? Deve fazer uns dois anos. Eu estava com um vestido enorme que tinha vrias camadas de tule por baixo.
- Sei, eu me lembro. - Heather girou os olhos. - A Lyssa at tentou fazer voc mudar de idia.
Ruth fuzilou Heather com o olhar e continuou a histria.
- Como eu ia dizendo, o Ken tinha um carro esporte italiano minsculo. Quase no tinha espao pra pr as pernas ... Assim que eu sentei no banco, minha saia armou 
e veio parar no queixo. Eu passei a maior vergonha!
- E eu ento? - Betsy interveio, enquanto eu tranava seu cabelo. - Vocs se lembram de quando o Cliff me deu aquele ramalhete enorme pra pr no vestido e, bem na 
hora em que estvamos na pista de dana, comeou a sair inseto que no acabava mais de dentro dele? Eu fiquei coberta de bichinhos!
-  verdade! - ri, sem afrouxar a trana. - Ningum conseguia entender por que voc estava danando hip-hop com a msica da Celine Dion de fundo!
Todas ns camos na gargalhada.
- E voc, Lyssa? - Ruth perguntou quando paramos de rir.
- Agora  a sua vez.
Franzi a testa.
- Eu no tinha percebido que era um concurso, mas j que tocaram no assunto: ningum se lembra da festa do Dia dos Namorados no ano passado? Vocs se esqueceram 
que eu apareci com um vestido idntico ao da Wanda Snodgrass?
- Ah, Lyssa, isso no conta! - Heather reclamou. 
- No mesmo - Betsy concordou. - Na verdade, essa histria deveria ser contada pela Wanda, pois foi ela quem saiu feito um foguete da festa.
- Pode ser, mas quem ficou com a cara no cho fui eu - falei, dando de ombros.
- O que voc vai usar na festa  fantasia, Lyssa? - Ruth perguntou.
- Estou quase acabando o meu vestido. Querem ver?
- Claro! - as trs responderam ao mesmo tempo.
Eu estava super orgulhosa do meu trabalho, e queria muito mostr-lo. Prendi a trana de Betsy e fui at o guarda-roupa pegar o vestido. Ele tinha corte reto, e decote 
e barra bordados com contas. Mas o grande destaque era o tecido: um lindssimo pedao de veludo na cor cobre.
As meninas soltavam uma exclamao atrs da outra, enquanto examinavam minha obra.
- Lyssa,  magnfico! 
-Uau!
- Voc vai arrasar!
- Vocs gostaram mesmo? - perguntei. - Chegou uma hora em que eu fiquei com medo de acabar parecendo um enfeite gigante de chamin, ou algo do tipo.
- No! O vestido  perfeito. - Betsy estava encantada.
-  mesmo! O West no vai acreditar quando voc aparecer na frente dele - Heather acrescentou, fazendo coro. - Agora conte pra nos, Lys. Aonde e que o Sr. Perfeio 
vai levar voc esta noite?
Hesitei de olhos fixos nos rostos curiosos das minhas amigas.
Fazia dias que eu aguardava aquele momento com um certo receio.
- Ahn... Eu no vou sair com o West. Vou sair com o Dante. - ouve um breve momento de absoluto silncio, enquanto elas digeriam a noticia. Depois vieram os gritos 
de indignao.
- Est falando srio?
- No  possvel!
- Com aquele cara esquisito?
- Estou falando srio, sim - eu disse, com o tom mais normal do mundo.
- E quando foi que isso aconteceu? - Betsy indagou, com os olhos do tamanho de um CD. - Por que no contou nada pra ns?
- Eu queria contar pra vocs h algum tempo, juro - falei, muito sem graa. - Mas andei to ocupada com os ensaios... 
- Voc ia sair com o Dante Michaels - Heather resmungou baixinho, mais pra si mesma do que pra mim.
- Foi o que eu disse - retruquei, comeando a me cansar daquilo. - E saibam que ele  muito, mas muito legal mesmo. 
- Voc vai sair com o Dante Michaels. - Heather tornou a repetir.
- Vou! - respondi irritada. - Por que tanto espanto?
Heather abanou a cabea, em aturdimento total. 
- Voc vai sair com o Dante Michaels.
- Heather! - berrei. - Ser que d pra parar de ficar repetindo isso, por favor?
Betsy levantou-se em um salto e ergueu as mos pedindo silncio. '
- Eu acho que o que a Heather est tentando dizer sem muito sucesso,  que ficamos um pouco surpresas com a notcia.
- E que eu nunca imaginei que voc fosse sair com algum como ele - Heather explicou. - Algum to... diferente.
- Pois . Principalmente porque voc e o West pareciam formar o par perfeito - Ruth acrescentou. - O que aconteceu com ele?
Soltei um suspiro frustrado.
_ O Dante  dez vezes melhor que o West.  delicado comigo. E gosta de mim de verdade. O West s gosta de si mesmo!
_ Mas, Lyssa, pense um pouco. - Heather estava falando comigo como se eu tivesse quatro anos de idade. - Voc tem tanto glamour, tanto estilo, e o Dante... bom, 
ele at que  bonitinho. Pra falar a verdade, ficou muito melhor depois que cortou o cabelo de um jeito mais decente, mas voc precisa reconhecer que ele  meio... 
bom ... Meio esculachado. Vocs dois juntos  uma coisa muito estranha!
Uma parte de mim no conseguia acreditar que algum pudesse dizer aquelas coisas do Dante, o nico cara do planeta que tinha me tratado com respeito, a nica pessoa 
neste mundo que me achava inteligente. Quer dizer, s porque ele no era modelo e eu no era nenhuma grande intelectual no significava que no servssemos um pro 
outro, certo?
Outra parte de mim, contudo, no se surpreendeu com a reao delas. Detesto ter de admitir, mas, se no o conhecesse e uma das minhas amigas de repente decidisse 
sair com ele, eu poderia ter dito palavras muito parecidas. 
_ Olha s, eu acho que vocs esto sendo meio duras com ele. O Dante  maravilhoso. E no h nada de errado com ele que um novo guarda-roupa no consiga consertar. 
- Calei-me por alguns instantes, percebendo uma incerteza no meu tom de voz.
Depois, num acesso, peguei a escova de cabelo e atirei-a no cho.
_ Querem saber de uma coisa? No me aborream! - gritei, lutando para conter as lgrimas de raiva.
_ Olha s, meninas - Betsy comeou, calmamente -, o que ns temos a fazer agora  fechar a boca e cuidar da nossa vida. Os nossos namorados tambm no so perfeitos, 
vocs sabem disso. - Ela sentou do meu lado e encarou Heather e Ruth, como se estivesse tentando me proteger.
_ Desculpe, Lyssa - Ruth sussurrou cheia de remorso.
_ No ligue pro que eu disse, t? - Heather completou. - Eu no entendo de nada. Se no fosse por voc, eu seria um desastre total, igualzinha ao Dante.

Depois dessa conversa, ns nos arrumamos praticamente em silncio, j que elas fizeram questo de no discutir meu encontro com Dante.
Nesse meio-tempo, a voz de Heather ecoava dentro de mim.
Se no fosse por voc, eu seria um desastre total, igualzinha ao Dante.
Uma deciso cada vez mais firme foi tomando conta de mim. Eu sabia que poderia ajud-lo, Cabia a mim a tarefa de despertar a fagulha mgica que havia dentro dele. 
Ento, todos o veriam da maneira como eu o via.
Como sempre, eu estava atrasada. Depois que as meninas saram para encontrar seus respectivos namorados, restaram apenas quinze minutos at a campainha tocar.
- Voc est um arraso! - Dante comentou, logo ao entrar.
- Ah, mas eu no vou sair assim - falei, dando um puxo no moletom que estava usando. - Voc se importa de esperar no meu quarto, enquanto eu me visto? Pode jogar 
no computador.
Ele abanou a cabea, indicando que no.
- No me importo, no. Mas no se troque por minha causa. Eu continuo achando que voc est linda.
- Obrigada... voc tambm. 
Na verdade, as roupas dele no combinavam em nada, sem falar que o conjunto dava a impresso de desleixo. No havia como ignorar aquele rosto adorvel, nem como 
no notar o esforo que Dante devia ter feito pra conseguir se vestir direito. S que ele no tinha tido muito sucesso: estava vestindo uma camisa cinza-chumbo, 
enfiada meio torta dentro de uma cala cqui, com um cinto marrom e um Nike preto de corrida.
Eu sei que  horrvel o que vou dizer, mas era quase doloroso v-Ia vestido daquele jeito, assim como doa ver uma casa magnfica mal pintada ou um carro bacana 
coberto de lama. A beleza est l, s que ningum enxerga. Acontecia a mesma coisa com Dante. Ele poderia ofuscar o brilho das estrelas e me parecia uma pena desperdiar 
tanto potencial.
- Sabe de uma coisa? - ele me disse, olhando-me de frente.
- Eu acho que esta noite vai ser tima.
-Eu tambm.
Dante me deu um sorriso carinhoso e eu senti aquele fogo queimar de novo dentro de mim. Eu no me importava com a roupa dele; estava feliz em v-lo, Levei-o at 
o meu quarto e liguei o computador.
- Desculpe pela baguna - falei, afastando os batons e as latas de spray de cabelo. - Se quiser entrar na internet, fique  vontade. Prometo que no demoro.
- No se preocupe comigo. Eu s vou invadir o site do Pentgono, mais nada.
Sentando-se na minha escrivaninha, Dante me deu um sorriso maroto.
Peguei as roupas, as sandlias e o estojo de maquiagem, atravessei o hall, entrei no banheiro e fechei a porta. Durante alguns minutos, fiquei imvel na frente do 
espelho, franzindo a testa. De repente, fiquei um pouco nervosa. 
- Seja inteligente! - ordenei a mim mesma. - No deixe que ele perceba que voc no passa de uma modelo burralda. 
Pus o meu vestido vermelho curtinho e examinei com todo o cuidado a minha imagem no espelho. Era exatamente o look que eu estava procurando: prtico, mas sofisticado, 
extico, porm no em excesso. Retoquei o batom e o p, dei uma escovada no cabelo e voltei pro quarto.
- Seja inteligente - sussurrei baixinho enquanto  cruzava o hall. Tentei me lembrar de assuntos interessantes sobre os quais pudssemos conversar, mas no me ocorreu 
nada.
Parei na porta do quarto e respirei bem fundo. Aqui vamos ns.
- Estou pronta - anunciei, entrando no quarto.
- Uau! - Dante exclamou. S que ele no estava olhando pra mim, mas pra alguma coisa em cima da minha mesa. Que timo!
Algum jogo imbecil tinha arruinado a minha entrada triunfal.
Dante levantou e virou-se pra mim.
- So incrveis. Foi voc mesma que desenhou? - ele perguntou.
Ele estava segurando vrios dos meus croquis de moda. Eu me esqueci de que tinha largado tudo em cima da mesa, debaixo dos produtos pra cabelo.
- Foi sim - falei baixinho, mais nervosa que nunca.
- So muito bons! Voc copiou de alguma revista?
- No, so criaes minhas. - Sorri com humildade. - Acha mesmo que eles parecem assim to profissionais?
- Bom, eu no entendo muito bem do assunto, mas acho que sim.
- Obrigada. - Deu pra perceber a hesitao em minha voz.
Talvez ele estivesse apenas sendo gentil. Ou seria verdade que tinha achado os desenhos bons?
- E aquele estgio em design de moda de que voc falou outro dia? - ele perguntou, folheando meus modelos. - Sei que voc disse que no ia se candidatar, mas acho 
que no deveria desperdiar seu talento. .Talento? Ele me acha talentosa! Vindo de quem vinha, era o melhor elogio que eu j tinha recebido na vida. 
- Querer eu quero, mas... - A voz saiu embargada enquanto o crebro se perdia numa onda de sentimentos conflitantes.
-- Mas o qu? - Seus grandes olhos castanhos irradiavam ternura. Senti-me hipnotizada pela intensidade daquele olhar. - Se voc quer, Lyssa, ento tente.
A voz era suave, porm firme.
- No  to simples assim. Minha me ... a carreira de modelo ... - gaguejei, tentando pr alguma ordem nos pensamentos tumultuados. - No d pra jogar fora os ltimos 
anos da minha vida.
Dante me estendeu os desenhos e ficou segurando minhas mos nas dele.
- Voc no vai jogar nada fora. Voc vai realizar seus sonhos.
Vinte minutos depois, ele parou o fusquinha num estacionamento de terra batida de um lugar chamado Carroa da Vera. 
Quando cruzamos a divisa do municpio, imaginei que estivssemos indo a algum restaurante chiqurrimos no centro de Dallas, Mas aquele lugar no era chique - era 
uma espelunca.
A estrutura quadradona parecia ter bem uns cinqenta anos de idade. A parte de madeira j estava toda podre, e a pintura descascada. Debaixo da janela, havia um 
ar-condicionado do arco - da- velha, que  estava cai-no-cai. Na entrada brilhavam duas lmpadas antiinsetos arroxeadas.
Eu esperava que Dante virasse pra mim, dissesse "pegadinha!" e tornasse a ligar o carro. S que ele no fez nada disso. Saltou do carro, deu a volta e abriu a porta 
pra mim.
_ O que voc achou? - ele perguntou, indicando com um gesto a birosca caindo aos pedaos. - Legal, n?
Seus olhos pareciam cintilar de alegria, ou talvez fosse reflexo da lmpada antiinseto.
Ento era srio? Por que ele iria me levar a um lugar como aquele?
_ Bom, parece simplrio... quer dizer, simptico. 
_ Vamos entrar. - Agarrando meu brao, Dante me conduziu at a entrada. - Voc vai adorar os hambrgueres que eles fazem aqui! . '
Quando chegamos mais perto, reparei num cartaz pintado  a  mo, que dizia: "O Melhor Xbrguer do Mundo - No   Mentira!". De l de dentro, saa um cheiro estranho 
e eu comecei a me perguntar h quanto tempo a Vigilncia Sanitria no fazia uma visitinha ao lugar.
Ns no vamos jantar aqui, n, pensei com os meus botes, muito preocupada.
_ Ei, olha s quem chegou! O "Garoto Maravilha" - saudou um senhor de idade, assim que ns entramos. Ele estava numa das mesas de canto, jogando damas com outro 
senhor.
_ Ol, Sr. Gephardt - Dante retrucou. - Ol, Sr. Martinez.
_ Hola, Dante - disse o outro homem.
_ Quem est na frente hoje? - Dante perguntou.
O Sr. Gephardt enfiou o polegar no prprio peito.
_ Eu estou - falou todo orgulhoso.
_ S _ concordou o Sr. Martinez. - Mas voc sabe como , ele rouba sempre.
_ E quem  essa moa bonita? - O Sr. Gephardt sorriu e tocou de leve no chapu de cowboy.
_ Senhores, quero que conheam Lyssa Naylor. - Dante acenou na minha direo com um floreio rebuscado, como se ele fosse um apresentador de televiso recebendo um 
convidado famoso.
- Ol. Prazer em conhec-los - falei, apertando a mo de ambos.
- Igualmente - os dois retrucaram. O Sr. Gephardt me deu uma piscada.
- Ei, me avise se esse sujeito no tratar voc direito - disse com um sorriso enorme.
Dante desejou-lhes sorte no jogo e me levou at o balco da lanchonete. Sentou-se numa das banquetas de vinil e fez um gesto pra que eu o imitasse. Por um segundo, 
cheguei a pensar em cobrir o assento da banqueta com alguns guardanapos de papel, s pra garantir, mas depois achei melhor no fazer aquilo.
- Sujeitos simpticos - falei, me acomodando.
- Muito. Eles no saem daqui. Freqentam este lugar j faz muitos anos.
O que  um bom sinal pensei. Afinal, ambos parecem gozar de boa sade.
- Ora, ora, se no  o nosso Dante! Como tem passado meu querido?
Uma loira magricela sara da cozinha e se debruara no balco. Seu penteado era colossal, duro de spray; seu rosto estava coberto por grossas camadas de maquiagem; 
suas unhas, bem compridas, estavam pintadas de rosa. No entanto, fui obrigada a reconhecer que, pra uma mulher da idade dela (eu imaginava que ela devia ter uns 
cinqenta e poucos anos), ela estava em tima forma. Adorei seu sotaque, principalmente a maneira como ela pronunciou o nome de Dante, meio arrastado, como se tivesse
trs slabas: Da-an-te. 
- Oi, Vera - ele respondeu, tamborilando os dedos na frmica.
- Eu vou muito bem. E voc?
- Ah, velha e feia como sempre. - Depois ela me deu uma olhada, franzindo os olhos debaixo dos clios postios. - Vejo que voc nos trouxe uma nova freguesa. Ol, 
meu bem. Eu sou a Vera - ela disse, com um sorriso.
- Lyssa - respondi.
- Voc, sem dvida,  uma gracinha - ela disse, dando uma risadinha. - J estava mais do que na hora de esse menino largar o laptop e arranjar uma namorada.
Pelo canto do olho, vi Dante baixar a cabea, sem jeito. Tentei achar uma boa resposta pra situao.
_ Ahn ... eu no sou ... quer dizer, a gente  s ... Este  apenas nosso primeiro...
Vera sacudiu a cabea e riu.
- Olha s pra vocs. Esto mais nervosos que elefantes numa loja de cristais!
Dante e eu trocamos sorrisos tmidos. 
- E ento, o que vo querer comer? - Vera puxou uma caneta de algum lugar do penteado e tirou um bloquinho do bolso do avental. - Nosso especial de sbado  chili 
con carne. O Elroy acabou de fazer mais um tacho, no faz nem uma hora. 
Ai, ai, ai. Comida apimentada? Um cozinheiro chamado Elroy?
Meu estmago contorceu-se s de pensar.
- Eu quero o de sempre - Dante disse.
Dei uma olhada no cardpio pendurado do teto.
- Ahn... acho que vou querer... um sanduche de frango grelhado sem maionese.
A caneta parou no ar. Vera me olhou como quem espera mais alguma coisa e depois perguntou:
- S isso?
-S.
- Voc  o qu, meu bem? Algum tipo de passarinho?
Dante cochichou:
- Eu acho que voc deveria experimentar os hambrgueres. So muito bons, uma especialidade da casa.
Minha vontade era dizer que no tinha a menor condio de ingerir algo com aquele teor de gordura poucos dias antes de fotografar com a nova coleo de mais (sem 
falar no meu medo de que a cozinha de Vera fosse um criadouro de bactrias!). Mas bastou a viso daqueles olhos melanclicos, cor de chocolate, pra me fazer mudar 
de idia. Eu queria tanto que ele gostasse de mim... Alm do mais, j estava cansada de contar calorias o tempo todo!
- T bom. - Dei de ombros. - Ento me traz um hambrguer.
- Com maionese? - Vera arqueou a sobrancelha cuidadosamente desenhada a lpis.
- Sim. E batata frita. E uma Coca Light... No, espere... uma Coca de verdade! - Eu me sentia uma rebelde, uma traidora do mais alto grau. E estava amando cada segundo 
daquela revoluo.
-  pra j. - E Vera voltou pra cozinha.
- E a? - perguntei curiosa a Dante. - O que  esse seu lide sempre"?
- Um Xbrguer com mostarda, uma poro extra de picles, onion rings e uma Dr. Pepper.
- E ela lembra disso tudo? Voc deve ser freqentador assduo! 
Dante fez um gesto com os ombros.
- Eu venho uma vez por semana. Ou mais, quando estou prestes a entregar alguma matria. Tem algo neste lugar que me inspira. As pessoas so reais, o cho sempre 
precisa de uma boa limpeza, a comida engorda, ningum se incomoda com o que voc veste...
Resisti  vontade de comear a cantarolar o tema musical de Cheers, um seriado passado quase todo dentro de um bar.
- Mas como  que essas coisas inspiram voc?
- Eu no sei. S sei que no me deixam esquecer que o mundo ainda no  perfeito. Que ainda precisamos lutar por mudanas. Por acaso reparou nos calos nas mos do 
Sr. Martinez quando o cumprimentou?
Tentei me lembrar.
- . Reparei, sim.
- Ele passou a infncia toda indo de l pra c, sem moradia fixa, colhendo as safras da estao. Era um trabalhador migrante e ganhava uns poucos centavos por dia, 
mas isso ajudava a alimentar sua famlia. E voc reparou que o Sr. Gephardt anda todo curvado? 
Dante fez um gesto com a cabea por cima do ombro. Bem naquele momento, o velho homem atravessava a sala lentamente, na direo do jukebox, arrastando de leve a 
perna esquerda. 
- Foi ferido durante a Segunda Guerra Mundial - Dante explicou. - E a Vera perdeu um irmo na Guerra do Vietn. 
- Que horror! - falei sem pensar, pra depois me sentir uma  idiota pela ingenuidade do comentrio.
Olhei em volta, vi o papel de parede velho e todo manchado, a moblia gasta, as fisionomias apagadas das pessoas e tentei enxergar aquilo tudo atravs dos olhos 
de Dante. No era  toa que o lugar o inspirava. Tambm em mim provocava uma srie de sentimentos que eu raramente experimentava: piedade culpa indignao, admirao. 
De repente, me senti honrada por Dante ter me levado l, por ele ter achado que eu seria capaz de gostar do lugar. Ele me via mesmo como algum por detrs do rostinho 
bonito.
- Tm horas - ele continuou, passando o indicador em uma fenda no balco - em que eu preciso sair um pouco daquela perfeio toda que nos cerca em Parkridge. Faz 
bem pra minha alma.
Eu nunca havia sentido tamanho respeito por algum. Ao v-la ali, todo encurvado sobre o balco, preocupado em ter idias pra mudar o mundo, pude imagin-lo diante 
do teclado do computador, escrevendo uma de suas colunas filosficas cheias de contedo. Senti um forte impulso de beij-lo.
Bem naquela hora, ele ergueu a cabea e olhou pra mim. De incio levei um susto, me perguntando se ele havia pressentido a minha inteno. Dante piscou e estremeceu 
de leve, como se estivesse saindo de um transe.
- Desculpe - disse ele, com um sorriso humilde. - Desconfio que minha tendncia  entrar em "modo de pregao" neste lugar.
- Tudo bem. Eu no me importo. Voc... - Minha voz foi sumindo aos poucos. Eu queria dizer algo brilhante, algo comovente e dramtico, mas no sabia o qu. - Voc 
me inspira.
O sorriso de Dante se alargou e o brilho maroto do seu olhar apareceu novamente.
- Vem c - ele falou, pegando minha mo e me tirando da banqueta. - Vamos danar.
E me puxou pra uma rea aberta do salo.
- SI. Gephardt? - O velho homem continuava junto do jukebox, examinando as opes. - Importa-se de colocar algo bem lento e romntico?
- Deixa comigo! - respondeu ele, com uma risadinha. - Sei direitinho o que voc quer garoto.
Segundos depois, algumas notas de piano saram da mquina iluminada a neon, e ]ohnny Mathis comeou a cantar "Chances Are". Reconheci na hora. Era uma das msicas 
prediletas de papai.
Dante me pegou pela cintura e encostou seu rosto no meu.
Pra minha surpresa, ele danava como gente grande: me puxou pra dentro dos seus braos, movimentando o corpo pra frente e pra trs num ritmo suave, me fazendo girar 
por todo o salo. Era estranho que algum que carregava o fardo do mundo nos ombros tivesse tanta leveza.
Era como se eu estivesse numa terra encantada. Nada, nem mesmo um monte de baratas, teria conseguido estragar aquela deliciosa sensao de desmaio que me invadiu.
- Opa! - Bem na hora em que Dante estava me girando, trancei os ps e a sala virou de lado.
Ele me pegou antes que eu me esparramasse no cho empoeirado. 
- Puxa, desculpe! - Depois de me ajudar a ficar de p, ele apertou meus braos e ombros, pra ver se eu no tinha quebrado. Uma expresso de surpresa cobriu seu rosto. 
- Acho que acertei...
Senti o corao dar um salto de felicidade. Parei de respirar um instante. Nunca ningum tinha me dito algo assim to doce! 
- Eu tambm ... eu tambm acho que acertei.
Os olhos dele se arregalaram e ele gaguejou.
- N-no, eu ia dizer que acho que sem querer acertei o seu joelho.
Ai, minha nossa. Menina, voc  to idiota. Puxa vida! Onde esto os fenmenos naturais na hora em que mais precisamos deles?
- Mas - ele acrescentou baixinho - eu tambm acertei a parceira.
De repente, l estava eu de novo nos braos dele. Dante sorriu com doura e inclinou a cabea, me prendendo com o olhar, at que meus lbios se ergueram pra encontrar 
os dele.
Em seguida, foi como se um monte de borboletas comeasse a voar dentro do meu peito.


10- Dante

Eu tinha dito a mim mesmo que jamais, em tempo algum, poria os ps ali. Aquilo era a concretizao de tudo o que eu mais odiava. Entretanto, em plena tarde de sbado, 
peguei-me vagando pela meca do consumo, pelo Valhala dos cartes Visa, pela capital do capital: o shopping center Gallery.
O meu corpo todo repelia o cheiro de cobia que pairava no ar, os inmeros tipos de badulaques inteis espalhados por toda parte, a horrenda verso de uma msica 
dos Rolling Stones que saa de um sistema de som do elevador, o ar frio do ar-condicionado e os consumidores yuppies que me mediam de alto a baixo.
Imagino que eu devia estar um pouco fora do padro dominante.
Meu jeans rasgado e minha tnica africana feita  mo no combinavam muito bem com as roupas expostas nas vitrines da Saks e da Marshall Field. Mesmo assim, fui 
em frente, como um soldado perdido na selva.
O que os homens no fazem por amor...
Lyssa havia me pedido para encontr-la numa determinada loja onde estava sendo realizado um desfile de moda. Claro que eu disse que sim. Eu teria cruzado um oceano 
a nado pra v-la de novo. Pela primeira vez na vida, eu me sentia irremediavelmente preso a algum em vez de a uma causa - e a sensao era muito mais forte do que 
de hbito.
O encontro da semana anterior superara todas as minhas expectativas e sonhos. Eu havia me preocupado tanto com a possibilidade de a noite fracassar... Imaginei que, 
assim que Lyssa tivesse urna dose considervel do verdadeiro Dante, sempre matraqueando sobre uma causa ou outra, jamais se deixando 
levar pelo "sonho teen" da maioria, ela perderia de vez o inexplicvel interesse por mim. Ao mesmo tempo, sabia que se tentasse dar uma de gostoso, fingindo estar 
por dentro das futilidades, sairamos
ambos arrasados. Ento resolvi agir como sempre ajo.
Curiosamente, tudo correu s mil maravilhas!
Mal podia acreditar na pessoa doce que ela era, at mesmo nas horas em que no conseguia resistir e subia num palanque para defender isso ou aquilo. Ela me olhava 
com aqueles imensos olhos castanhos, cheios de preocupao, e dava pra sacar que estava de fato me escutando. Em geral, meus papos com as pessoas terminavam sempre 
do mesmo jeito: ou eu descobria que elas estavam cochilando e funcionando no piloto automtico ou que estavam fingindo interesse. Com Lyssa era diferente.
Quando estvamos danando, que beijo! Foi suave, mas me pegou em cheio. Parecia um choque em alta voltagem. 
S de lembrar, acelerei o passo. Passei na frente da Tiffany, subi um lance de escada e entrei numa grande e elegante loja de departamentos chamada Dolans. Nos fundos, 
ao longo de um corredor central, tinha sido montada uma passarela provisria, rodeada de cadeiras. O lugar j estava lotado, por isso tive de ficar em p entre as 
araras de lingerie.
Um minuto depois, comeou o desfile. Uma ssia muito sorridente de Melanie Griffith apareceu para nos dar as boas-vindas. Depois, foi pro canto da passarela e comeou 
a descrever as roupas, enquanto as modelos entravam, quatro por vez, e se revezavam.
A primeira parte do desfile foi dedicada a roupas pra executivas, e eu fiquei curioso em saber que tipos de carreira poderiam exigir o uso daqueles trajes. As quatro 
modelos vestiam tailleur, de saia curtssima, nada prtica pra se trabalhar numa escrivaninha. - Vocs j devem ter ouvido a expresso lia primavera avana e o outono 
recua" - o clone de Melanie dizia. - Pois bem, a roupa que Lyssa veste nos remete s linhas clssicas e aos tecidos opulentos do incio dos anos 60.
Levei um minuto pra reconhec-la. Lyssa vinha andando pela longa passarela com um tailleur rosa - claro, uma estola branca jogada nos ombros e um daqueles chapus 
pillbox que Jackie Kennedy usava. Parecia uns cinco anos mais velha. Seu cabelo estava todo puxado pra trs e sua expresso era sria.
Observei quando ela girou de um lado pro outro, atirou a ponta mais comprida da estola por cima do ombro e colocou as mos nos quadris, como se estivesse brava com 
todo mundo.
Depois deu um giro completo sobre os saltos de sete centmetros e meio, e marchou passarela afora. E eu que achava que tinha um andar meio arrogante! Meu jeito no 
era nada comparado com a altivez com que ela caminhava. Como eu disse, Lyssa parecia uma pessoa totalmente diferente.
Na segunda parte do desfile, ela apareceu vestindo um casaco longo, uva, com o batom combinando. As outras trs modelos usavam palets com gola de pele. Precisei 
me conter pra no tirar o microfone das mos da ssia de Melanie Griffith e fazer um discurso em prol dos direitos dos animais.
Lyssa marchou pela passarela, deu uns dois giros e sumiu nos bastidores. Cinco minutos mais tarde, surgiu de novo, dessa vez vestindo cala comprida de boca larga 
verde-clara e uma camiseta de mangas compridas brilhante. Seu cabelo estava todo preso em rabinhos de cavalo retorcidos pela cabea, e todo aquele batom brilhante 
sumira da boca. Era difcil acreditar na rapidez com que ela se transformava.
- Este ano nossa coleo esportiva est mais leve e sensual - continuou a narradora. - Reparem nos tecidos e nas linhas mais fluidas.
Coleo esportiva? E eu que achava que roupa esporte era algo que servia para acampar, jogar golfe ou rolar na terra! Aqueles trajes pareciam chiques demais para 
qualquer atividade atltica.
Eu mal podia acreditar em mim mesmo. Antes de conhecer Lyssa, comparecer a um desfile de moda estaria logo abaixo de cirurgia experimental do crebro em minha lista 
de coisas a fazer na vida. No entanto, me peguei acompanhando atentamente o evento. Tudo bem, tudo bem. Admito que ver mulheres maravilhosas desfilando no chegava 
a ferir os meus olhos; sou radical, no anormal.
Tambm me, dei conta de como era difcil ser modelo. Quando Lyssa sumia por trs de uma das divisrias, eu cronometrava o  tempo que levava pra ela surgir de novo. 
Em geral, ela conseguia 
trocar de roupa, penteado, maquiagem e sapatos em questo de minutos, sem nunca parecer atrapalhada ou afobada. Era to graciosa, to bonita que eu no conseguiria 
parar de olhar pra ela nem que, por algum motivo bizarro, eu quisesse. 
- E agora, senhoras e senhores - a narradora baixou a voz, dando uma nfase dramtica ao desfile -, para encerrarmos a noite, apresentamos uma prvia de nossa coleo 
de inverno de trajes a rigor.
As luzes se apagaram e soaram os primeiros acordes de uma msica de Celine Dion. Quando me dei conta, l estava Lyssa, parada sob a luz dos holofotes, usando um 
vestido longo, todo bordado de contas. Os flashes estouraram como fogos de artifcio. 
Algumas pessoas aplaudiram e assobiaram. Eu fiquei petrificado.
Ela estava sensacional! Enquanto meus olhos seguiam cada passo seu, meu corao no parava de acelerar, como se eu estivesse prestes a morrer. De incio - tenho 
um pouco de vergonha de admitir -, senti um orgulho enorme s de pensar que aquela belssima criatura ali em cima da passarela ia sair comigo. De repente, fui inundado 
por incertezas e dvidas, e me pus a perguntar o que levaria algum como ela a querer sair com algum como eu. Por fim, me senti apenas frustrado. Eu no tinha nada 
a ver com aquele mundo - isso era bvio. Eu queria muito que as coisas dessem certo entre mim e Lyssa, mas no sabia ao certo se algum dia conseguiria me encaixar 
no mundo dela. 
O desfile terminou e, enquanto eu andava pelo local,  espera de Lyssa, percebi que algum estava me vigiando. Olhei por cima do ombro, como quem no quer nada, 
e vi o chato com quem Lyssa tinha ido  festa da escola. 
O que ele veio fazer aqui? Ser que Lyssa o convidou? Por que ele no para de me olhar?
- Dante! - algum chamou. Virei-me e vi Lyssa correndo pra mim. Tinha voltado a ser a Lyssa de sempre: jeans, blusa de manga curta e um sorriso enorme. - Voc veio!
- Claro que eu vim - falei, devolvendo o sorriso.
Lyssa ps no cho uma grande sacola de compras e me estendeu os braos. Eu a abracei, lhe dei um beijo suave e, de vis, vi a cara do panaca cair. O show j terminou 
pateta! Senti vontade de gritar.
Nossos lbios se separaram e Lyssa tornou a sorrir pra mim.
- E a, o que voc achou do desfile?
Antes que eu pudesse responder, fomos interrompidos.
- Querida! - Uma senhora de meia-idade, usando um vestido vermelho-sangue, correu pra ns, arrancando Lyssa dos meus braos. - Voc estava uma verdadeira deusa l 
em cima! Uma verdadeira deusa! Esto todos prevendo uma temporada excelente pra loja, e tudo graas s minhas meninas!
- Obrigada, Sra. Turner. - Lyssa agradeceu, com um sorriso acanhado. Depois virou-se para mim:
- Dante, esta  a Sra. Turner, chefe da nossa agncia. Sra. Turner, gostaria de lhe apresentar o Dante.
Ela franziu a testa. - Ah... Voc est me trazendo um Novo recruta, Lyssa? Ou ele trabalha pra concorrncia? 
Pisquei.
-Quem? Eu?
- Ahn... vejamos - resmungou ela, me olhando de cima a baixo. - A camisa,  claro, ter de ir pro lixo. Mas esses olhos! 
Esses olhos podem deixar voc rico.
- Mas eu no sou modelo - respondi, mais que depressa.
- O Dante vai ser escritor - Lyssa interveio. - Ele  timo.
- Um escritor?  mesmo? - A Sra. Turner balanou a cabea, num gesto de aprovao. - Vocs sabem que outro dia eu conversava com o Sr. Lowell, o chefe da agncia 
de publicidade A&D Advertising, e ele me disse que estavam procurando alguns estagirios pra contratar.  uma firma de muito prestgio. Muito prestgio. Quer que 
eu lhe passe o telefone deles?
- A A&D Advertising! - Lyssa exclamou. - Dante, eles so de primeira linha!
Sorri educadamente e balancei a cabea, em sinal de recusa.
- Parece uma oportunidade excelente, mas no faz meu gnero.
De qualquer modo, muito obrigado.
- No tem de qu - respondeu ela. Depois avistou algum mais atrs de mim e comeou a sacudir o brao. - Olha s quem est a. O West. Oh, West! West, querido! Venha 
c.
Virei-me e vi o idiota todo cheio de panca caminhando na nossa direo. West? Que raio de nome era aquele?
- O que voc veio fazer aqui, West? - perguntou a sra. Turner, quando ele se uniu ao grupo. - O desfile da coleo masculina  amanh.
-  que eu queria dar uma passada hoje e verificar a ... concorrncia - ele respondeu, me olhando no olho.  claro que era uma indireta pra mim, mas eu no estava 
entendendo bem qual.
S sabia que minha vontade era arrebentar aquela cara arrogante e aqueles dentes brilhantes um por um.
- Bom, j que voc est aqui, tem umas coisas que precisamos discutir. - A sra. Turner pegou o brao de West e puxou-o para um canto. - At logo, ento, Lyssa. Muito 
prazer em conhec-lo, Dante.
- , at logo, Lyssa - West fez coro. Depois apontou para mim. - Muito bacana essa sua camisa, cara.
Como Lyssa estava com sede, fomos para o trreo comprar refrigerantes. Ns nos sentamos num banco perto de uma fonte e apoiamos nossos corpos um no outro, formando 
nosso reino particular.
- Sabe que eu acho incrvel o que voc faz na passarela? - falei com doura, concentrando-me em seus olhos luminosos. - Fiquei realmente impressionado.
- Obrigada - ela respondeu, erguendo um ombro com timidez.
- Falo srio. Voc  profissional mesmo. Ontem o Jamal revelou  uma parte das fotos que tirou da gente e qualquer um v a diferena na hora. Todas as suas saram 
fantsticas, totalmente naturais. J as minhas ficaram um horror.
Ela bateu de leve no meu brao.
- Pra com isso! Aposto como voc ficou timo. Quando vou poder ver?
- Logo, logo. Provavelmente ele vai demorar o resto do semestre pra conseguir revelar todos aqueles filmes, mas eu vou entregando as fotos pra voc  medida que 
forem ficando prontas.
Quer dizer, aquelas que eu aprovar, claro.
Ela me bateu de novo, s que dessa vez deixou a mo perto da minha. Mais que depressa, apropriei-me dela. 
_ Bom, fico contente que voc no tenha achado tudo muito chato hoje.
_ Est brincando? - exclamei. - Olhar pra voc durante uma hora nunca  chato. Eu s tenho uma queixa.
Lyssa endireitou o corpo e retirou a mo que estava presa na minha.
_ E qual ? - perguntou, com uma expresso preocupada no rosto.
_ As roupas. No sou nenhum especialista no assunto, mas achei seus modelos muito melhores.
-  mesmo? - O rosto dela se iluminou.
_ . Quer dizer, aquelas roupas at que eram legais, mas eu achei que faltou um pouco, bom ... faltou um tchan. Suas roupas tm mais cor, mais personalidade.
- Voc acha mesmo?
_ Nem se comparam. Eu me lembro de uma tnica que tinha um desenho super legal na frente. Parecia alguma coisa da Jamaica ou da Guatemala. Era um desenho to... 
energtico.
_ Puxa vida! Voc at parece um crtico de moda falando.
_ Lyssa inclinou a cabea na minha direo. - Sabe de uma coisa: acho que deveria reconsiderar aquele estgio em publicidade. Voc seria incrvel.
_ T fora! - Sacudi a cabea, rindo. - Como se algum fosse confiar na minha opinio pra coisas assim ...
Lyssa debruou-se pra frente, com uma expresso suave mas firme no rosto.
_ Eu confiaria - ela sussurrou. - Eu falei srio quando disse que voc me inspirava. Voc me fez ver muitas coisas de uma perspectiva diferente, inclusive eu mesma. 
- Depois olhou pra fonte e respirou fundo. - E sabe o que mais? Andei pensando... e talvez devesse incluir meus desenhos no portflio.
_ Claro que sim! Manda ver, Lyssa! Mostre ao mundo do que voc  capaz!
Lyssa abriu um sorriso enorme. Ela parecia to linda, to feliz. Num gesto instintivo, estendi a mo e lhe fiz um carinho no  rosto, depois me inclinei pra lhe dar 
um beijo. Os lbios dela estavam gelados por causa do refrigerante, mas o que me fez estremecer foi a onda de emoes que me invadiu. Depois de um
tempo, ns nos encostamos no banco, ainda com os bracos entrelaados, pra escutar a melodia da gua na fonte. >
- Vai se candidatar quele estgio?
Seu rosto entristeceu.
- Ainda no sei.  muito provvel que eu no tenha a menor chance. E, mesmo que eu consiga, tenho vrios compromissos agendados como modelo. No posso abandonar 
todo mundo.
- Pra mim, Lys - eu falei, pondo minha mo sobre a dela -, se essas pessoas se importam de fato com voc, vo querer que faa aquilo que a deixar feliz.
Ela suspirou e encostou a cabea no meu ombro.
- Por que ser que voc sempre sabe o que dizer? Voc tem um jeitinho todo especial de me deixar em paz comigo mesma.
O comentrio dela me deixou ao mesmo tempo feliz e confuso.
Como  que algum como ela poderia precisar de uma massagem no ego?
Antes que eu pudesse pensar sobre o assunto, Lyssa endireitou o corpo e disse:
- Ah! J ia me esquecendo! Eu comprei um presente pra voc. - E tirou da sacola de compras uma caixa retangular e achatada. - Olha aqui - ela disse me dando o pacote. 
-  uma coisinha de nada. Eu tenho desconto em todas as lojas do shopping. 
Abri a caixa e tirei dela um cardig muito "certinho", do tipo usado por alguns professores, s que parecendo ter custado bem mais caro.
- Ahn ... puxa. Obrigado. Mas voc no devia ter feito isso.
- Me deu vontade - ela disse, emocionada. - Voc me ajudou tanto nesse trabalho sobre orientao vocacional. Alm disso, assim que eu vi o cardig, pensei em voc.
No entendi como aquilo podia ter ocorrido. Havia duas excelentes razes para eu nunca ter tido uma malha como aquela em toda a minha vida. Para comeo de conversa, 
eu no possua "meios" pra comprar uma coisa to cara. Em segundo lugar, no fazia o meu tipo de jeito nenhum. Entretanto, vendo a expresso de felicidade no rosto 
de Lyssa, eu sabia que no poderia lhe dizer isso.
_  super legal, Lys. Eu... eu no tenho como lhe dizer o quanto isso significa pra mim.
_ Estou to contente que voc tenha gostado! Sei que vai ficar brbaro em voc. Essa cor cinza-chumbo, que est super na moda agora. No vai experimentar?
Rezei para que no servisse, mas, assim que coloquei o cardig por cima da minha tnica, deu pra ver que era do tamanho exato. Depois, rezei pra que ela reparasse 
no meu ar de imbecil dentro daquilo.
_ Uau! - Lyssa estava encantada. - Ficou perfeito! Voc no acha? - Seus olhos reluziam de afeto. Senti minha enorme relutncia virar poeira.
_ Acho, claro - menti. Com todo o cuidado, tirei a malha e coloquei-a de volta na caixa. Depois rezei pra que o frio no atingisse a regio de Dallas por muitos 
e muitos anos.


11- Lyssa 

Suspirei e larguei o livro em cima do sof, em dvida quanto ao significado de "um sonho preterido". O poema que eu estava lendo repetia a frase algumas vezes. Amei 
a sonoridade das palavras, mas no tinha certeza de estar compreendendo o sentido da poesia.
Eu tinha comprado o livro no sbado, enquanto passeava de mos dadas com Dante no shopping. Ele havia me levado a uma imensa livraria e me arrastado de uma seo 
a outra, soltando exclamaes de prazer e espanto diante de publicaes com ar importante, como se fossem jias preciosas. Era quase do mesmo
jeito como eu perdia a cabea numa fbrica de tecidos.
Foi to bonitinho v-lo feito um menino pequeno, todo animado, correndo da seo de biografia pra de poltica, e de l pra de poesia. Minha maior vontade era conversar 
sobre tudo o que era mais importante para ele, mas no movi um msculo e fiquei l feito uma tonta, escutando com a maior ateno enquanto ele
falava sobre gente como Cesar Chavez, Stephen Biko, Ralph Bunche e Thurgood Marshall.
Numa certa altura, ele mostrou uma coletnea das obras de Langston Hughes e me disse que era seu poeta predileto. Ento tirei o volume das mos dele, fui at o caixa 
e paguei. Falei que havia acabado de ler uma coisa (no contei que essa "coisa" era o ltimo nmero da Glamour) e que estava procurando um bom livro para ler nas 
horas vagas.
Alm de mostrar a ele que eu tambm podia ser uma intelectual, minha esperana era que, lendo os mesmos poemas, ficasse mais fcil entender de que maneira trabalhava 
aquela sua mente brilhante.
- Minha flor, ser que podemos conversar um instante?- mame perguntou, caminhando na minha direo. Estava de braos cruzados e cara feia.
- O que foi?
- Eu fui at o banheiro do hall pra ver se achava um pouco de algodo e reparei numa poro de produtos na lixeira. Uma parte ainda nem acabou, e a maquiagem tambm 
no est vencida. O que houve?
- Mas, mame, so todos produtos Jinesse. Eu no posso mais usar nada daquilo.
- E por que no?
- Porque o Dante falou que eles fazem testes em animais.
Mame me olhou como se de repente eu tivesse criado presas e garras.
- Meu bem, voc acabou de jogar fora produtos em excelente estado. Por que desperdiar dinheiro dessa forma?
- Porque no quero apoiar uma empresa que faz uma coisa dessas. Alm do mais, os produtos eram meus e eu comprei com o meu dinheiro, ganho com o meu trabalho. Ento 
posso fazer aquilo que eu quiser com eles, certo?
Nossa! Minhas palavras pegaram at a mim mesma de surpresa. Eu jamais tinha desafiado minha me daquela maneira.
Mame soltou um suspiro e sentou-se na poltrona ao lado.
- Lyssa, ultimamente eu ando meio preocupada com voc - ela disse, numa voz calma e controlada. - Desde que comeou a sair com esse rapaz, o Dante, voc mudou muito. 
Passa o tempo todo lendo, fica acordada at tarde pra assistir a noticirios como Nightline ou Frontline.
E no fao tudo do jeito como voc quer que eu faa, pensei irada.
- E da? Estou aprendendo um monte de coisas importantes. O que tem de errado nisso? - Eu sabia que meu tom estava um tanto petulante, mas me sentia bem em estar 
defendendo minhas opinies.
- O que estou tentando lhe dizer  que no gosto da maneira como esse rapaz parece dominar voc. Todas essas mudanas to repentinas me assustam. - Mame se inclinou 
pra frente e me olhou com um ar solene. - Meu bem, talvez fosse melhor voc no passar tanto tempo com o Dante.
Se eu j estava brava antes, dali em diante passei a soltar fogo pelas ventas. Era tpico da minha me tentar controlar todo e qualquer aspecto da minha vida.
- Voc s no gosta dele porque o Dante  diferente, porque ele no se veste direito nem tem um monte de dinheiro. Voc acha que ele no  bom o suficiente!
- No. Isso no  verdade. - Mame se levantou e foi at o sof, onde tentou pr a mo em meu ombro. Eu evitei o contato.
- S acho que voc devia ir um pouco mais devagar. No quero v-Ia magoada, nem quero que ponha a perder tudo aquilo pelo que lutou por causa de um sujeito qualquer.
O Dante no  um sujeito qualquer, tive vontade de dizer. Ele  a melhor coisa que me aconteceu em muito tempo! Mas estava to paralisada de raiva que no conseguia 
abrir a minha boca. Tudo o que consegui fazer foi ficar ali sentada, trincando os dentes, enquanto anos de ressentimentos reprimidos vinham  tona.
Ela no se importa comigo, eu repetia em silncio, furiosa. Pra ela, tanto faz que eu esteja me sentindo feliz. Ela s se preocupa com a minha carreira, mais nada.
- Bem, espero que pelo menos voc pense um pouco sobre o que acabei de dizer - falou mame, virando-se e saindo da sala. Imagino que ela tenha percebido que no 
adiantaria mais ficar por ali, j que eu havia me transformado numa pedra.
Depois que ela saiu da sala, dei uma olhada no monte de fotos penduradas atrs do bar. Lyssa posando aos treze anos. Lyssa posando aos quinze anos. Lyssa posando... 
Lyssa posando. Era s o que importava pra ela.
Sem pensar, atirei o livro de poesias sobre as fotos. Uma delas, em que eu estava de vestido branco sentada num balano, amorteceu o impacto. O vidro rachou bem 
no meio, a moldura balanou violentamente por alguns segundos e despencou no cho num estrondo.
Mais tarde, naquele mesmo dia, fui at a casa de Dante assistir a um vdeo. Eu nunca tinha entrado no apartamento dele, nem sido apresentada a seus pais, por isso 
levei uma eternidade pra achar a roupa certa. No fim, resolvi pr uma cala capri preta e uma blusa azul-clara justinha. Uma roupa clssica, porm graciosa.
Enquanto passava com o carro por um monte de ruas desconhecidas, ia relembrando a discusso com mame.
Mesmo mame estando totalmente enganada a respeito de Dante, ela havia acertado numa coisa: eu estava diferente. Eu sentia que estava.
Depois que papai saiu de casa, eu passei a sentir um medo louco de irritar as pessoas. No suportava a idia de que algum pudesse ter uma opinio negativa sobre 
mim. Mas nos ltimos tempos, eu vinha me sentindo capaz de enfrentar as pessoas, tinha defendido Dante do ataque das meninas e, por fim, da minha prpria me. Graas 
a Dante e  sua confiana em mim, eu me tornara mais forte, mais segura de mim.
Ento, lembrei que minhas amigas diziam que, depois das sesses de maquiagem dos sbados, sempre ficavam mais confiantes. Bom, era isso que Dante estava fazendo 
por mim. E eu tinha decidido fazer o mesmo por ele.
De vez em quando ele ficava muito quieto, e eu achava que, se conseguisse ajud-lo a melhorar sua aparncia, mudaria o modo de ele enxergar as coisas. Se o mundo 
o visse como eu, talvez Dante passasse a ver tudo de um novo prisma. Talvez se sentisse mais feliz.
Eu precisava ajud-lo. Ele merecia isso, depois de tudo o que havia feito por mim. S mais alguns empurres na direo correta e Dante seria um outro homem.
_ Ser que estou no lugar certo? - estava me perguntando na hora em que vi a placa indicando o condomnio Argosy.
Segui pela entrada principal e vi dezenas de apartamentos amontoados uns sobre os outros. Mal dava pra acreditar. Eu tinha uma casinha de bonecas, a Casa de Sonhos 
da Barbie, que era maior do que aquelas moradias. As construes no eram mambembes como a Carroa da Vera, mas, pra ser sincera, eu no
entendia como  que algum conseguia viver de modo confortvel num espao to pequeno. De repente, me senti culpada por ter tanto enquanto Dante tinha to pouco.
o apartamento dos Michaels ficava no segundo andar do primeiro prdio. Havia um tapetinho florido de boas-vindas na entrada e vrias plantas muito bem cuidadas numa 
sacada ao lado. Passei a mo no cabelo e bati na porta.
A porta se abriu e vi um homem alto, de barba, vestindo cala esporte e camisa bordada, que sorria pra mim.
- Ol. Voc deve ser a Lyssa. Por favor, entre.
Ultrapassei a porta e j estava na sala deles. O lugar era minsculo, mas aconchegante. Havia duas poltronas largas, um sof muito confortvel coberto por uma manta 
bem antiga, trabalhos em batik pendurados nas paredes, um monte de mscaras africanas e livros por toda parte - em prateleiras, sobre as mesas e at
no cho. A impresso era de que eles moravam dentro de uma biblioteca.
- Muito prazer. Sou Lawrence, pai do Dante - ele disse, apertando a minha mo. - E esta  a minha mulher, Helene. - Com um gesto, mostrou uma mulher alta, graciosa, 
saindo da rea da cozinha. Ela usava um vestido de algodo longo e largo, com estampa em ziguezague, e muitas bijuterias de aparncia extica.
Enquanto ela vinha na minha direo, com a mo estendida, reparei que no andar dela havia o mesmo gingado orgulhoso que caracterizava o andar de Dante.
- Nossa, ouvimos falar tanto de voc! - a me dele me disse, apertando minha mo, enquanto os braceletes tilintavam em seu brao. - Que bom poder finalmente conhec-la!
- Igualmente - respondi, balanando a cabea com fora demais. Bem que eu gostaria de saber o que Dante tinha dito a meu respeito.
- Por favor, fique  vontade - ela disse.
- Obrigada. - Acomodei-me ento na ponta do sof, bem ao lado de uma pilha de livros de arte.
Bem nesse momento, Dante apareceu na porta, do outro lado da sala. Estava de jeans e com aquela camiseta verde-clara da qual eu tinha gostado tanto. Seu rosto bonito 
brilhou sob a luz da luminria, como se ele tivesse acabado de se barbear.
- Oi, Lyssa - ele disse, com uma certa timidez.
_ Dante nos contou a boa notcia hoje - Lawrence falou, dando um imenso sorriso pro filho.
_ Pai! - Dante gemeu. - A Lyssa ainda no sabe. Era pra ser uma surpresa.
_ Que boa notcia? - perguntei, olhando para ambos.
Dante baixou os olhos e mexeu um pouco os ps, nervoso.
_ Eu... Ahn... eu recebi um telegrama da Folha da Manh de Dallas hoje. Eles querem me entrevistar na semana que vem.
_ Mas que maravilha! - Eu estava eltrica. - Eu sabia que ia dar certo!
_ Estamos to orgulhosos de voc, meu querido! - a me exclamou, correndo pra dar um abrao no filho.
_ Ah, me, fala srio! - ele disse, com o rosto iluminado por um sorriso modesto. .
_ Dante nos contou que voc o incentivou muito - o pai cochichou pra mim. - Gostaria de lhe agradecer por isso.
_ O prazer foi todo meu. Ele merece. Tem muito talento.
O pai sorriu e balanou a cabea, concordando.
- Ns tambm achamos.
_ Lawrence, agora precisamos ir mesmo - disse a me de Dante, checando as horas. Depois, me lanou um olhar de desculpas.
- Desculpe no podermos ficar pra conversar um pouco mais, temos de dar aulas agora  noite.
- Tudo bem. Eu entendo.
_ Divirtam-se! - ela disse, dando um beijo no rosto de Dante.
Ambos se despediram, lamentaram mais uma vez terem de sair, me convidaram a aparecer mais vezes e, por fim, se foram:
_ Puxa, ainda bem - disse Dante, com um enorme suspiro, assim que o rudo dos passos dos pais sumiu no corredor. - Desculpe o jeito deles.
_ Desculpar o qu? Eu achei os dois super legais. Eu daria qualquer coisa pra ter pais como eles. Eles parecem ser to tranqilos, apiam voc o tempo todo... Bem 
diferente do jeito controlador da minha me.
Dante deu de ombros.
_ , imagino que seja. Mas eles tm o pssimo hbito de demonstrar afeto demais.
- No h nada de errado nisso. - Sorri com um ar maroto e dei um tapinha na almofada a meu lado. - Eu tambm bem que estou precisando de um pouco.
Dante veio at onde eu estava e sentou-se do meu lado, me envolvendo em seus braos.
-  to bom ver voc - ele sussurrou, antes de me beijar com ternura.
De repente, a porta abriu e o pai de Dante entrou feito uma bala. Dante e eu nos separamos em um salto, como se uma bomba tivesse sido detonada entre ns.
- Esqueci a pasta - o pai explicou, pondo a mo na frente do rosto. - Eu no vi nada. Podem voltar a fazer o que eu no vi vocs fazendo. - Depois pegou uma pasta 
de couro, virou-se e saiu correndo.
Dante e eu nos entreolhamos e camos na risada.
- Bom ta um bom jeito de acabar com o clima. - E sacudiu a cabea. - Que tal se a gente fizesse pipoca?
Enquanto Dante colocava a pipoca no microondas e pegava refrigerantes pra ns, fui ver a coleo de vdeos que havia numa prateleira perto da televiso.
- Escolha o que voc quiser - ele me disse da cozinha.
- Ahn ... Est bem.
Eu no fazia a menor idia do que escolher. Eram quase todos filmes srios e vencedores de vrios prmios, como A Lista de Schindler. Eu no conhecia muitos deles, 
e de alguns nunca nem tinha ouvido falar! Eu queria pr alguma fita que criasse um clima romntico, mas que tambm mostrasse que eu conhecia bons filmes. Se pelo 
menos eu tivesse alguma dica ...
- Diga uma coisa: qual  o seu filme predileto, aquele de que voc mais gostou? - eu gritei na direo da cozinha.
- Essa  fcil - ele respondeu, saindo da cozinha pra me dar o refrigerante. -  Malcolm X. E voc? Qual  o seu filme preferido?
- As Patricinhas de Beverly Hills.
Nem bem tinha respondido e j tinha me arrependido. Dante parecia estar reprimindo algum comentrio cnico. Burra, censurei a mim mesma. Por que no inventou qualquer 
outra coisa?
_ Mas... Ahn... eu sempre quis ver Malcolm X -, acrescentei depressa. -  que a oportunidade nunca surgiu. E se a gente assistisse agora?
-Hoje?
_ Claro. Eu vi que voc tem uma cpia.
_ Mas o filme tem mais de trs horas.
_ Tudo bem. Ns temos tempo.
Ele me deu uma olhada rpida e foi abrindo um sorriso.
_ timo, ento. Voc vai adorar. - Ele se curvou e tirou uma caixa da prateleira. - Me d s uns minutos.
Enquanto Dante, sentado de pernas cruzadas no cho, voltava as duas fitas, li a sinopse no verso da caixa. O maxilar forte de Denzel Washington e seu olhar decidido 
me faziam pensar em Dante, sempre to pensativo. Eu queria iluminar um pouco sua vida, tornar todos os sonhos dele realidade, como se eu fosse sua fada madrinha.
Pronto! Era isso! A festa! Eu podia dar uma melhorada geral nele e lev-I o comigo na festa  fantasia. Ento todos teriam a oportunidade de ver o homem maravilhoso 
que ele era. E talvez, quem sabe, Dante parasse de salvar o universo por uns tempos e aprendesse a curtir bons momentos. Seria mgico! Nosso prprio conto de fadas 
com final fehz.
_ Dante? - comecei a falar, me sentando ao lado dele. - Posso lhe perguntar uma coisa?
Ele virou-se e sorriu.
- Claro. O qu?
Aproximei-me ainda mais, at que estivssemos ombro com ombro, coxa com coxa, meu hlito misturado ao dele. Eu queria que aquele momento fosse absolutamente romntico, 
uma lembrana a ser guardada pra sempre.
_ Voc sabe, no sabe - falei, olhando dentro de seus olhos-, que eu fiquei muito feliz de ter voc como parceiro de trabalho.
_ Eu tambm fiquei - ele sussurrou.
_ Essas ltimas semanas tm sido incrveis. Eu me sinto to ... to prxima de voc. . .
_ Eu tambm - ele repetiu, com o olhar mais intenso.
_ E as coisas seriam to perfeitas se ...
- Se? - ele murmurou se movendo na direo do meu rosto pra me dar um beijo.
-... Se voc me acompanhasse na festa  fantasia.
Dante recuou com um gesto brusco, com os olhos arregalados.
Por uns instantes, ficou ali sentado, olhando pra mim, enquanto a fita voltava ao comeo. Por fim, engoliu em seco e disse:
- Lyssa, eu no posso.
- O qu? - Senti uma pontada no corao. - Por que no?
- Simplesmente no posso - ele repetiu, com um dar de ombros. - Esse tipo de festa, com todas as roupas caras que ela exige, aquela atmosfera pomposa ... aquilo 
no  pra mim.
Claro, pensei, sentindo-me mais aliviada. Ele est com medo de que seu dinheiro no seja suficiente.
- Ah, mas no precisa se preocupar com os custos - eu disse, toda animada. - Eu consigo uns descontos fantsticos no shopping. Ns podamos dar um pulo na Macy e...
- No, Lyssa. Isso no tem nada que ver com dinheiro.
- E tem a ver com o qu?
Ele deu um suspiro e colocou a mo sobre a minha.
- Eu boicoto essas festas por uma questo de princpios. Ir a qualquer uma delas significaria abrir mo das minhas crenas.
- Ah - respondi, sem entender direito o que ele tinha dito.
- Mas estou muito lisonjeado por voc ter me convidado - ele continuou, com um sorriso satisfeito. - S que acho que no precisamos pr traje a rigor para nos divertir. 
Ou precisamos?
- No. Acho que no.
- Podemos ficar por aqui mesmo ou ir at a Carroa da Vera. Estando juntos, qualquer coisa serve.
- Claro. - Lancei-lhe um sorriso de modelo, todo cheio de dentes, pra disfarar a tremenda decepo que tinha me invadido a alma.
L se vai o meu conto de fadas, pensei tristonha. Cinderela boicota a festa por questes morais e leva o Prncipe Encantado para comer um hambrguer.
No era exatamente o final feliz que eu buscava.

12- Dante
 
Lyssa tinha me convidado para uma festa "informal" que sua agncia ia oferecer na sexta-feira  noite. Ela me disse que tinha prometido ir, que no podia furar, 
mas que s conseguiria se divertir se eu fosse junto.
_ No precisa se preocupar - ela me garantiu. - No vai dar pra ficarmos muito tempo mesmo. Eu tenho que rodar aquele comercial no sbado, bem cedo, e voc tem a 
sua entrevista de estgio. Vamos s dar uma passada e ir embora, certo? Por favor, diga que aceita!
Circular no mundo da moda no era exatamente o meu programa predileto, mas concordei em ir s pra poder ficar com ela. Eu estava to ligado em Lyssa que quase j 
tinha virado doena. Sempre que ns nos vamos, eu me sentia meio intoxicado, de emoes. Quando nos separvamos, batia uma saudade horrvel dela. Por isso, preferia 
agentar uma festinha chata de agncia do que ficar sentado no quarto, suspirando e enlouquecendo aos poucos de tanto pensar nela.
Na quinta-feira  tarde, Lyssa ligou pra combinarmos tudo e me perguntou o que eu ia vestir. Quando disse que no fazia a menor idia, ela me falou pra usar uma 
cala cqui que eu tinha, meio largona, a camiseta preta e as botas de couro. Acho que ela devia ter decorado cada pea que havia no meu guarda-roupa. Eu
sabia que ela s estava tentando me ajudar, mas me senti meio como uma boneca sendo vestida em alguma brincadeira.
- Ah, e no se esquea de levar aquele cardig que eu te dei - ela acrescentou, antes de desligar. - Ouvi dizer que pode esfriar um pouco.
E l estava eu, na sexta-feira  noite, rodando pela regio, dos bares e clubes de Dallas com a menina dos meus sonhos, me perguntando at que ponto os meus ideais 
resistiriam.
Eu me sentia sem jeito, quase preso, dentro daquela malha novinha em folha. Parecia que estava tudo coando. Lyssa usava um micro vestido de renda preto que lhe 
caa bem como um abrao apaixonado. Estava to maravilhosa que meus olhos at incharam. Mas, sentado ao seu lado, no conseguia deixar de me
sentir um idiota. Se  assim que ela se veste para uma ocasio informal, pensei, imagine numa festa a rigor!
Quando entramos no barzinho elegante onde a festa estava rolando, reparei que todos estavam to chiques quanto ela. O lugar estava latada de gente alta, magra e 
impecvel. Lyssa misturou-se com a maior facilidade quele mar de tecidos caros. Eu me senti uma fraude.
- Engraado eles fazerem a festa num bar - Lyssa comentou, enquanto abramos caminho entre as pessoas pra achar uma mesa vazia. - Mais da metade do pessoal que trabalha 
para a agncia Turner ainda no tem idade pra beber.
- E pra que  essa festa toda? - perguntei.
- Pra comemorar o lanamento do novo lbum da agncia.
- E pra que serve o lbum?
Lyssa riu.
-  como um portflio ou um book, s que mostra todo mundo. Na verdade,  um livro enorme com a foto e os dados de todos os modelos que trabalham pra Turner. Clientes 
em potencial usam esse livro pra encontrar o que esto procurando.
Rosnei com um certo desdm.
- At parece um rebanho ou algo do tipo. Eles no pedem pra examinar os dentes de vocs, pedem?
Lyssa me lanou um olhar de surpresa.
- No - ela disse, magoada.
Meu corao ficou apertado. Senti-me um brutamonte.
- Desculpe Lys. No foi minha inteno ser cruel com voc.  que... - calei-me, puxando a gola que coava -... no estou me sentindo muito bem hoje.
- O que foi que houve? Est doente, algo assim?
- No. O que eu quero dizer  que voc pode at me botar dentro de roupas elegantes, mas eu nunca serei como, essa gente. - E fiz um gesto que abrangia todos os 
convidados.
- Relaxe! Voc est timo. - E, estendendo a mo, ela endireitou os ombros da malha.
- E voc est fantstica, como sempre - falei, deslizando meu indicador pelo seu brao. Percebi o leve tremor que ela sentiu ao ser tacada.
Inclinando-me pra frente, beijei-a com suavidade, demoradamente, deixando que o barulho e a movimentao em volta desaparecessem. Havia apenas ela e eu. S ns dois.
Nossos lbios se separaram, mas continuamos juntinhas, testa com testa, dizendo mil coisas em silncio.
- Confesse... - Lyssa falou ento, com um sorrisinho maroto, acariciando de leve o meu rosto. - At que de vez em quando essa produo toda  divertida, no ? Voc 
no se sente novo em folha?
- Bom... - Minha voz no queria sair. -  eu sinto algo diferente em mim. Mas  voc que me faz sentir novo. No so esses caras a.
De repente, fomos interrompidos por uma voz aguda e que eu j conhecia.
- Lyssa, meu bem! - Era a Sra. Turner, vestindo uma saia preta muito justa e uma blusa dourada brilhante, que avanava para a nossa mesa de braos estendidos.
- Sra. Turner! - Lyssa respondeu, levantando-se rapidamente para cumpriment-la. No mesmo instante, passou para o "modo modelo": queixo erguido, olhar concentrado, 
lbios se abrindo num enorme sorriso gelado.
- Estive procurando voc por toda parte! - disse ela, num tom sedutor. Depois acrescentou, de relance:
- Ol de novo, Dante.
-Oi.
A Sra. Turner voltou a se concentrar em Lyssa.
- Meu bem tem algum aqui que eu quero que voc conhea. Voc no se importa, no  mesmo, Dante?
-Ahn...
- Eu sabia que no. Venha, meu bem. - E, agarrando o brao de Lyssa, afastou-a da mesa.
Lyssa ainda se virou pra me olhar e encolheu os ombros, numa espcie de pedido de desculpas, antes de ser engolida pela massa.
Suspirei, melanclico, e cocei a nuca. Por que ser que essas roupas coam tanto? Ser que eram feitas de urtiga?
Durante cinco longos minutos, fiquei ali largado, me sentindo invisvel e desconfortvel. Aproveitei pra observar as pessoas ao meu redor, falando e tomando refrigerante 
diet. Todos tinham dentes perfeitos, postura perfeita, feies precisamente simtricas. Era quase assustador: pareciam clones feitos sob encomenda
ou uma raa superior de criaturas sorridentes.
De vez em quando, fiapos de conversa chegavam at mim, e comecei a reparar como aqueles seres tinham uma linguagem prpria.
- Sapatilhas rasas de bal, bordadas com strass, ou quem sabe uma babouche ...
- ... o decote funil est por toda parte agora ...
- No. No Versace. Versus ...
Mais um minuto e eu iria enlouquecer. Minha pele pinicava, meus ps doam e minhas axilas estavam comeando a ficar midas. Eu precisava tomar alguma providncia.
Procurei Lyssa pelo salo, mas no consegui v-Ia. Ento decidi ir at o bar e pegar um refrigerante. Assim que o garom me estendeu um copo de Dr. Pepper, uma voz 
feminina esganiou no meu ouvido.
-  voc!
Virei-me e vi uma ssia da Julia Roberts sorrindo pra mim.
- Ahn... ... sou eu mesmo - respondi, sem fazer a mnima idia de quem era ela.
Ela deve ter reparado que eu estava meio confuso, porque ps os dedos no peito e falou:
- Eu sou a Jeannette. No se lembra mais? Ns nos conhecemos no show Escada.
- Escada?
- , seu bobo. - Ela soltou uma risadinha e revirou os olhos, na certa achando que eu estava brincando. - Voc sabe ... Jeannette.
Sacudi a cabea.
- Desculpe. Acho que voc me confundiu com algum.
- Imagine s. Eu me lembro bem. Voc ... no, no me diga ... voc  Rusty, certo? Trabalha pra aquela grande firma de marketing.
No acreditei. Ser que a moa achava mesmo que eu mexia com marketing? S podia ser obra do cardig.
- Na verdade no. Meu nome  Dante - expliquei, estendendo a mo. Ela foi educada e a apertou.
- Mil desculpas.  que voc me pareceu to familiar... Foi contratado faz pouco tempo? - Ela franziu a vista com um ar ctico, na certa pouco convencida do meu potencial 
de modelo.
- No. Eu vim com Lyssa Naylor. Voc a conhece?
- Lyssa? Mas  claro. - Jeannette inclinou-se para um lado e apontou. - No  ela ali, conversando com o West?
Virei mais que depressa. E no deu outra: l estava Lyssa, sorrindo e balanando a cabea como se estivesse se divertindo  bea.  esquerda estavam a Sra. Turner 
e um sujeito mais velho, de terno azul. E  direita, West. Ele tambm sorria, olhando direto para Lyssa. Algum tentou passar por eles e vi quando West colocou a 
mo nas costas de Lyssa e, delicadamente, tirou-a do caminho.
Um cime doentio amorteceu meus sentidos.
- Estou surpresa que o West tenha conseguido aparecer hoje aqui - Jeannette continuou. - Ele tem estado bem ocupado todos os dias nas ltimas semanas.
Pois , e eu bem que gostaria de ocup-la mais ainda.
- Bom, acho melhor eu ir ver por onde anda meu namorado.
- Jeannette apanhou dois refrigerantes do balco e virou-se pro salo. - Prazer em conhec-lo, Dante. Divirta-se.
- Obrigado. Voc tambm - respondi, sem acreditar que conseguiria.
Acomodei-me no balco do bar e tomei meu refrigerante de olho nas mos de West. O cara estava flertando abertamente com Lyssa. Na verdade, dava a impresso de achar 
que ela era propriedade sua. A todo momento espetava Lyssa com o cotovelo, apoiava-se nela enquanto escutava a Sra. Turner falar e, sempre que
Lyssa dizia alguma coisa, ria muito e lhe dava um empurrozinho no ombro, de brincadeira.
Nesse meio-tempo, minhas roupas pareciam pinicar mais e mais, como se milhares de agulhas minsculas estivessem se enterrando em minhas costas. S podia ser a malha. 
Colocando o copo sobre o balco, tirei o cardig e pus na banqueta ao lado. Melhorou muito. Pra mim era inconcebvel que algum conseguisse
usar aquelas roupas. Ainda bem que eu tinha escolhido uma carreira que no exigia um guarda-roupa sofisticado.
Engolindo a ltima gota de Dr. Pepper, tentei pensar em uma forma de "acidentalmente" jogar West escada abaixo. O panaca estava aprontando alguma, isso era bvio. 
E, se ele chegasse um milmetro mais perto de Lyssa, ela seria engolfada pelo palet esporte nojento dele.
Naquele exato momento, West tirou os olhos de Lyssa, percorreu o salo com os olhos, me viu parado no bar olhando pra ele, e me lanou um enorme e triunfante sorriso. 
Seguindo o olhar dele, Lyssa me pegou observando o grupo todo sorriu com doura e me fez um aceno. Incapaz de resistir, fui andando na direo deles.
Enquanto me aproximava, escutei o chilreado da Sra. Turner, mais animado que nunca.
- Ah! Vocs dois so os melhores! - E deu um tapinha de leve no rosto de ambos. - Olha s pra vocs. So to perfeitos juntos! - E depois, com as mos ainda erguidas 
e a cabea ainda balanando, girou nos saltos altos e se foi seguida pelo homem de terno azul.
Suas palavras ficaram ecoando em meu crebro, saltando de um ouvido ao outro. Perfeitos juntos. Por mais que doesse ter de admitir, era impossvel ignorar os fatos. 
Ela tinha razo. Esteticamente falando, West e Lyssa de fato faziam um par belssimo.
- Dante! - Lyssa chamou, estendendo os braos pra mim.
- Me desculpe ter sado assim, sem mais nem menos, e largado voc. Mas sabe como ... - Franzindo a testa, ela revirou os olhos.
- Ossos do ofcio.
- , eu sei - falei distrado.
- Bom, Lyssa, a gente se v.
Virando-se, West se afastou, mas antes acrescentou, com um sorriso de satisfao dirigido a mim:
- Logo, logo.
Ah, cara, v fazer escova no cabelo!, zombei com meus botes.
Lyssa simplesmente o ignorou.
- Est com fome? - ela perguntou, passando o brao no meu. - Quer uns biscoitinhos salgados com caviar?
- Na verdade... voc se importaria se fssemos embora?
- Bom, no - ela disse, com um ar meio surpreso. - Acho que j cumpri minha obrigao.
- timo - resmunguei, puxando Lyssa pra sada. - Vamos dar o fora daqui.
Dirigi em silncio quase at a casa dela, tentando pr as idias em ordem e formar uma imagem mais clara da situao. Por algum motivo, minha sensao era de catstrofe 
iminente. No era s West que me preocupava, embora, sem sombra de dvida, o posudo fosse um dos viles da histria. Era mais que isso. Lyssa parecia to  vontade 
naquele ambiente ... por outro lado, eu me sobressaa como uma erva daninha. Nosso namoro no tinha futuro.
Lyssa deve ter sentido que eu precisava de um pouco de paz, porque tambm no falou muito. Ao meu lado, cruzava e descruzava as pernas morenas e longas, brincando 
com um pedao de papel que tinha nas mos.
Por fim, quando entramos na avenida central de Parkridge, a ansiedade dela levou a melhor.
- Dante, eu tenho uma surpresa pra voc - ela disse, com os olhos brilhantes iluminando o interior do carro. - Voc nunca vai adivinhar o que aconteceu.
- O qu? - perguntei, com o corao aos pulos. Meu receio era de que West a tivesse pedido em casamento ou algo parecido.
- Bom, a Sra. Turner me apresentou para o Sr. Lowell, aquele executivo da agncia A&D Advertising. A conta da loja pra quem eu vou fazer o comercial amanh  deles.
- Aquele de terno azul?
- Esse mesmo. Bom, mas deixa eu contar logo. - E Lyssa deu alguns pulinhos emocionados no banco. - Ns estvamos conversando e a Sra. Turner perguntou pra ele sobre 
aquele estgio.
E  incrvel, as atribuies incluem participao na redao dos comerciais e das campanhas publicitrias, j imaginou? As contas deles so todas de gente grada, 
do tipo Planet Hollywood e da pra mais.
- No me diga - falei, mas s por falar, porque aquele assunto no tinha o menor interesse pra mim.
- Pois ! S que ele me disse que ainda no tinham conseguido encontrar a pessoa certa. Pelo que falou, esto procurando algum que, alm de inteligente e confivel, 
seja capaz de "pensar grande". Sei que voc disse que no estava interessado, mas achei que era uma daquelas oportunidades que surgem pouqussimas vezes na vida.
Ento, comecei a falar de voc pra ele, contei que voc queria mudar o mundo, que era brilhante etc. E
ele gostou, ento dei seu nome a ele. E estou com o carto da agncia aqui comigo.
- Voc fez o qu? - Eu no conseguia acreditar no que estava ouvindo. - Lyssa, eu j tinha dito pra voc que no estava interessado! Eu vou fazer entrevista com 
a Folha da Manh de Dallas amanh cedo.
- Eu sei. Mas esse estgio na agncia de propaganda paga um salrio de dez dlares por hora! - E agitou as mos, eltrica, como se esperasse que eu a tomasse nos 
braos e sassemos saltitando mundo afora. - Alm de voc ganhar uma tonelada de experincia.
- Trabalhando na indstria da propaganda ...
- Bom ...  ... - Aquela energia de segundos antes parecia estar morrendo. Lyssa inclinou a cabea e me encarou. - Eu sei que no  a mesma coisa que redigir uma 
coluna opinativa, mas tambm  um trabalho criativo. Meio que a mesma coisa, no fim.
Olhei-a aturdido.
- No, no .  completamente diferente - falei com toda a nfase. - Ser que voc no percebe? Meu desejo  escrever coisas que abram os olhos das pessoas para 
as injustias ao redor, e no tentar enganar as pessoas e convenc-las a comprar um monte de coisas inteis.
Os olhos de Lyssa se arregalaram.
- Desculpe. Eu s quis ...
- Voc no faz a menor idia de quem eu sou. - E, de repente, me dei conta de uma verdade arrasadora. - Ou talvez at me conhea, mas ache que no sou bom o bastante 
do jeito que eu sou.
- Isso no  verdade - ela me respondeu baixinho.
- No mesmo? Ento por que est me empurrando pra esse emprego de publicitrio? Por que voc passou a noite toda conversando com o West? Voc obviamente prefere 
a companhia dele! - Minha voz aumentou de volume. Todas aquelas inseguranas vagas de antes adquiriram um formato horrendo e me levaram a uma exploso de desespero.
J estvamos na rua onde Lyssa morava. Minhas mos seguravam a direo com tanta fora que a pele parecia estar se fundindo com o volante. Parei na frente da casa 
dela, pus o carro em ponto morto e aguardei, emburrado.
- Eu prefiro o West? - Lyssa me olhou como se no soubesse que lngua eu estava falando. - E o que significa isso, posso saber?
- Sem essa, Lyssa. Voc conversou com ele a noite toda.
- No conversei, no, senhor. Eu estava conversando com a Sra. Turner. O West  um grude e eu s no falei pra ele dar o fora porque nosso patro estava bem ali 
do lado.
- Pode ser. Escute, eu no quero falar sobre ele. Eu no quero mais ir a nenhuma festa metida  besta, no quero mais ir a nenhum desfile de modas e, acima de tudo, 
no quero virar um executivo escravo da propaganda! - O ressentimento em minha voz surpreendeu at mesmo a mim. - Eu no preciso de caridade, Lyssa.
Foram palavras duras que ficaram pairando no ar como nuvens de chuva. Estvamos os dois paralisados dentro do carro.
Momentos depois, o silncio tenso foi quebrado ... pelo som dos soluos de Lyssa.
- Voc no est sendo justo comigo - ela sussurrou. - Eu s estava tentando ajudar. - Seu queixo tremia e as lgrimas molhavam seu rosto.
No mesmo instante, todo o meu azedume se foi e me senti como um grande pateta. Minha vontade era de abra-la, pedir perdo pelo meu destempero e tentar lhe explicar 
o estado catico em que estava minha mente. Mas, antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela saiu do carro, bateu a porta e sumiu na escurido.
Lyssa se foi, a raiva passou e, de repente, o interior do meu Volkswagen ficou gelado. S ento percebi que havia esquecido a malha no bar.

13- Lyssa

Eu deveria estar dormindo pra ficar bem pra rodar o comercial no dia seguinte. Em vez disso, estava grudada no meu coelhinho, chorando feito um beb. Fazia muito 
tempo que eu no soluava tanto.
Minha briga com Dante tinha me deixado muito confusa.
Eu estava magoada, brava e no fazia idia do que havia acontecido.
Ele no devia ter berrado comigo daquele jeito, principalmente porque eu s estava tentando ajudar. E de onde tinha sado aquele absurdo a respeito do West?
Devia haver algo de muito errado comigo! Eu tentava fazer o melhor possvel o tempo todo, deixar todo mundo feliz, mas por algum motivo as coisas sempre acabavam 
dando errado.
Quando papai me contou que ia se separar de mame e sair de casa, eu fiz de tudo pra ele mudar de idia. Mantinha meu quarto impecvel, comia todas as verduras, 
dizia que ele era o melhor pai do mundo, no me cansava de elogiar a beleza de mame e coisas do tipo. Mas no funcionou.
Depois, quando ele foi embora, tentei ser uma filha perfeita pra mame, pra que ela no me largasse tambm. Fazia tudo o que ela mandava, nunca me rebelava e jamais 
a amolava com meus problemas. Mame no me largou,  verdade, mas minha impresso era a de que havamos nos afastado muito. Nos ltimos anos, ela era mais minha 
agente e gerente do que minha me.
E agora o Dante.
Eu j devia ter adivinhado que aquilo ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Eu no era to inteligente quanto ele imaginara; caso contrrio teria ao menos uma noo 
do motivo de tanta irritao.
Como ele podia ser to cruel? E eu achando que ficaria grato quando soubesse do estgio... Que nada! a sr. Cnico estava de olho na carreira jornalstica ... mesmo 
que aquilo significasse morrer de fome. Parecia at que escrever pra um jornal era sua nica razo de viver. Um sonho preterido...
Parei de chorar e me sentei na cama, me lembrando de repente do poema de Langston Hughes. Por vrios minutos, as palavras zumbiram em volta da minha cabea, e os 
versos se repetiram diversas vezes at tomar forma e cor prprias. No final das contas, as coisas comearam a fazer sentido. A poesia. E Dante.
De acordo com Langston Hughes, quando voc adia um sonho, ele morre ... assim como uma parte de voc. 
Dante sabia o que queria da vida. E perseguia seus ideais sem fazer acordos com ningum, sem pedir licena nem desculpas. De certa forma, talvez sua misso de consertar 
o mundo fosse sua razo de viver. Era algo muito mais importante que dinheiro, mais at que a felicidade. Certamente, mais importante que eu. Dante tinha coragem 
pra seguir seu corao, independentemente dos obstculos. Era eu que estava "preterindo meu sonho".
 a sua vida, Lyssa.
Sa da cama, fui at a escrivaninha e revirei a papelada da gaveta at encontrar o anncio de estgio que a sra. Weddington havia me passado no dia do aniversrio 
de Betsy. A descrio do cargo, com as atribuies, ainda estava presa por um clipe no canto esquerdo.
Eu sabia o que tinha de fazer. 
- Ai, boneca. Voc est um horror! Por que seus olhos esto to inchados? - Foi assim que West me cumprimentou quando entrei no estdio, na manh seguinte.
- Muito obrigada. Bom dia pra voc tambm - respondi.
Agentar a brancura esfuziante dos dentes de West logo s oito da manh foi um pouco demais pra mim, sobretudo depois de poucas horas de sono. Eu estava me sentindo 
cansada e rabugenta, e prestes a chorar a qualquer minuto. Por causa da briga com Dante, eu parecia oca por dentro, uma sensao estranha que eu me perguntava se 
algum dia ia passar.
Entretanto tinha feito uma coisa que aliviava um pouco a minha dor. A caminho do estdio, passei pelo Correio e postei meu pedido de estgio para a Savra Modas. 
Finalmente, estava fazendo algo pra mim mesma, no pra minha famlia, nem pras minhas amigas, nem mesmo pro Dante. Quando coloquei o envelope  na caixa, foi como 
se estivesse me livrando de toda a presso que vinha sofrendo havia anos e anos. Eu tinha tomado uma deciso importante: ia abandonar a carreira de modelo mesmo 
que no conseguisse o estgio. Agora s faltava coragem pra contar a todos.
_ Ei eu tenho uma coisa pra voc - West falou. Aproximando-se, entregou-me um volume macio. Era a malha que eu havia dado pro Dante. 
_ Cinderela saiu do baile muito rpido e acabou deixando pra trs - West explicou, com um sorriso cnico. - Um Ralph Lauren, hein? S pode ter sido obra sua. a nosso 
Grande Reprter" jamais seria capaz de distinguir um artigo de luxo de um artigo do lixo. .. .
_ Ele ... largou a malha l? - perguntei mais pra mim mesma do que pro West. Eu me senti engasgada. Parecia que  havia arrancado um pedao do meu corao. Tudo me 
parecia simblico: era como se eu tivesse sido largada, e no a malha. E talvez fosse isso mesmo.
Com um suspiro triste, ergui o cardig e deixei que casse aberto, estudando o modelo. Era uma malha linda, super macia,de cashmere. Elegante, porm conservadora, 
perfeita pra usar num clube pra fumantes de charuto ou num iate.
Quanto mais eu examinava a pea, mais me dava conta de que no combinava com Dante de jeito nenhum. No que eu estava pensando no dia em que comprei aquilo? Dante 
merecia algo com mais charme e personalidade. Aquela malha era mais adequada pra ... pra um estagirio de publicidade. .
_ Voc no devia ter desperdiado seu dinheiro com ele -West murmurou, colocando a mo no meu ombro, como se tentasse me consolar. Mas o gesto parecia falso.
- Tire a mo de mim, West! - falei, fugindo daquele toque. - Voc no sabe de nada.
- Ele no merece voc. O cara no sabe reconhecer o que  bom, nem que voc lhe oferea numa bandeja. Agora eu, por outro lado ... - e West aproximou-se de mim outra 
vez, pra me afagar o rosto - ... eu sei como apreciar as melhores coisas da vida.
- Mas que timo! -exclamei, lanando-lhe um enorme sorriso falso. Ergui o brao, afastei a mo dele do meu rosto e dei-lhe a malha. - Porque pode ficar com isto.
- Corta! - berrou o diretor pela vigsima vez. - Essa ficou pior ainda!
No sei por que achei que fazer a propaganda da Cutter Electronics seria fcil e excitante. Quando me disseram que no seria preciso decorar nenhum texto, imaginei 
que iramos perambular em volta de alguns estreos e microondas e dar um baita sorriso. Infelizmente, o trabalho exigia um pouco mais que isso. Muito mais. E, no 
estado em que me encontrava, exausta e de corao partido, eu no conseguia dar conta do recado. 
No roteiro, West e eu fazamos o casal de namorados.
Enquanto ficvamos sentados num sof, diante de uma televiso enorme, a voz do narrador dizia: "Home theaters to potentes que voc nem lembra que no est no cinema". 
Em seguida, a idia era que ns nos beijssemos apaixonadamente, at sermos interrompidos por um pai muito severo.
O problema era o beijo. Pelo visto, ele no estava convencendo, o que pra mim no era surpresa nenhuma. Eu no sentia a menor atrao por West, e a cada segundo 
ele me parecia ainda mais tedioso. 
Nossas tentativas lembravam uma comdia. Toda vez que recebamos a deixa e nos aproximvamos pra dar o tal beijo, batamos a cabea um no outro, ou o nariz. O cheiro 
de caf no hlito de West estava me dando enjo e, entre uma tomada e outra, ele tinha a audcia de tirar do bolso um leno com um monograma bordado pra enxugar 
a boca. Porm, a culpa no era s dele. Eu no estava conseguindo me desvencilhar do choque da noite anterior e interpretar o meu papel.
_ Vamos l, crianas - o diretor implorou. - Tempo  dinheiro. Se no conseguirmos acertar isso na prxima, vamos ter que fazer algumas mudanas. Entenderam o que 
estou querendo dizer? 
West cruzou os braos, indignado.
_ No sei por que vocs esto me criticando. No  culpa minha se ela no sabe fazer a cena.
- Ei! Pra beijar so necessrias duas pessoas - retruquei brava. - Eu posso nunca ter rodado um comercial pra televiso, mas a sua tcnica tambm deixa muito a desejar.
_ Deixa muito a desejar? No faz nem dois meses eu estava em Los Angeles fazendo um comercial pra um anti-sptico bucal e eles disseram que ...
_ J chega! - berrou o diretor. - Quero que vocs faam um intervalo agora. Estiquem as pernas, retoquem a maquiagem e se acertem. Se as coisas no se resolverem 
em quinze minutos, a agncia Turner vai escutar poucas e boas. 
Com isso, o set se dissolveu em rudos e atividades,  medida que a equipe e o ator que fazia o "pai severo" se dispersavam em diferentes direes.
- Eu vou pegar um pouco de gua - falei para West.
Deus, me ajude a chegar ao fim deste dia, pedi enquanto ia at o bebedouro. Eu havia me sentido tensa e inquieta a manh toda, como se estivesse na linha de partida 
de alguma corrida,  espera do tiro de largada. Talvez por causa da minha briga com Dante. Ou por falta de sono. De um jeito ou de outro, eu sabia que meu lugar 
no era naquele set.
_ Lyssa? - West chamou, aproximando-se por trs.
- O qu? - respondi com frieza.
_ Olha s, me desculpe por ter ficado bravo com voc. - Ele baixou a voz e olhou em volta, todo nervoso. - Ser que no tem um jeito de a gente resolver esse negcio 
do beijo? Afinal, ningum aqui quer ser despedido por uma bobagem dessas. 
Soltei um suspiro frustrado. 
- Eu tambm quero que funcione. Vamos estabelecer uma trgua, rodar a tomada e dar o fora daqui.
- Mas eu no estou entendendo qual  o problema - West gemeu. - Quer dizer, tudo o que temos de fazer  juntar nossas bocas. No pode ser to difcil assim, n?
- Mas tambm no  assim to simples, West. Envolve mais do que duas bocas se tocando. Tem que haver uma qumica. E ns dois no temos essa qumica.
- Bom, mas ns temos de fazer alguma coisa. - E West comeou a andar em crculos, agitando as mos com impacincia.
- Se o boato vazar, minha reputao estar arruinada. 
Apertei os olhos para enxerg-lo melhor. Como  que um dia eu podia ter achado que ele era um cara sexy? Ele era um esnobe choro, isso sim. Por isso  que o beijo 
no emplacava de jeito nenhum. Agora, se eu estivesse rodando o comercial com o Dante, haveria mais fascas no ar do que em volta de uma mquina de solda.
Espere um pouco! Claro!
- Olha s, West. Acho que tive uma idia.
Ele parou de andar em crculos e olhou pra mim.
- Qual? O qu?
- Shh. No fale nada. Feche os olhos e fique quieto.
West seguiu as instrues e eu cheguei mais perto. E ento, usando toda a minha imaginao, tentei sobrepor o rosto de Dante ao de West.
Uma onda de emoes arrasadoras me invadiu o peito enquanto eu me transportava mentalmente no tempo. Lembrei da expresso de Dante na noite do nosso primeiro beijo, 
quando danvamos na Carroa da Vera. Luzes de neon brincando em sua testa, olhar melanclico, plpebras semicerradas, lbios entreabertos ... 
Inclinei-me e dei um longo e romntico beijo naquela imagem. Claro que no chegou nem aos ps da sensao mgica que eu tive com Dante. Estava mais para aqueles 
momentos em que a gente tenta se convencer de que espinafre  torta de frango. 
Mesmo assim, o espectador mdio muito provavelmente iria achar a cena convincente.
Depois afastei-me e apaguei aquela imagem da cabea. Porm, eu continuava vendo o Dante. Por cima do ombro de West, eu o vi parado na entrada.
_ Isso  o que eu chamo de beijo! - West exclamou, recuando um passo e bloqueando minha viso. - Parece que nossos problemas acabaram. Quando o diretor vir...
_ Com licena. - Empurrei West pro lado e me desviei dos acessrios cnicos e integrantes da equipe de filmagem pra conseguir chegar at o lugar onde achava que 
tinha visto Dante. Mas, quando cheguei l, ele havia sumido. 
Ser que ele tinha mesmo estado ali? Talvez a minha imaginao estivesse muito frtil. Ser que eu estava vendo coisas por causa da dor de t-lo perdido?
O diretor se aproximou e cutucou o meu ombro.
- E a, vocs resolveram as diferenas?
_ Hein? O qu? - Por um segundo, pensei que ele estivesse se referindo  minha briga com Dante. S depois percebi que falava de West. - Ah, claro. Est tudo timo 
agora.
_ Ento vamos l, pessoal! - ele berrou, para encobrir a balbrdia.
- Fim do intervalo! Vamos refazer a cena. Quanto antes terminarmos, mais cedo chegaremos em casa.
Olhei de novo pra entrada, onde eu achava ter visto Dante.
Imaginao minha ou no, considerei aquilo um sinal.
Eu tinha de v-lo - de verdade - pra tentar consertar as coisas. A vida era curta demais pra preterir um sonho como aquele.


14- Dante

Pisei no acelerador, virei  esquerda e disparei pela Via 75 em velocidade mxima, o que no era grande coisa, considerando o trnsito do meio-dia e o motor minsculo 
do meu carro. Se raiva fosse combustvel, porm, eu teria voado.
- Voc  um idiota de marca maior! - gritei pra mim mesmo, enquanto entrava na pista pra ultrapassagem.
Eu no estava apenas descontando minha decepo no acelerador de modo impensado e machista (embora isso fosse parte da reao). Eu estava tambm tentando pr o mximo 
de distncia possvel entre mim e a cena horrvel que eu tinha acabado de testemunhar.
Alguma vez na vida, voc j viu algo to desagradvel que acabou impresso na sua mente feito ferro em brasa? E no importava o quanto voc se esforasse pra apagar 
a imagem, ela no saa da sua cabea? Foi o que aconteceu comigo. 
Depois da briga com Lyssa, eu no consegui pegar no sono.
Virei e revirei na cama durante horas e horas, analisando a noite inteirinha nos mnimos detalhes. Por fim, aps trs horas patticas de sono agitado, acordei me 
sentindo exausto, irritado e muito, muito culpado.
Sabia que nunca deveria ter gritado com ela. Mesmo que Lyssa no tivesse o direito de se intrometer nos meus planos, ela no merecia ser tratada com aquela violncia 
toda. Mas  que eu devia estar me sentindo muito ansioso e esquecido, depois de ver aquele manequim ambulante grudado nela a noite toda.
A idia de perd-la era horrvel demais e rezei pra no ter estragado de vez as coisas entre ns.
Liguei pra casa dela, mas sua me me lembrou que aquele era o dia do comercial. Lyssa tinha me dito onde ficava o estdio, no muito longe do prdio da Folha da 
Manh de Dallas. Repentinamente, decidi ir at l depois da entrevista e rastejar diante dela. Sabia que no seria o lugar mais adequado pra fazer as pazes, mas 
no consegui esperar. Eu j estava sentindo falta dela. Alm disso, esperava poder ficar por l, sapeando a filmagem...  e talvez lev-la pra comemorar, quando tivesse 
acabado. Se eu conseguisse apoiar um pouco mais a carreira dela, talvez ela pudesse apoiar a minha tambm.
Minha entrevista com os editores do jornal tinha sido fantstica - pelo visto minha atitude os deixou impressionados, meus artigos agradaram em cheio e (graas a 
bons conselhos) minha aparncia passara pela inspeo. Eu mal podia esperar pra contar a Lyssa.
Quando cheguei ao porto de entrada do estdio, mencionei o nome de Lyssa pro cara sentado numa guarita e perguntei onde estava sendo rodado o comercial para a Cutter 
Electronics.
Ele me deu uma olhada de lado e perguntou, entre dentes:
-  um dos atores?
_ No. Eu sou... - Enquanto pensava em uma explicao plausvel, vi o carto de visitas que Lyssa havia deixado no banco do carro, na noite anterior. - Sou estagirio 
da A&D Advertising _ falei, entregando-lhe o carto.
Depois de examin-l o devidamente, o guarda deu de ombros  e levantou a barra de segurana do porto.
_ Estdio doze - falou, apontando por cima do ombro. 
Que ironia, pensei, enquanto parava diante de um prdio todo branco, sem janelas. No fim das contas, aquele carto serviu pra alguma coisa.
Fechei o carro e fui entrando devagar pra no atrapalhar, caso estivessem gravando. Mas quando cheguei l dentro, estavam todos  toa, batendo papo. Ningum nem 
reparou em mim.
Passei em revista todos os rostos,  procura de Lyssa, mas s vi um punhado de funcionrios entediados e um casal namorando nos fundos.
Gelei ao olhar de novo pra dupla de pombinhos atracados num beijo. Algo neles me pareceu familiar. S dava pra ver as costas do cara, ombros largos, a camisa impecvel, 
e as mos da garota, longas e esguias, com a unha de um dos polegares levemente roda.
Lyssa? E West? Dando um beijo? Um no outro? Os pensamentos explodiam desordenados, quase corno um motor enguiado.
No! No podia ser.
No momento em que pensei isso, eles se separaram e deu pra ver o rosto da menina nitidamente. Era Lyssa! Ver o fato consumado me despedaou o corao.
Uma frao de segundo depois eu estava do lado de fora cantando pneu no estacionamento. Vi o suficiente pra saber que tinha feito papel de bobo. Por nada neste mundo 
eu conseguiria encarar as explicaes gaguejadas de Lyssa e os olhares zombeteiros de West. Depois de levar urna facada no peito, ningum fica para receber o prximo 
golpe.
Quando entrei em Parkridge, j tinha chegado a uma terrvel e inegvel explicao pra tudo aquilo: Lyssa nunca me viu corno namorado. Ela me viu como urna causa. 
Mas, quando percebeu que a tentativa de me transformar num "usurio de roupas de grife louco por dinheiro" no ia funcionar, resolveu voltar com o West.
- Eu estava certo! - gritei pro pra-brisa. - Era com ele que ela queria ficar.
Depois de um tempo parei o carro na frente de casa. Nem sei por quanto tempo continuei atrs do volante, trincando os dentes e tentando continuar furioso. Eu precisava 
continuar louco da vida. Queria odiar Lyssa! Assim seria mais fcil abrir mo dela.
S que, enquanto as imagens daquele rosto lindo danavam na minha frente, fui invadido por urna nova sensao: uma dor fria, aguda, cortante.
No final da tarde, bateram na porta de casa. Quando abri, vi Lyssa sorrindo pra mim. Minha cabea ainda estava explodindo de raiva, mas o imbecil do meu corao 
deu um salto de alegria.
_ O que voc veio fazer aqui? - perguntei, tentando adotar um tom frio e distante.  claro que eu sabia exatamente por que ela estava ali. Tinha chegado a hora daquela 
velha conversa de "vamos ser bons amigos". 
O sorriso desapareceu do rosto dela e foi substitudo por uma expresso de mgoa.
_ Olha, eu sei que voc ainda deve estar irritado comigo - ela disse. - Eu vim pedir desculpas.
- Veio, ? 
_ . Eu... Ahn... eu sinto muito, Dante. No devia ter me intrometido naquela histria do estgio.
Ela ficou quieta, esperando uma resposta minha, mas eu no sabia o que dizer. Por que ela estava perdendo tempo tentando desfazer o mal-entendido da outra noite? 
No seria melhor arrancar meu corao logo e ir embora?
_ E... ahn ... me desculpe se voc no se divertiu muito na festa - ela continuou. - Que tal se a gente passasse urna borracha na noite de ontem? O que voc acha? 
Olha s, eu trouxe urna coisa pra voc, um tipo de cachimbo da paz. - Os olhos de Lyssa brilharam e ela me entregou urna caixa comprida e achatada
que estava escondendo atrs dela.
Eu j tinha ouvido falar de separaes "amigveis", mas aquele presente me deixou bastante curioso.
Em vez de estender a mo para receb-lo, cruzei os braos e me encostei na porta.
_ No seria melhor voc dar isso ao West? - perguntei em tom desdenhoso, pra ver a reao dela.
_ Como assim? O que voc quer dizer com isso?
_ Olha s, Lyssa, eu no quero mais nenhuma roupa cara de presente. Eu no gostei de bancar a cobaia dos seus projetos. 
Lyssa parecia ter sido esbofeteada.
_ Por que voc est fazendo tudo de novo? Eu s estava tentando... - Sua voz tremeu e ela sacudiu de leve a cabea, incapaz de prosseguir.
Foi horrvel, pra mim, v-la to desesperada, mas afastei aquela sensao me lembrando da imagem pavorosa do beijo que ela e West tinham trocado. 
- Tentando o qu? - perguntei, me forando a encarar aqueles olhos cheios de lgrimas. - Me ajudar? Foi isso que voc falou ontem  noite. Como acha que eu me sinto 
quando voc diz isso, Lyssa? Que voc precisa me mudar pra poder sair comigo?
- Mas isso no  verdade! - ela exclamou.
- Claro que . No me acha rico ou elegante o bastante pra voc. Ento resolveu mudar meu guarda-roupa e me arrumar um emprego.
, Por a, j deu pra perceber que no consegui manter a calma. Aquela altura, eu gesticulava feito um doido e a voz saa alta indignada, como se eu estivesse fazendo 
um discurso de protesto' sem tirar nem pr. S que dessa vez, eu estava tentando salvar a mim mesmo.
. Mesmo sabendo que tudo tinha acabado eu ainda gostava muito de Lyssa. Mas achava que, me antecipando, evitaria a dor de levar um fora. Era mais ou menos como sair 
de uma estrada pra evitar uma batida de frente. Eu sabia que teria tempos difceis pela frente, mas aquele caminho me parecia o mais simples. Nesse meio-tempo, a 
boca de Lyssa abria e fechava, tentando formar palavras que no conseguia deixar sair. 
- Voc no me quer - continuei falando. - No do jeito que eu sou. Tudo que voc quer ... um menino bonito pra lhe servir de acessrio. Foi por isso que voc voltou 
pra ele!
- Mas do que  que voc est falando? - ela gritou.
Soltei  um suspiro cansado e encostei de novo na porta.
Pronto, eu tinha colocado pra fora a terrvel realidade do nosso caso. No tinha mais sentido ficar usando meias palavras. 
- Eu vi voc, Lyssa - respondi, com voz dbil. - Eu estive no estdio hoje e vi vocs dois se beijando.
Quando disse aquilo, olhei bem pra ela, esperando que desmoronasse e confessasse tudo, envergonhada. Em vez disso, um olhar de compreenso lhe passou pelo rosto.
- Quer dizer ento que era voc - ela sussurrou mais pra si mesma. Depois olhou pra mim com uma expresso de urgncia. 
- Dante, eu posso explicar...
- No se d a esse trabalho - falei, levantando a mo. - Nada do que voc disser vai mudar as coisas. j  hora de percebermos que somos muito diferentes um do outro. 
Vamos deixar as coisas como esto.
No tinha a inteno de falar de um jeito to frio, mas eu tinha passado o dia ruminando minha raiva e minha humilhao. 
Estava cansado e no queria sofrer mais ainda. Por isso, ergui uma muralha ao meu redor.
_ Voc no quer nem me ouvir? - ela perguntou, com a voz trmula.
Respondi-lhe apenas com o olhar, com medo de abrir a boca.
_ Estranho! Achei que todo bom jornalista checava todos os fatos antes de julgar! - ela berrou, soluando. Depois jogou a caixa aos meus ps e foi embora.
Debrucei-me na sacada e, com os olhos enevoados pela escurido e pelas lgrimas quentes que brotavam, vi quando Lyssa atravessou o estacionamento correndo.


15- Lyssa

Fazia duas semanas que Dante tinha me dado o fora. Quatorze dias ocupados com uma srie de desfiles, fotos pra vrios catlogos e muita malhao. Pela primeira vez 
na vida, aquela rotina de trabalho interminvel era um consolo, pois me ajudava a esquec-lo pelo menos um pouquinho. Porm, era mais ou menos como pr um band-aid 
numa ferida sangrando: a dor continuava to aguda quanto no dia em que terminamos. Tentei ver Dante como um idiota, procurando me lembrar dos seus pontos negativos: 
seu tom de voz frio, o jeito como ele olhava" de cima" qualquer um que no tivesse os mesmos valores que ele, suas acusaes de que eu havia ficado com West e o 
modo como se recusou a escutar as minhas explicaes.  Contudo, por mais que eu tentasse me concentrar em seus defeitos, no adiantava muito. Nada conseguia diminuir 
a minha sensao de perda. Eu gostava dele de verdade, apesar de todos os seus defeitos. Pela primeira vez, eu tinha conhecido algum que realmente me compreendia, 
que era capaz de ver alm da minha maquiagem e das minhas roupas, e enxergar uma pessoa de carne e osso. Agora que ele tinha deixado de fazer parte da minha vida, 
eu estava mais sozinha que nunca. E sentia saudades dele.  Na tarde da festa  fantasia, meu quarto recebeu as "clientes" de sempre. Enquanto Betsy e Ruth se maquiavam, 
eu fazia babyliss no cabelo de Heather.
Estavam lindas, principalmente Betsy, que estava usando o vestido que eu tinha feito pra ela. J eu me sentia a prpria Gata Borralheira, de agasalho de moletom 
e culos.
_ Tomara que eles tenham contratado um novo DJ. - Betsy soltou um suspiro. - O cara da ltima vez tocou Puff Daddy tantas vezes que eu quase enlouqueci!
_ Sem contar que eles enceraram demais o cho. Todo mundo escorregou um monte de vezes na pista. Meu bumbum ainda est doendo dos tombos - Ruth resmungou.
_ Meninas, acho melhor pararmos de reclamar. - Era Heather quem falava. -Esta ser nossa ltima festa  fantasia na escola e todas ns vamos ter uma noite maravilhosa! 
Certo?
Betsy e  Ruth olharam pra ela com ar de censura.
Heather virou pra mim e ficou mortificada.
_ Ahn... quero dizer ... nem todas. No que haja algo errado em... eu tinha esquecido que voc ... ahn ...
_ Que eu no vou  festa? - completei a frase de Heather com a maior calma. - Tudo bem. Eu no vou mesmo! 
Eu mesma fiquei surpresa com a convico da minha resposta.
Na verdade, estava fazendo um enorme esforo pra fingir que tinha voltado a ser a mesma de antes e empurrando minha dor bem pro fundo do peito.
_ Bom... - Heather recomeou. - Fico muito triste que voc no esteja vindo com a gente, mas no vou negar que estou satisfeitssima que tenha terminado tudo entre 
vocs. Voc est muito acima de algum como o Dante.
_ Nem me fale. Vocs leram a coluna dele na edio de hoje? - Ruth perguntou. - Ele acabou com as festas a rigor. 
Disse que todas giram em torno de dinheiro e prestgio, mais nada.
Heather soltou uma exclamao de desdm.
_ Isso est mais praquela histria da raposa e das uvas. 
Provavelmente ficou enfezado porque ele no foi convidado por nenhuma menina ... Ai!
Escutar os comentrios das minhas amigas estava me deixando ainda mais perturbada, apesar do esforo que fazia pra parecer calma. Sem querer, eu tinha enrolado demais 
o cabelo de Heather no babyliss e arrancado alguns fios. 
- Ai, desculpe Heather.
_ Tudo bem, no foi nada. - Ela me lanou um olhar preocupado.
- No esquenta.
- Sabe, Lys, s porque voc no est mais namorando com o Dante no significa que no poderia ter convidado outro cara pra ir  festa - Betsy falou. - Assim voc 
viria com a gente e se
divertiria um pouco.
- Pois ! Voc poderia ter chamado quem quisesse - disse Ruth, com admirao. - Ainda mais agora, que  uma estrela de televiso!
A propaganda da Cutter Electronics tinha ido ao ar havia trs dias e todo mundo estava comentando. Eu no podia nem ver. Sempre que aparecia, eu desligava a TV. 
Aquilo s me fazia lembrar do Dante e do dia em que havamos terminado.
- Agora o West  outro papo - Heather comentou. - Ele, sim, seria um timo par pra voc ... ai!
- Desculpe - eu disse de novo, tirando trs fios de cabelo torrados do babyliss.
- E aquele seu vestido, Lyssa? Aquele que voc desenhou pra festa de hoje. Quando  que vai us-lo? - Ruth perguntou. 
- No sei - respondi, tentando afugentar do peito a pena que sentia por mim mesma. Eu me lembrei do desejo estpido que eu tinha tido de ir  festa com Dante, de 
transform-lo num Prncipe Encantado. Bastava de idias brilhantes!
- E por falar em vestidos, e aquele estgio na Savra, Lyssa? 
- Betsy perguntou. Percebi que estava mudando de assunto de propsito. Minha atitude de "no estou nem  a como fim do namoro" podia enganar todo mundo, menos ela. 
- Afinal, voc se candidatou ou no?
- Cai na real, Bets! - Heather falou, em tom zombeteiro. 
- Como se a Lys fosse parar de desfilar e trabalhar na televiso pra passar o dia costurando roupa!
- Pra ser sincera... eu me candidatei, sim. Mas ainda no recebi nenhuma resposta.
- Puxa! - Ruth exclamou. - Voc se interessou mesmo pela coisa? Mas o que vai fazer se te escolherem? Largar a carreira de modelo?
Balancei a cabea.
- Isso mesmo. Resolvi deixar de ser modelo mesmo que no seja escolhida pra fazer o estgio.
Ao ouvir isso, Betsy, Heather e Ruth soltaram exclamaes horrorizadas.
L vamos ns, pensei. Chegou a hora de todo mundo se chocar e vir me dizer que sou uma burra.
Suspirei e me sentei na cama, ao lado de Heather. 
_ Sim,  verdade - continuei. - Claro que eu vou cumprir todos os compromissos j agendados, mas depois disso vou cair fora... pelo menos por uns tempos.
_ Mas... por qu? - Heather perguntou. ,
_ Porque eu me cansei. Porque no  mais o meu sonho. E o sonho dos outros. - Levantei da cama e comecei a andar pelo quarto, gesticulando. - Tenho dezoito anos 
de idade e nunca pude ser uma adolescente normal. Por causa dessa carreira, tudo o que eu quis fazer teve de ser... preterido. Vocs entendem? 
Olhei pro rosto das minhas amigas e deparei com olhares vazios.
Depois de um tempo, Betsy resolveu dizer alguma coisa.
_ Sua me j est sabendo? - ela perguntou baixinho.
_ No - respondi sussurrando. - Ainda no. Estou esperando o momento certo pra contar a ela.
Mais um silncio constrangedor pairou sobre o quarto. Tive medo de que dali em diante fosse sempre assim. Eu sabia que as meninas ficariam decepcionadas com a minha 
deciso e no esperava que me entendessem, mas no queria acreditar que desistir da minha carreira significava ter de desistir delas.
Betsy me abraou.
_ Bom, fico muito feliz por voc - ela disse emocionada.
_ Eu tambm! - Ruth acrescentou, se juntando ao nosso abrao.
_ Muito obrigada, gente - sussurrei. No consegui dizer nada, mas me senti bastante aliviada.
Betsy e Ruth aplaudiram a minha coragem e disseram pra eu no me preocupar. Depois olharam pra Heather, esperando a mesma reao.
_ Pois eu continuo achando que ela ficou doida! - Heather exclamou, erguendo as mos num gesto dramtico. 
Betsy lanou-lhe um olhar de censura.
- Mas uma coisa  certa - Heather acrescentou, vindo em nossa direo. - No importa o que voc resolva fazer, Lyssa... sei que vai fazer como se deve ... - Ela 
tambm me deu um abrao tranqilizador. - ... e deixar todas ns pasmadas!
Depois que minhas amigas foram embora, sentei na escrivaninha e comecei a desenhar alguns modelos de roupa, esperando que novas idias tirassem Dante e a festa da 
minha cabea. S que no funcionou. Nos ltimos tempos, tudo me fazia lembrar dele.
Inclusive meus prprios desenhos.
Estava comeando a ficar com medo de que nunca mais conseguisse tirar aquele amor do meu peito. Era muito ruim ficar em casa sentindo pena de mim mesma, mas encontr-lo 
nas aulas de orientao vocacional era uma agonia! Ainda bem que os projetos j tinham terminado, assim no ramos forados a conversar. Eu tentava olhar sempre 
pra frente, ou enterrar minha cabea em algum livro. Mas, de vez em quando, arriscava olhar pra ele. Uma vez, peguei ele me olhando com uma expresso confusa. Meu 
corao bateu to forte que parecia um tambor, mas ele desviou o olhar rapidinho.
Dois dias antes, a Sra. Doherty tinha devolvido os trabalhos. Dante e eu tiramos a segunda nota mais alta da classe: nove e meio. S perdemos pra Jamal Carter e 
Arnold Sipowitz: ambos tiraram dez. Dentro da capa do meu portflio havia um bilhete da Sra. Doherty, preso com clipe, com detalhes sobre o estgio na
Savra Modas e palavras de incentivo pra que eu me candidatasse, se ainda no tivesse feito isso. Depois ela me perguntava se eu poderia fazer um vestido azul de 
crepe como o do desenho pra ela.
Eu queria tanto dividir tudo isso com Dante... Se no fosse por ele, meu sonho de ser designer de moda teria continuado no fundo da gaveta da minha escrivaninha. 
Mas eu continuava muito magoada, e ele tambm no parecia estar a fim de papo. 
- No  justo! - falei em voz alta, deixando cair no cho um desenho semi terminado. - Por que as coisas deram errado logo de cara?
Como uma resposta  pergunta, o telefone comeou a tocar.        
- Al? - falei, tentando permanecer calma.
_ Boa tarde - disse uma voz feminina e muitssimo profissional.
- Por favor, eu gostaria de falar com Alyssa Naylor.
_  ela - respondi um tanto hesitante, me perguntando quem poderia ser.
_ Alyssa, aqui  Barbara Holden, da Savra Modas. Espero no estar atrapalhando.
Savra Modas!
_ No! De jeito nenhum - respondi animada. - Em que posso ajud-la? . .
_ Eu liguei pra dizer que nossa diretoria se reuniu hoje de  manh pra escolher o estagirio que ficar conosco no prximo ano. E que nossa empresa ter enorme satisfao 
em t-la no nosso quadro de funcionrios. .
_ Eu? _ Meus dedos ficaram dormentes e, para evitar que o telefone casse, eu o segurei com as duas mos.,.
_ Voc mesma - ela respondeu rindo. - Nos ficamos bastante impressionados com os desenhos que voc mandou, e a Sra. Doherty, sua professora de orientao vocacional, 
nos enviou o relatrio falando muito bem do seu trabalho. Achamos que voc  a candidata perfeita pra trabalhar na nossa equipe.
_ Obrigada - consegui dizer com voz fraquinha. Eu estava to emocionada que era difcil at respirar.
_ E ento? Voc pode comear no dia primeiro?
- Sem problema. ._
_ timo. Estou lhe mandando mais algumas informaes  pelo correio. Quando vier, traga tudo com voc. Ns nos veremos em breve, Alyssa. At logo.
- At logo. . .
Ela desligou e eu continuei onde estava atordoada. Primeiro, Betsy, Ruth e Heather, e agora Barbara Holden, da Savra Modas. Era inacreditvel. As pessoas gostavam 
de mim, e no da Lyssa modelo.
Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho do telefone, que estava fora do gancho. Dei um pulo de susto e pus o fone no gancho. .
_ Lyssa? Que barulho foi esse? Algum ligou?- A voz de mame foi chegando cada vez mais perto, ate que ela apareceu na porta.
Fiquei olhando pra ela sem saber direito o que responder. Sabia que precisava lhe contar a respeito do estgio. S no sabia como.
- O que foi meu bem? Voc parece meio atordoada.
- Mame, eu preciso lhe contar uma coisa - falei, levantando-me para encar-la. -  importante.
- O que foi filha? - Mame se aproximou hesitante. - Fale.
Engoli em seco e respirei bem fundo.
- Resolvi abandonar a carreira de modelo - eu disse bem rapidinho.
- O qu? Por acaso isso  alguma piada? - Ela riu sem jeito.
- No. A ligao foi de algum da Savra Modas. Eles me ofereceram um estgio em design e eu ... eu aceitei.
Durante alguns segundos mame me olhou atnita.
- Mas eu no estou entendendo. Eu sabia que voc gostava de fazer roupas, mas... - Calou-se de repente e seu semblante foi ficando mais claro, como se tivesse entendido 
tudo. - Essa deciso tem algo a ver com o Dante? - ela perguntou, sem rodeios.
- Com o Dante? No. Por qu?
- Voc mudou tanto desde que conheceu aquele menino. E ficou ainda mais mudada depois que pararam de se ver. 
Fiquei besta! Eu no tinha dito nada pra ela, nem contado sobre nossas brigas recentes. Se bem que no era preciso ser nenhum Sherlock pra notar o sumio de Dante.
Mame passou a mo no meu ombro, querendo me consolar.
- Sei que, com tantos compromissos,  difcil ter um namorado. E sei que voc ficou muito chateada porque as coisas no deram certo. Voc at tentou esconder, mas 
eu percebi logo. - Mame inclinou-se pra frente, pra me olhar nos olhos. - Essa conversa toda sobre largar  carreira... Voc est apenas tentando reconquist-lo, 
no  isso, meu bem?
Sentei-me na beira da cama.
- No, no  nada disso.
- Ento por que est sendo to impulsiva? - Mame cruzou os braos.
- No estou sendo impulsiva! - respondi irritada. Depois respirei bem devagar e baixei o tom de voz at quase sussurrar. - Mame, estou cansada de ser modelo, e 
no  de hoje.
As sobrancelhas dela se arquearam. Mame no estava entendendo.
_ E por que voc nunca me disse nada?
_ Porque eu no conseguia. Eu no queria decepcionar voc.
_ Decepcionar a mim? - ela repetiu.
_ Exatamente. Voc s quer saber da minha carreira de modelo. Ns no fazemos nada gostoso ou divertido desde que eu tinha... Sei l, uns doze anos! S conversamos 
sobre compromissos, desfiles, fotos. Achava que se eu parasse voc... Ia deixar de gostar de mim. .
A voz saiu engasgada e eu me calei, admirada com minhas prprias palavras. Agora as cartas estavam todas na mesa. .
Mame ficou em silncio por um bom tempo. Quando finalmente falou, tinha um n na garganta.
_ Meu bem, eu jamais deixaria de amar voc! 
Ergui os olhos e vi o rosto de mame inundado de lgrimas.
_ Ento, por que voc fora tanto a barra? Por que minha carreira  to importante pra voc?
_ Porque eu te amo. E porque achei que era o que voc queria fazer. - Mame se sentou ao meu lado e me abraou. - Eu achei que era meu dever mant-la concentrada 
no seu trabalho, que era minha obrigao no deixar que outras coisas interferissem... Como namorados, por exemplo. Lembre-se de que, h muito tempo, eu tambm j 
fui adolescente...
Dei uma risadinha. Fazia anos que no conversvamos daquele jeito. E, pela primeira vez, eu comeava a entender minha me.
_ E tambm porque - continuou ela - eu achava que ser modelo era bom pra voc. - Mame suspirou e deitou no meu ombro. _ Quando seu pai foi embora, voc ficou to 
triste! Eu no sabia o que fazer... Ento voc descobriu que queria ser modelo. Foi  nica coisa capaz de preencher um pouco aquele vazio. E voc dava a impresso 
de gostar tanto daquilo... Nunca reclamou de nada. Eu quis apoi-la ao mximo.
_ E apoiou - eu falei, balanando a cabea. - Tanto que eu fiquei com medo de voc entrar em parafuso se eu largasse  carreira.  por isso que nunca reclamei de 
nada.
Mame pegou meu queixo e me fez encar-la.
- Voc tem que acreditar quando digo que nunca tive a inteno de for-la a fazer algo que no queria. - Seu tom de voz era solene. - Eu pensei que estivesse ajudando 
voc a concretizar seus sonhos.
- S que esse no  o meu sonho, mame. No mais.
Mame inclinou a cabea pro lado e me olhou atentamente como se quisesse ter certeza de que eu no estava mentindo. Por fim, sorriu.
. - Ento, eu apio a sua deciso. Qualquer coisa que a faa feliz, querida, me faz feliz tambm. -Fechando os olhos, ela me puxou e me deu um abrao apertado. - 
Mas no se queixe se eu reclamar que voc ainda no terminou suas costuras, certo?
Dei risada.
- Combinado.
Continuamos mais um pouco abraadas, chorando. Meu maior medo tinha cado por terra e eu me sentia livre como nunca.  Se pelo menos conseguisse suportar o vazio 
de ter perdido Dante ... Ento tudo seria perfeito. 

16- Dante
 Empurrei a porta de casa com o ombro e entrei, tentando no derrubar a pilha de jornais que estava carregando. Jamal entrou atrs de mim, equilibrando um volume 
quase do mesmo tamanho.
- A gente pode guardar tudo no meu quarto, por enquanto - gritei pra ele, enquanto cruzava a sala. - Amanh eu distribuo nas outras lojas.
Tnhamos passado a tarde toda entregando o jornal da escola nas lojas das redondezas. S paramos porque Jamal precisava se arrumar pra festa  fantasia. Eu estava 
cansado e de pssimo humor, ento nem protestei. Todo o 1/ au" em torno daquela festa idiota fazia eu me lembrar de Lyssa, e me deixava com mais pena de mim mesmo.
Duas semanas angustiantes haviam passado, mas nenhum sinal de alvio. Lyssa tinha sado da minha vida, mas no de mim. Eu a via na escola, na TV e nos meus sonhos. 
No havia como   escapar. No conseguia nem ir ao Carroa da Vera, meu refgio predileto, sem a lembrana de Lyssa me atormentar. Mas, apesar de estar me sentindo 
mutilado, eu tentava continuar agindo normalmente, ou do jeito mais normal que conseguia.
- Onde voc quer que eu coloque esses troos? - Jamal perguntou, entrando no meu quarto.
- Qualquer lugar. Tanto faz.
 Jamal colocou a pilha de jornais num canto, e eu larguei a minha perto da cama.
- P, cara. Voc se lembrou! -Jamal exclamou de repente. 
Dei uma olhada e vi o presente que Lyssa havia me dado nas  mos dele. O pacote estava em cima da minha mesa fazia mais de uma semana. Eu estava arrasado demais 
pra abri-lo e nostlgico demais pra jog-lo fora. - Meu aniversrio foi em abril, mas ... antes tarde do que nunca. - E enxugou uma lgrima imaginria.
- Corta essa! - resmunguei, batendo nele com um jornal enrolado.
- O que tem a dentro, afinal? 
-  um presente da Lyssa.
- Ahhh! - Ele exclamou demoradamente e franziu a testa como quem sabe das coisas. - E por que voc ainda no abriu?
- Porque ns terminamos.
- Como  que ? Quando foi isso?
- Na semana retrasada.
- Cara, e eu aqui me perguntando por que voc tinha voltado a ser o velho chato de sempre ... - Jamal resmungou, sacudindo  a cabea. - E por que estava entrando 
e saindo da aula de orientao vocacional cuspindo fogo. Puxa, eu sinto muito, cara. Ela pelo menos lhe deu algum motivo?
- Na verdade quem terminou com ela fui eu.
- O qu? Voc endoidou de vez? - Os olhos de Jamal quase saltaram das rbitas. - E por qu, posso saber?
Suspirei pesadamente e me joguei na cama. 
- Porque, na verdade, no era a mim que ela queria ... no do jeito que eu sou. Eu fui apenas um tipo de experimento.
- Ahan. - Iamal parecia pasmado. Jogou o presente na escrivaninha e se sentou no meu pufe vermelho. - Voc no quer me explicar isso melhor?
- No - resmunguei, sentindo o medo tomar conta do meu peito. - Quer dizer, quero. No sei. - Cobri a testa com os braos, me perguntando se um crebro podia explodir 
de to confuso.
Depois, respirando fundo, comecei a contar aquela histria horrorosa, desde quando as coisas entre ns pareciam bem, passando pelas tentativas sutis de Lyssa de 
mudar minha maneira de vestir e pela outra, no to sutil, de me enfiar no ramo da publicidade, at a descoberta do beijo entre ela e West.
Pra minha surpresa, me abrir e contar tudo aquilo me deixou mais aliviado, como se trazer a histria  tona diminusse o peso do fardo.
Enquanto eu falava, Jamal esfregava seu queixo e balanava a cabea.
- Voc tem certeza de que ela voltou pra esse tal de West?
Rosnei com desdm.
_ Voc devia ter visto os dois, Jamal. A nica coisa que faltou foi um padre, pra dizer: "E agora eu vos declaro Sr. e Sra. Mais Que Perfeitos Juntos".
_ Voc no pode ter se enganado? Quero dizer, isso no faz muito sentido. Se ela j estava com ele, por que no continuar com ele? Por que ia sair com voc?
Isso eu no saberia responder.
_ Talvez ela s quisesse mudar de ares um pouco. Ver como vivem os pobres.
Jamal sacudiu a cabea.
_ Essa no d pra engolir, cara! A menina estava super a fim de voc. Deu pra notar.
_ De qualquer modo, a gente no combinava. No fomos feitos um pro outro. A Lyssa vivia me condenando. Minhas roupas no eram boas o suficiente, a carreira que eu 
escolhi no era boa o suficiente ...  No adianta, no d. - Saltei da cama e comecei a andar pelo quarto, raivoso. - Eu no me importo mais. Ela e o West que vivam 
sua vidinha rasa e tenham suas carreiras rasas e passem o resto dos dias fazendo a maquiagem um do outro!
Jamal esperou eu acabar meu desabafo, depois se levantou e me olhou bem nos olhos.
_ Quer saber? Pelo que me contou, quem condenou a Lyssa foi voc.
_ Eu? - No dava pra acreditar no que eu tinha acabado de ouvir. Afinal, de que lado Jamal estava?
- , voc. Foi voc que inventou todas essas teorias, sem ter a menor prova. Talvez no seja ela quem no te acha bom o suficiente. Acho que  voc quem acha isso.
Fiquei boquiaberto e minhas mos se fecharam num gesto involuntrio, mas, bem quando estava prestes a mergulhar num protesto monumental, parei. Toda a minha raiva 
sumiu e uma sensao estranha e perturbadora me invadiu. Sentei-me de novo na cama.
Jamal ficou me olhando alguns minutos e depois disse:
- No saia daqui. Eu volto j. 
Inconscientemente, eu me dei conta de que ele tinha sado do apartamento e voltado pouco tempo depois. Mas, enquanto Jamal esteve fora, entrei em transe e comecei 
a processar lentamente o que ele havia me dito. Ser que ele tinha razo? Que a minha insegurana tinha me feito descontar tudo em Lyssa? Era
terrvel pensar naquilo.
- Quero que fique com isso. - Jamal me entregou um envelope pardo e grande.
Dentro do envelope, havia uma foto de Lyssa e de mim. Era uma daquelas que ele havia tirado na sala de jornalismo, quando ela me fez ccegas. Na foto, estou com 
a cadeira inclinada pra trs, morrendo de rir. Lyssa est debruada sobre mim, com os dedos enterrados debaixo dos meus braos, com um enorme sorriso estampado no 
rosto. Fiquei pasmado de ver a exatido com que a cmara tinha conseguido captar aquele momento de descontrao.
- Foi uma das minhas melhores fotos - Jamal comentou, me olhando nos olhos. - Bom, agora tenho que me mandar. Fiquei de apanhar a Shawna para irmos  festa daqui 
a uma hora .
Quanto a mim, continuei ali plantado, de olhos grudados na nossa foto.
- Bom, a gente se v por a, cara. Tomara que as coisas melhorem pra voc. - Iamal hesitou alguns segundos e ento saiu do quarto. Escutei a porta fechar instantes 
depois.
Pela primeira vez na vida, eu estava sem rumo. Um agitador de multides sem fala. Um escritor sem palavras. Eu havia construdo um argumento to elaborado pra terminar 
com Lyssa... S agora sentia que tudo havia cado por terra.
Lembrei-me do rosto de Lyssa na noite em que terminamos o namoro: seus olhos brilhavam de raiva e seus lbios estavam  trmulos de emoo. Bem que ela me disse que 
eu no conhecia todos os fatos! Ser que eu tinha jogado fora a melhor coisa que havia acontecido na minha vida?
Bem naquele momento, o telefone tocou, interrompendo meus pensamentos.
- Al? - Minha voz soou curiosamente distante.
- Al. Por favor, eu poderia falar com Dante Michaels?
-  ele.
- Dante, aqui quem fala  Herbert Fulsome, do Departamento de Recursos Humanos da Folha da Manh de Dallas.  sobre o' estgio ao qual voc se candidatou.
- Sim, pois no. - Estgio? Com todos aqueles conflitos, havia me esquecido totalmente do assunto.
-  com grande prazer que comunico que voc foi escolhido para ser o nosso novo estagirio - anunciou ele, com cerimnia. - Voc tem as qualificaes que estvamos 
procurando.
- Tenho? Ahn ... obrigado! - Respirei fundo, pra no sair gritando. - Quer dizer que ... vocs gostaram dos meus artigos?
- Bastante. E no foi s isso. Voc tambm se mostrou bastante profissional e seguro de si durante a entrevista. A maioria dos candidatos deixou a desejar nesse 
aspecto. Ns achamos muito importante que nossos reprteres transmitam profissionalismo sempre que estiverem representando o jornal.
- Claro - respondi distrado.
- Voc comea na prxima segunda-feira, s dezessete horas. Estamos combinados?
- Eu estarei a. Muito obrigado de novo. - Desliguei o telefone e respirei bem devagar. Quer dizer, ento, que minha vantagem tinha sido a minha aparncia na entrevista? 
A vida estava se  mostrando muito irnica ultimamente. Se no fosse pelo incentivo de Lyssa...
Olhei pra foto e fiquei acompanhando o contorno sorridente do rosto de Lyssa com a ponta do dedo. Ela era to linda! E parecia to feliz naquele momento ...
Ento, meus olhos foram parar no presente que ela havia me dado, que continuava em cima da mesa. Num gesto rpido e decidido, peguei o pacote e abri. Dentro havia 
uma tnica linda,  estampada com um desenho todo colorido, em estilo africano, com acabamento em vermelho e um forro preto brilhante. Em
cima, ela havia posto um bilhete. 

UM DIA VOC ME FALAOU  QUE TINHA GOSTADO
DAS TNICAS QUE EU DESENHEI. POR ISSO CRIEI
UMA PRA VOC, UMA LYSSA NAYLOR ORIGINAL!
COMO EU J DISSE VOC ME INSPIRA. EU QUERIA
LHE DAR ISSO LOGO, POR ISSO FIZ ISSO COM UMA 
CERTA PRESSA. POR FAVOR, ME DESCULPE SE EU 
TIVER ESQUECIDO ALGUM ALFINETE.
OBRIGADA POR ACREDITAR EM MIM MESMO
QUANDO EU NO ACREDITAVA.

EU AMO VOC

LYSSA.



17- Lyssa

"Os educadores deveriam ter em mente, ao organizar essas festas supostamente tradicionais, que nem todos tm uma fada madrinha capaz de lhes fornecer roupas caras, 
presentes e um meio de transporte."
Assim terminava o artigo mordaz que Dante tinha escrito pro jornal da escola. Eu havia enfiado um na mochila, no dia anterior, e estava lendo-o na sala. A casa estava 
escura e vazia.
Como eu.
Mame tinha sado para buscar uma pizza, uma festa de calorias que eu no experimentava h meses. Conversar com ela e esclarecer as coisas havia me deixado em paz. 
Na verdade, fazia tempo que eu no me sentia to bem, mas isso no afugentava a saudade que sentia de Dante. Chorar, desenhar, chorar mais um pouco ou ler sua coluna 
tambm no faziam muito efeito.
Depois da conversa com mame, comecei a ver tudo com mais clareza, inclusive meus problemas com Dante. Ele havia cometido uma tremenda injustia ao me acusar de 
traio, sem nem sequer me dar a chance de explicar. Mas, com toda certeza, foram as minhas tentativas equivocadas de ajud-lo que o deixaram to magoado comigo.
Mame tinha me pressionado daquele jeito porque achava que seria para o meu prprio bem, e eu havia ficado ressentida com ela. Mas a minha mgoa no me impediu de 
fazer a mesma coisa com Dante. Eu me meti na vida dele e o afastei totalmente de mim.
Sem dvida, o amor complicava muito as coisas.
De repente, a campainha tocou. Com certeza era mame trazendo um monte de pizzas engorduradas.
- Espero que no tenha esquecido da poro extra de parmeso - falei, abrindo a porta.
No era mame, mas Dante, encostado no batente da porta, sorrindo timidamente. Por alguns instantes, tive medo de estar tendo uma alucinao. Muitas lgrimas e falta 
de comida deviam provocar isso nas pessoas. Prendi o ar e examinei melhor a figura na porta. Ele estava usando um terno escuro, de corte clssico, a tnica que eu 
havia lhe dado, e tnis de cano alto roxo. Era mesmo o Dante!
- No deu pra trazer o parmeso - ele disse, como quem pedia desculpas. - Mas eu lhe trouxe isto. - E, tirando as mos das costas, entregou-me uma flor. Uma grbera 
cor de pssego, ainda no vaso.
Peguei-a e olhei curiosa pra ele, ainda aturdida demais para conseguir falar.
- Eu afanei da nossa sacada na hora de sair - ele explicou. - Imaginei que todas as floriculturas j estivessem fechadas a essa hora.  s pra dizer que eu sinto 
muito ... Uma espcie de cachimbo
da paz, como diz voc. 
- Dante, eu ... - falei com voz embargada e lgrimas escorrendo pelo rosto.
- O que foi? - ele perguntou bem baixinho, com o semblante preocupado. - Foi esta flor barata?
-No. 
- Meus tnis? O terno?
- No - repeti, sorrindo atravs das lgrimas. - Voc est timo assim.
- Ento o que ? - Ele entrou em casa, fechou a porta e ps as mos nos meus ombros. - Fala comigo, Lys.
- Eu... eu estou to feliz de te ver. Pensei que voc nunca mais fosse falar comigo! - Mais uma vez fui sufocada pelos soluos. 
Meu corpo todo tremia.
Dante tirou o vaso da minha mo e o colocou numa mesinha.
Depois, me pegou nos braos e me abraou bem apertado.
- Calma - ele sussurrou, afagando meu cabelo. - Est tudo bem agora.
- No, no est. Eu sei que o deixei furioso. Fiquei pressionando voc pra fazer isso e aquilo sem nem sequer pensar no que voc queria. - Afastei-me dele e olhei-o 
nos olhos. - Eu achava, sinceramente, que estava ajudando voc. Era meu jeito de demonstrar carinho.
- Eu sei. S agora eu entendi isso - ele disse, afagando de leve o meu rosto. - Desculpe a minha reao. Meu comportamento foi um horror. Todo esquentado, inseguro 
como ningum. Algum deveria ter organizado um protesto contra mim.
Eu dei.risada, encostando a cabea no ombro dele. Depois comecei a chorar de novo ... de puro alvio. Meu Deus! Olha s o estado em que estou. Naquele momento, achei 
que nunca mais fosse parar de chorar. 
No fim, as lgrimas foram secando. Ergui a cabea, olhei para o rosto meigo de Dante e, de leve, passei a ponta dos dedos em sua testa, em seu nariz, no contorno 
de seus lbios.
- Eu preciso de voc, Lyssa. Sem voc, o mundo  imperfeito demais.
Cutuquei-o nas costelas, com um sorriso maroto. 
- Algum j lhe disse que voc  muito cnico?
- S que no d mais pra mudar - ele disse, abrindo os braos. - Agora  pegar ou largar.
- Acho que vou pegar.
Fechei os olhos e o abracei, sentindo o calor de sua presena.
Pela primeira vez, depois de muitos dias, eu me sentia inteira de novo. Estava no lugar ao qual pertencia... nos braos de Dante.
Ficamos abraados por um bom tempo. Depois, Dante recuou um passo e olhou o relgio.
- No  melhor voc ir se trocar? - Ele deu um sorrisinho dissimulado. - A festa j comeou.
E foi assim que acabei tendo o meu final feliz. Depois de dar uma explicao apressada pra minha me e de comer uma fatia de pizza de pepperoni, chegamos ao salo 
elegantrrimo do hotel onde estava sendo realizada a festa.
Eu estava com o meu vestido cor de cobre, uma grbera no cabelo e culos. Dante, com uma mancha de molho de tomate no colarinho. Tudo como deveria ser.
- Voc sabia que est todo mundo olhando pra ns? - falei, enquanto ele me puxava pra pista de dana.
- Que se danem! - Dante me respondeu, sem dar muita bola. Enlaou a minha cintura e l fomos ns, nos movimentando pra l e pra c, ao som da msica. - Esto olhando 
porque voc  a mulher mais bonita desta festa.
- Na verdade, acho que est todo mundo chocado de ver voc por aqui. E voc, no sente que est abrindo mo de seus valores vindo a um evento "elitista" como este?
Dante ergueu os ombros.
- No fundo, eu tenho de admitir, estou feliz por termos vindo. Existe um certo qu de mgica numa festa  fantasia. Principalmente - os olhos deles brilharam - quando 
voc est com a menina dos seus sonhos.
Erguendo minha mo, ele me fez dar um giro com graa.
Depois, me puxou de volta pros seus braos, me inclinou pra trs e colou seus lbios nos meus, num beijo longo e romntico. Senti vrias borboletas voando dentro 
de mim outra vez.
 nossa volta, as pessoas aplaudiam e assobiavam. Nossos lbios se separaram e Dante revirou os olhos.
- Puxa esse pessoal no tem educao mesmo! - ele resmungou, me ajudando a ficar de p. - Preciso escrever um editorial sobre o assunto.
Dei risada e dei-lhe outro beijo. Dante, como todo mundo, no era perfeito. Mas era perfeito pra mim.


                                     FIM


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